Do Próprio Inferno

3 3. Cadeira elétrica


Como previsto o casamento foi marcado o mais rápido possível. Nem tive tempo de respirar direito naquela semana com minha mãe gritando comigo para que eu me interessasse mais. “É seu casamento, devia estar feliz com isso!” ― Adorava falar.

Na verdade eu estava enjoada, vomitaria a qualquer momento.

“Droga! Devia ter matado a criada!” ― pensava constantemente.

Minha mãe apertava-me dentro do espartilho como se eu fosse uma salsicha. Eu já estava sem ar!

― Para quê apertar tanto, mamãe? ― eu lamentei com dentes cerrados.

― Se aquiete! Pode sugar a barriga por um momento, por favor? ― pediu, ou melhor, mandou.

Eu o fiz e minha querida e amada mãe fez com que, finalmente, o ar se esgotasse.

― Não consigo... respirar! ― gritei com o pouco de fôlego que tinha.

― Ora, não seja dramática Renata! ― riu mamãe. ― Está tão linda!

Ela me virou para o espelho para eu ver o reflexo de meus pesadelos mais profundos.

“Eu não vou matar a criada, eu não vou matar a criada, eu não vou matar a criada.” ― tentava me convencer. Eu tinha prometido ao Denys que não o faria, mas estava cada vez mais difícil.

Estava tão vermelha olhando para o espelho! Deveria ser pela falta de ar. Mas eu tinha que admitir, estava bonita. Muito embora desejasse que esse casamento não tivesse sido assim tão cedo.

― Veja como ela está linda! ― disse a senhora Wilson entrando no quarto. ― Que sorte meu filho tem de casar-se com tão bela moça!

― Obrigada. ― eu murmurei desanimada.

― Mas que falta de ânimo, querida! É o seu casamento, muitas mulheres sonham com isso desde que nasceram!

“Não sou como as outras mulheres” ― pensei, mas não falei nada.

― Quem diria! Minha irmã vai se casar antes de mim! ― disse Anne enquanto entrava no quarto, toda sorridente.

Certo, e agora? Quem faltava aparecer? ― como eu digo atualmente ― Virou zona, é?

― Vim dizer que já está na hora. Estamos esperando. ― disse ela saindo do quarto rumo ao jardim, onde seria realizada a cerimônia.

― Que maravilha! ― exclamou mamãe sorridente.

Gemi de frustração.

―

A marcha nupcial gritava noite afora enquanto eu atravessava o corredor cheio de flores. Para mim, era o corredor da morte e no final dele estaria a cadeira elétrica.

Denys sorriu alegremente para mim. Ao menos seria ele, tentei me conformar. Comecei a lembrar-me da noite anterior quando ele invadiu meu quarto no meio da noite querendo antecipar a lua de mel. Realmente gostava do jeito que ele pensava.

Retribui seu sorriso, mas meio melancolicamente. Ele me lançou um olhar que pedia desculpas.

Olhei para as pessoas sorridentes dos bancos olhando para mim, esperando pela hora que eu sentasse na cadeira elétrica e levasse um enorme choque.

Minha mãe chorava ao lado da senhora Wilson, que derramava lágrimas hipócritas. Agora você pergunta: como lágrimas podem ser hipócritas? Pergunte para ela, que era um poço de hipocrisia.

Ao meu lado, segurando meu braço um pouco forte demais, talvez para que eu não saísse correndo, estava meu pai, com um sorriso no rosto que eu não sabia dizer se era verdadeiro ou falso.

No altar, ao lado de Denys, estavam Anne e Thiago, irmão de Denys, que não paravam de se encarar. Pelo jeito Anne havia fisgado o cara de vez. Sorte dela, ele era lindíssimo.

Thiago virou seu rosto sorridente para mim e deu um sorriso maior ainda. Ele iria rasgar os lábios desse jeito!

E em fim, depois do que pareceu um século, eu cheguei ao altar e dei minha mão ao Denys. Ou melhor, sentei na cadeira elétrica. E o padre começou:

― Irmãos e irmãs, estamos aqui hoje reunidos para juntar esses dois jovens... ― blá, blá, blá.

Por mim eu mudaria a fala do padre para:

“Homens, mulheres e crianças, cheguem mais perto para poder ver esse maravilhoso espetáculo, onde iremos eletrocutar essa pobre moça que vai sofrer muito depois de um choque de três mil volts, mas vai permanecer viva para sofrer mais um pouco.” ― a fala perfeita; Idiota, mas ao menos refletia o que eu pensava sobre tudo aquilo.

Vagueei meus pensamentos pelos meus próximos anos, os cabelos despenteados, a maquiagem escorrendo, o esmalte da unha lascado; tudo porque eu não teria tempo para mim, minha vida seria resumida em lavar a ceroulas do meu marido, aprontar o café, almoço e jantar e satisfazer seus desejos.

Inferno, inferno, inferno!

― Hm... Renata? ― chamou Denys e eu saí de meus devaneios.

― Você aceita? ― perguntou o padre, que pelo jeito já havia dito aquilo antes.

Meus olhos cresceram notando que havia chegado à parte decisiva.

― Hm... ― hesitei. ― Ta, aceito. ― minha voz saiu em um murmúrio alto o suficiente para o padre ouvir.

― Ótimo! ― sorriu o padre. ― Eu os declaro marido e mulher.

Que inferno!

― Já disse que não vai ser ruim. Eu prometo. ― falou Denys em meu ouvido.

Os aplausos e assovios foram aumentando e saímos correndo em uma chuva de arroz. Que para mim eram como balas de metralhadoras.

O anel que de repente vi em meu dedo estava pesado, assim como o maldito buque de flores em minhas mãos.

Fomos para o carro que nos esperava. ― Sim, havia carros na época. Agora pense no carro mais antigo que puder: E é pior que isso.

Entramos no maldito carro que rumava para a maldita festa de comemoração, onde os malditos convidados estariam com seus malditos sorrisos no rosto e seus malditos desejos de felicidade. Maldição.

― Quero morrer. ― murmurei.

― Não fale isso, Re. Se você morrer, eu vou junto. ― melodramático.

― Não seja bobo, Romeu. ― eu ri da minha piada irônica.

― Vou até o inferno por você, Julieta. ― ele entrou na brincadeira, mas ele falava sério.

― Não estou muito longe disso. ― falei enquanto meu sorriso desmoronava.

Denys não falou nada por um tempo, mas eu vi que ele começou a pensar em algo para me animar.

― Sabe, Renata, eu estou feliz. ― ele sorriu.

― Por quê? ― quis saber.

― Por que me casei com você, ora! No começo eu não queria, mas agora eu não vejo felicidade maior.

― Desculpe. ― lamentei.

― Pelo quê?

― Por não pensar da mesma maneira.

Um silêncio desconfortável dominou o interior do maldito carro. Acho que minha sinceridade o machucou. E daí? Eu não ligava muito para isso.

― Vou fazê-la mudar de idéia. ― ele disse de repente rompendo o silêncio.

― Eu te desafio. ― levantei uma sobrancelha, olhando fundo em seus olhos.

Ele sorriu maroto.

―

A maldita festa estava um tédio. Sentada à mesa principal com os cotovelos na mesa, nada elegante, suportando a minha cabeça entre as mãos. Eu ficava olhando as patéticas pessoas gargalhando e dançando as valsas.

― Parabéns, que rapaz bonito arranjas-te! ― disse Louis Green, uma de nossas vizinhas.

É, os malditos votos de felicidade não haviam acabado ainda. Maldição, maldição, maldição!

Ah! Sim, eu adorava praguejar, um dos meus hobbies preferidos, e ainda é até hoje.

Louise se afastou quando eu não respondi nada, apenas fiquei encarando ela mortiferamente.

― Renata, seja mais educada! ― sibilou minha mãe ― E sente direito! Ora, uma mulher casada e não aprendeu a comportar-se? Vão pensar que eu não a eduquei direito!

― Desculpe, mamãe. ― murmurei revirando os olhos e me ajeitando na cadeira.

― Porque não vai dançar com seu marido? ― minha mãe mandou. Sei que parece pergunta, mas foi uma ordem.

Denys, sentado a minha esquerda, ofereceu-se para eu segurar sua mão e segui-lo. Olhei novamente para mamãe, à minha direita, e ela me lançou um olhar dilacerante. Dei um pesado suspiro e segurei a mão estendida de Denys. Fomos para o meio da pista e começamos a valsar.

Ouvi muitos: “Como eles são perfeitos juntos!” ou “Que casal maravilhoso!” ― estava cansada disso.

Eu dançava muito bem, graças às aulas de dança que minha mãe me deu desde muito nova. Denys levantou uma sobrancelha, questionador.

― O quê? ― perguntei fingindo que não sabia o que ele pensava, mas eu sabia exatamente.

― Você dança incrivelmente bem, amada. ― estremeci com essa palavra; amada.

― Pensou que eu não sabia dançar, Romeu? ― brinquei, tentando esquecer a palavra.

― Na verdade, eu imaginei que soubesse dançar, Julieta, mas não pensei que fosse tão boa nisso. ― disse ele me rodopiando pelo salão.

Dei de ombros.

O soneto terminou e foi anunciado, finalmente, que eu iria jogar o buquê. Tradição mais sem graça.

Suspirei pesadamente pedindo para os céus que me dessem forças para que eu pudesse suportar àquilo. Olhei as mulheres, reunidas em um grande bolo humano, desesperadas por casarem-se, pobres coitadas ― idiotas. Entre elas minha irmã.

Olhei bem onde Anne estava para que eu mandasse direto em suas mãos e me virei. Sem mais delongas joguei o buque na direção dela e me virei para ver, mas quem tinha o pegado fora a criada, Berta. Quem a tinha convidado afinal?

“Eu não vou matar a criada, eu não vou matar a criada” ― passei a repetir meu mantra mentalmente.

― Calma, meu amor. ― falou Denys em meu ouvido. O ‘meu amor’ me deixou com mais raiva ainda.

“Eu não vou matar a criada, não vou matar a criada” ― continuava a repetir, já estava vermelha de fúria. As veias das minhas têmporas estavam pulsando irritantemente.

― Renata, meu bem, tente se controlar. ― ‘meu bem’; o sangue subindo para minha cabeça ameaçando explodir.

“Eu não vou matar o Denys, eu não vou matar o Denys” ― me vi repetindo.

― Não está ajudando. ― sibilei em dentes cerrados.

― Desculpe. ― ele suspirou.

Tentei parar de pensar naquilo, tentando ver coisas boas no que estava acontecendo comigo, mas eu não via nada e minha cabeça agora doía com a força a qual eu apertava minha mandíbula segurando um grito de puro ódio.

― Preciso tomar um ar. ― falei com a voz abafada pelos meus dentes.

― Eu vou com você...

― Sozinha. ― o cortei.

― Como quiser.

Puxei meu vestido para cima um pouco, para a barra não se arrastar pelo chão, enquanto saía pesadamente pela porta do lugar. Havia um tremendo jardim, tão bonito quanto o da casa de Denys. Passei a adentrar em um caminho de pedras por entre alguns arbustos e percebi que poderia me esconder fácil por algum tempo, então era ali que eu ficaria.

Finalmente um tempo para mim. Talvez o último momento para eu respirar livremente antes de começar a fazer os deveres de casa, para agradar meu marido. ― Que palavra abominável.

Encontrei um banco de concreto e me deitei em sua extensão olhando para as estrelas brilhando tão inocentemente no céu, alheias a minha realidade. ― Devia ser boa a vida de uma estrela: não ter que se preocupar com nada e ter pessoas as admirando em todo o mundo por seu brilho puro e natural.

― Estão todos se perguntando onde a noiva se encontra. ― disse uma voz aveludada e brincalhona. Não sabia de quem era então me designei a olhar.

Thiago estava de pé perto de onde eu entrei para ir até ali, tão bonito quanto estava na cerimônia. Bufei e voltei a olhar as estrelas, sem responder ao seu comentário.

― Você está bem?

― Estou ótima. ― murmurei desagradavelmente.

― Não me parece ótima. ― ele riu.

Fechei meus olhos por um instante e respirei fundo. Sentei-me no banco e me assustei em constatar que ele estava tão perto.

― O que faz aqui? ― perguntei, rude.

― Nossa! Você é um poço de cordialidade. ― ele riu.

Enrubesci.

― Como já disse, estão todos a sua procura. ― ele disse dando de ombros e sentando ao meu lado.

― E agora que me achou? ― eu pedi, em um tom mais leve.

― Não contarei onde está ― ele sorriu mais ainda, ameaçando rasgar a boca ―, seu segredo está seguro. Aparentemente você não está muito contente com o casamento.

― Não quero falar sobre isso. ― suspirei triste.

― Certo. Do que quer falar?

― Não quero falar. ― eu disse olhando para meus pés.

― Tudo bem, então, eu falo. ― deu de ombros ― Não são incríveis?

― O quê? ― perguntei confusa e olhei em seus olhos, que se arrastavam pelo céu.

― As estrelas. ― disse apenas. Então nossos olhares se encontraram e eu senti algo estranho. Algo que jamais senti. Era forte e arrasador.

Thiago tinha olhos tão sinceros e tão perfeitos. Brilhavam com a intensidade de mil sóis. E seu sorriso de dentes perfeitos era incrível. Senti algo como segurança e paz! Céus! Estava perdida! Perdida em seus olhos e perdida na vida.

― Você sentiu? ― ele perguntou olhando perdidamente em meus olhos.

Droga, eu havia sentido!

Assenti.

Ele começou a encurtar a distância entre nossos lábios e eu fiz o mesmo. Quando nossas bocas tocaram-se eu estremeci com o choque elétrico, diferente de como foi com Denys, àquilo era mais forte, mais intenso.

Seus lábios moveram-se gentilmente contra os meus, como se soubesse que eu precisava de calma e só começaram a ser vorazes quando eu queria que eles fossem. Supriam minhas necessidades sem qualquer palavra. Eu era preenchida por um sentimento tão novo e diferente, que notei estar escasso em mim.

Nossas línguas colidiram com uma dança frenética e perfeita, como se ele quisesse entrar em minha mente tanto quanto eu queria entrar na sua. Ele tinha um gosto tão bom. ― Digo isso com perspectiva de uma humana com um humano, é claro.

Nossas respirações começaram a acelerar e ele abraçou minha cintura tentando tirar qualquer espaço entre nós. Eu queria tanto aquilo! Que Denys me perdoe, mas o irmão dele beijava muito melhor.

“Denys!” ― lembrei-me. ― “Ele não merecia essa traição, ainda mais logo após o nosso casamento!”

Relutantemente tentei me afastar e Thiago, ao notar isso, afrouxou o aperto.

― O que foi? ― ele perguntou inocentemente.

― Eu acabei de me casar, Thiago. E com seu irmão! Isso não é certo.

Ah, sério? E daí?

Ele abaixou a cabeça e bufou triste.

― Sei que não é certo, mas assim que eu a vi, Renata, andando pelo tapete vermelho em direção ao altar, eu percebi que tudo que eu via em Anne, tudo que gostava nela, era apenas um mero reflexo do que eu via em você. Uma ilusão. Estou tentando reprimir isso desde então. Mas, você pode ter alguma noção do que você faz comigo? ― ele riu. ― Me deixa completamente fora de mim. ― suspirou pesadamente tentando se recompor ― Desculpe.

― A culpa não é toda sua, eu também queria. ― reconfortei-o ― Tudo que você disse condiz comigo também. Eu olhava para o seu irmão e via apenas o reflexo do que eu vejo em você agora. ― declarei.

Que coisa mais melosa!

Ele sorriu triste e eu retribuí, com o mesmo. A realidade havia finalmente nos tomado. Eu era uma mulher casada e não tínhamos chances juntos.

― Por que tive que te conhecer só agora? Por onde esteve esse tempo todo? ― ele lamentou.

― Com o homem errado. ― declarei abaixando a cabeça para meus pés inquietos.

― E eu, a mulher errada. ― ele disse, mais para si mesmo do que para mim.

Suspiramos de descontentamento ao mesmo tempo e acabamos rindo da sincronia.

― Você tem um sorriso lindo. ― disse Thiago.

― O seu até que é razoável. ― menti, corando, não queria admitir que o sorriso dele era perfeito demais.

― Você nunca deixa a guarda cair, não é? ― ele riu.

― Talvez em algumas ocasiões. ― brinquei.

― Como essa? ― ele sussurrou enquanto vinha dar-me outro beijo, que eu não recusei.

Novamente esquecemo-nos do mundo enquanto eu delirava em seus braços, gemia em sua boca e tentava encontrar algum ar. Eu pegava fogo! Não conseguia segurar meus hormônios descontrolados. Não queria segurá-los.

Seus braços fortes me envolvendo com ardor e esmagando meu corpo no seu. Quando vi já estava deitada sobre o banco com ele me beijando enlouquecidamente. Suas mãos foram parar em minhas cochas e eu podia sentir, apesar dos panos do vestido, que choques corriam entre nossas peles.

― Temos que parar. ― eu declarei sem fôlego quando consegui ficar sóbria.

― Tem razão, temos. ― ele disse beijando meu pescoço. ― Mas eu não consigo.

― Nem eu. ― admiti e voltei a beijá-lo, me embriagando com seu cheiro, com seu gosto e com sua pele. Só que estava errado. ― Mas temos, Thiago. Todos já devem estar loucos a minha procura. ― falei decisivamente.

Relutantemente, não tanto quanto eu, ele se afastou e nos levantamos automaticamente.

Denys, além de corno, devia estar preocupado com minha demora. Coitado.

Thiago e eu tentamos manter distância, mas não saiamos do lugar, um olhando nos olhos do outro.

― A achei, finalmente! ― gritou a já conhecida voz.

“Não vou matar a criada, não vou matar a criada!” ― novamente comecei meu mantra.

― E, Thiago, o que fazes ai? ― perguntou a irritante Berta, era a rainha quando o negócio era chegar a momentos inconvenientes.

― Eu acabei de achá-la. ― ele mentiu ― Já estávamos nos encaminhando até a festa, Berta.

Ela assentiu e me lançou um olhar desconfiado ― megera mal amada! Ela se virou e voltou por aonde veio.

― Eu ainda a mato. ― murmurei baixinho para mim mesma.

― O que disse? ― perguntou Thiago.

― Disse: “Belo sapato” ― consertei olhando para seus sapatos de couro preto lustroso. Sorri disfarçando.

― Ah! Obrigado. ― ele sorriu.

― Vamos? ― chamei.

Notas finais
Certo, nenhum review até agora... --'
Eu sei que a história boa, poxa! Mas ninguém lê...
Depressiva.
Pensando em parar de postar... T-T
Por favor! Comente! =)