Do Outro Lado do Oceano

112 Capítulo 112: POV Clarissa Simpson


Notas iniciais
Escrevi ouvindo "Something I Never Had" da Lindsay Lohan. E só agora que eu percebi que a frase principal dessa música encaixa perfeitamente no significado de todo esse capítulo! COMPLICADO! (A frase principal é: I can't keep something that I never had, ou seja, eu não posso manter uma coisa que eu nunca tive.) Só para vocês saberem, esse é um capítulo de transição. Daqueles que tem praticamente só pensamento, forma uma base pro que vem ou explica melhor um personagem. Leva de um ponto a outro, essas coisas. Mas os próximos dois, fãs de Lorc, fiquem felizes, serão do Marc e da Lola, nessa ordem. E garanto que vão amar. Hehe. Boa leitura! E depois me digam o que acharam!

Natal era de longe meu feriado favorito do ano. E eu amava cada detalhe dele. O contraste entre o ar frio do lado de fora do castelo e o calor que vinha dos fornos ligados o dia inteiro, o cheiro de gengibre no ar, fornadas e fornadas de biscoitos por todos os lados da cozinha e cada uma das sobremesas e pratos do jantar. Sem contar cada uma das decorações que apareciam por todo lado dos corredores. Os salões vermelhos tradicionais encaixavam perfeitamente nas festividades, mas luzinhas novas apareciam em cada canto, pequenos bichinhos, soldadinhos de chumbo, mini vilas natalinas no hall de entrada e várias meias penduradas nas lareiras de todos os cômodos, me fazendo querer rodopiar pelos corredores ao invés de andar. E não era só o meu feriado favorito. Era também o do Rei Gareth. E todos se empenhavam em deixá-lo orgulhoso sempre. Pelo menos, desde que podia me lembrar.

Eu passava o ano inteiro esperando por aquela época. E as poucas lembranças que ainda tinha da minha infância tinham sido marcadas por canções natalinas.

Ainda criança, aquele feriado me significava bem mais do que só passar tempo com a minha família e abrir o presente que meus pais tinham passado meses tentando comprar. Significava também encher a minha meia com o máximo possível de doces, ficar com os presentes que a mãe de Lola não queria que ela tivesse e, com um pouco de sorte, brincar com as outras crianças na neve. Grudar meu nariz no vidro de uma porta fria até alguém me perguntar se eu queria me juntar a eles era uma tradição para mim. Eu os observava de longe, afundando na neve, jogando bolas um no outro, enquanto eu aprendia seus nomes, me preparando para o momento em que me juntaria a eles. E não importava quanto tempo ou frio eu passasse lá fora no meio das outras crianças, naquela noite eu deitaria na minha cama e sonharia durante horas com outras brincadeiras que ainda queria ter a chance de compartilhar com eles.

A cada ano, eu precisava passar menos tempo com o nariz no vidro até alguém me notar. Antes era o rei, mas depois Lola mesmo ou qualquer uma das outras crianças me chamava e eu corria até eles. De todas as memórias da minha infância, nenhuma se comparava à felicidade que eu me enchia o peito quando todos olhavam para mim e me convidam para ser um deles.

Mas eu não era um deles. Não de verdade.

Se me perguntassem hoje, diria que sabia disso, sempre soube. Lola usava pequenas tiaras desde muito nova, tiaras que valiam mais do que todas as roupas que eu tinha e mais um pouco, meus pais serviam os dela e, depois de horas de brincadeiras, eu voltava para o dormitório embaixo do castelo, enquanto ela subia escadas até o topo e dormia em uma cama maior que meu quarto. E não era como se qualquer uma das outras crianças tivesse uma vida muito diferente da dela. O grupo todo era feito de filhos de nobres e outros reis e rainhas. E até mesmo enquanto eu estava no meio deles, ainda tinha alguns poucos momentos em que era impossível negar que eu não pertencia ali. Quando eles discutiam suas viagens, suas posses, seus futuros. Todos eles estavam de um lado, com vidas traçadas em caminhos parecidos, se perguntando entre si se algum dia teriam que se casar, achando a maior graça e vergonha naquilo, enquanto eu sentia como se estivesse de novo atrás da porta de vidro, só como uma telespectadora.

Esses momentos não eram raros, mas eu os classifiquei como insignificantes logo cedo. Comentava no que eles diziam ou mudava de assunto, logo os trazendo para o meu lado. E, quando encostava minha cabeça no travesseiro de noite, já não me sentia mais excluída, não estava mais incomodada. Sabia que não era um deles, mas era impossível negar que queria ser. E que, de vez em quando, realmente acreditava que poderia ser.

Até completar dez anos de idade.

O Natal daquele ano foi marcante para qualquer um. Na época, não sabíamos, mas seria o último Natal em que a Rainha não estaria doente. O último Natal que o Rei quis comemorar de verdade. O último antes de Skar ser convidado para praticamente morar no castelo.

Mas para mim aquele foi o primeiro Natal em que não tive a chance de me sentir parte do grupo. De todos os comentários e conversas nos quais eu já tinha me sentido excluída, nenhum me marcou como aquela noite. Estávamos todos na celebração, o rei e a rainha em seus tronos e Lola, com doze anos de idade, já alta e comportada, sentada logo ao lado de seu pai. Todos os criados podiam participar da celebração, mas nós tínhamos que ficar no fundo, longe deles, na sombra, depois de cada um dos convidados.

Antes, meus pais me puxavam para o lado deles, ou eu conseguia escapar e ia abrir um espaço entre Kyle e Jack para poder me sentar lá na frente. E nunca alguém tinha me impedido ou me reprimido.

Mas naquele ano, depois de reclamar com a minha mãe que ela não me deixava ir com meus amigos e começar a andar na direção do altar, um guarda parou na minha frente. Ele me conhecia, dormia a algumas portas de mim, mas nada que eu lhe disse conseguiu persuadi-lo a me deixar passar. Ser obrigada a voltar pro lado da minha mãe fez com que eu me sentisse pequena. Minúscula. A menor pessoa do mundo. E quando a celebração acabou, eu já estava quase invisível.

Mas aí a festa começou e eu me enchi de esperança de novo de ser livre. Era um salão aberto e eu poderia perambular até encontrar meus amigos e esquecer daquela sensação terrível como costumava fazer. Isso se não tivessem me barrado outra vez. Os docinhos incríveis que eu tinha visto serem feitos na cozinha não eram para meus dedos. A pista de dança que tinha assistido meu pai montar não era para meus pés. E não podia chegar nem a um metro de distância do vestido que minha mãe tinha costurado para Lola. Os convidados não me olhavam nos olhos e nenhum dos meus amigos me ofereceu mais do que um sorriso. Eles já não brincavam, se sentavam perto um do outro e conversavam sem precisar da minha companhia. Eles aproveitavam das bebidas coloridas e incríveis que faziam meus olhos encherem de lágrimas como se não fosse nada demais. E eu tinha que me contentar com assisti-los.

Foi uma onda de rejeição atrás da outra. Eu sabia que não era um deles, sempre soube. Sabia que os outros eram da realeza e que meu futuro era ser uma criada. Só não entendia o quão profunda aquela diferença era. Nunca tinha percebido de verdade o tamanho da distância que tinha entre nós, mesmo quando só estava a dois metros deles.

Naquele Natal, eu voltei pro meu quarto muito antes de dar meia-noite. Até hoje me lembro das horas que passei deitada na minha cama no escuro, pensando em tudo que eu sabia deles, todos os momentos em que podia jurar que éramos amigos de verdade, ignorando de propósito os em que eu me sentia a estranha. Tinha raiva, muita raiva. Mas não deles. Tinha raiva de mim. Raiva das minhas roupas, das minhas coisas, do meu futuro e do meu nome. E de todas as pessoas naquela festa, de guardas à realeza, que não entendiam que eu era amiga deles e não só mais uma filha de criada. De todos aqueles que bloquearam meu caminho, me proibiram de comer dos mesmos doces, de frequentar o mesmo lado do salão.

Minha mãe me garantiu que eles ainda se importavam comigo, que eu não deveria reclamar do que não tinha, que precisava ser grata pela sorte que me rodeava. Só de morar no castelo, de conhecer a família real, que menina que não daria tudo para estar no meu lugar! E minha raiva foi passando, eu fui me sentindo pequena, tão pequena que acabei encaixando exatamente aonde eu estava. E com o tempo eu percebi que ela estava certa. Eu que tinha me deixado levar a acreditar que podia ter mais do que era.

E eu tinha sorte. Os anos se passaram e eu era, sim, convidada para ficar entre eles. Mas era impossível negar que ainda tinha uma diferença enorme entre nós. Eu já não a sentia me perfurar e ela já nem me incomodava. Mas tampouco passava despercebida.

Então quando Chris resolveu tocar no assunto e conversar de como a realeza nunca entenderia pessoas na nossa posição, eu entendia bem do que ele estava falando. Podia não concordar completamente, mas algo no fundo da minha cabeça queria gritar que já tinha colecionado memórias e provas de que ele tinha razão.

"Eu até entendo que muita gente pense que não é bem assim," ele dizia, enquanto eu o ajudava a se ajeitar na sua cama depois de sair da enfermaria. "Tenho amigos de fora do castelo que vivem me perguntando se eu sou amigo também dos príncipes, como se morar no mesmo castelo fosse um certificado de proximidade."

"Não é bem assim," comentei, só para ele não reclamar que eu não falava nada.

A verdade é que eu tinha mesmo memórias e provas empurradas pro fundo da minha cabeça e quase podia sentir o cheiro de gengibre só por cogitar me lembrar daquele Natal. Mas não queria ter que pensar naquilo logo naquele momento.

"O que eles não entendem é que estar perto da realeza não é um grande prêmio," ele continuou, me fazendo parar de mexer em sua coberta para lhe arriscar um olhar rápido. Ele praticamente estava declarando que minha mãe estava errada sobre nossa sorte. "E que, mesmo que eu viva no castelo, não estou nem aí para eles. Não quero ser amigo dos príncipes, não preciso acreditar que estamos no mesmo nível, não quero ser como eles."

"Não?" Minha voz saiu fraca e Chris nem reagiu, me dando a impressão de que não tivesse me ouvido.

"Fora daqui, todos me vêem como alguém que ganhou na loteria, meio caminho andado até o que todos sonham em conquistar," que garota que não gostaria de estar no seu lugar!, as palavras da minha mãe agora andavam lado a lado das dele. "Mas aqui as pessoas me entendem," para a minha surpresa, Chris se esticou e pegou uma mão minha, me forçando a parar de ajeitar sua coberta e olhá-lo. "Você me entende," continuou. "Você consegue ver que tem muito mais na vida do que só aspirar à realeza. Que eles são eles, e a gente é a gente. Você entende a beleza da vida que levamos, das coisas que fazemos. E por nós mesmos!" Ele bateu com uma mão fechada em seu punho, como se fosse um grito de guerra. "Não por eles, mas por nós! Pela nossa dignidade. Pela nossa vida!"

Eu lhe sorri, sem falar nada. Sabia que estava tomando um remédio forte para seu estômago, mas não imaginava que lhe daria esse efeito. Ele quase parecia bêbado. E se falava daquele jeito por influência do medicamento, eu definitivamente não participaria da conversa.

"Você me entende," ele falou outra vez, sorrindo para mim, me mirando e voltando a buscar minha mão com a que tinha batido no peito.

"Entendo," repeti para lhe confortar, empurrando-o discretamente até que voltasse a se deitar e eu pudesse cobri-lo. "Agora você precisa dormir."

"Eles fingem que não se acham superiores," ele não parecia disposto a desistir daquele assunto, se recusando a deitar mesmo quando eu o empurrava mais forte. "Eles conversam com a gente como se estivessem no mesmo nível, mas não perdem uma oportunidade de nos lembrar que eles estão do outro lado. E a gente está aqui. A gente está aqui, Clarissa!" Eu não tinha passado muito tempo com ele, mas tinha certeza de que era o remédio. Ele piscava várias e várias vezes seguidas, se forçando a continuar acordado, segurando minha mão firme demais. "Quem precisa deles? Quem precisa de suas pseudo-virtudes e cabeças vazias?"

"Ninguém," respondi para não ter que contradizê-lo, mesmo quando a palavra deixava um rastro amargo na minha boca.

"Eles são eles," sua voz começou a baixar e eu entendi como minha chance de convencê-lo a dormir, o empurrando de novo para que deitasse. "Eles são eles. E a gente não precisa deles. Eu não preciso deles."

"Não precisa," falei de novo, o cobrindo até os ombros.

Ele fechou os olhos e eu esperei para ver se adormeceria. Logo começou a respirar profundo, sono rápido também devia ser um dos efeitos colaterais do remédio.

Fui até a janela para fechar as cortinas e, depois de me virar de costas para ela, dei uma olhada rápida em seu quarto.

Era pequeno. E nem era inteiro seu. Dos cinco metros quadrados, a maioria era ocupada por duas camas, uma das quais mal o cabia. E entre elas um único armário.

Não, definitivamente não era um quarto como aquele no qual eu dormia. Mas isso porque eu dormia no de Lola na maioria das noites. Chris achava que eu o entendia porque meu quarto oficial ficava no final do corredor. Ele achava que eu entendia, porque era, para todos efeitos, só a criada de Lola. Ele achava que eu estava do mesmo lado dele, que estava no mesmo nível que ele.

E depois de dez anos, eu acreditava que tinha finalmente entendido que aquilo não só era verdade, mas que eu não me importava. Depois de dez anos tentando aceitar o choque que eu tinha levado naquele Natal, realmente acreditava que já tinha superado qualquer vontade que tinha de ser mais do que a posição na qual tinha nascido. Poderia apostar que qualquer mal entendido daquela época, qualquer sonho que tinha tido, qualquer esperança de criar meus próprios limites, qualquer vestígio de minha infância ao lado deles tinha virado conforto, segurança e mais do que satisfação de ter um lugar no mundo. Não precisava querer mais, estava grata pelo que eu tinha. Não precisava de caminhos novos, não precisava ser um deles. Estava bem sendo a menina que ficava só por perto, os assistindo do outro lado do vidro.

Mas cada palavra de Chris me acertou mais fundo do que eu queria admitir. Entendia que ele estava sob o efeito do remédio e, mesmo se não estivesse, não podia negar que ele tinha certa razão. Mas os momentos em que eu percebia que o vidro entre nós era só transparente, e não inexistente, eram sempre assustadores.