Os mais velhos contam as suas histórias, os mais novos as temem.

Quando o grande, velho e enorme relógio da praça central toca as doze badaladas, todos já devem estar devidamente protegidos, dentro de suas residências. Ninguém arriscaria ficar na rua, não naquela noite, em especial do mês.

Sophie, é apenas mais uma das pessoas que moram naquele pequeno vilarejo, ela conhece como ninguém, as temidas histórias que rondam aquele lugar, afinal, Sophie convive todos os dias com uma das vítimas do temível monstro, seu avô, aquele que teve um futuro que muitas das vítimas não tiveram, ele sobreviveu, porém, o trauma foi tão grande, que ele nunca se recuperou realmente.

Sophie sabia que não deveria anda sozinha à noite, em especial, aquela noite, porém foi preciso. A pobre moça andava tão rápido que quase tropeçava em seus próprios pés, seu coração estava acelerado, Sophia sentia algo a lhe observar, ela precisava chegar a sua casa, e rápido.

“O que uma moça tão linda, faz sozinha a essa hora da noite, no meio de uma floresta? ” – Algo na floresta murmurou, a voz era tão grave, que fez Sophie imediatamente parar, seu coração bateu mais rápido, seu cérebro lhe alertava, que ela sentia que precisava sair da li.

“Quem...Quem es...está aí? ” – A jovem indagou completamente paralisada de medo.

“Quem acha que é? ” – A voz sibilou.

A pobre moça não soube o que responder, de alguma forma, Sophie já sentia que ia morrer.

Mas se era para morrer, queria pelo menos ver o rosto da criatura que a mataria.

E mesmo com muita dificuldade, Sophie girou os calcanhares e apenas uma sombra de um vulto pode ver.

“Você vai me matar? ” – Sophie indagou a criatura, semicerrando os olhos, atrás de identificar qualquer traço na mesma.

A criatura riu, um som baixo e agudo tomou conta dos ouvidos de Sophie.

“Porque eu lhe mataria? ” – Sophie pode perceber um certo tom de divertimento na voz da criatura.

“Você vai me matar? ” – Sophie repetiu.

“Talvez, me diga porque eu não deveria? Afinal, todos sabem que não se deve andar sozinho à noite, em especial está noite. ” – A criatura respondeu.

“O que tem de especial essa noite? ” – Sophie não conseguia controlar a curiosidade, nem prestes a morrer.

“Curiosa você. ” – A criatura murmurou.

“Isso é bom ou ruim? ” – Sophie perguntou, suas pernas já começavam a dar sinais de vida novamente, sabia que poderia tentar correr, afastar-se da criatura, mas Sophie não sabia o quão longe iria, além do mais, algo no seu interior, não queria isso, queria ficar, porém outra parte, gritava para que ela corre-se e se salvasse, Sophie não sabia qual parte escutar.

“Hoje a lua é de sangue, já deve ter ouvido falar. ” – A criatura respondeu à pergunta anterior de Sophie.

“Sim, já, dizem que a lua de sangue, traz consigo mau-agouro, azar e desgraça, e é claro, dizem que ela traz seus filhos e protegidos. ” – Sophie falou.

“Garota esperta, parece que andou enfiando a cara nos livros. ” – A criatura riu.

“O que você é? Filho da lua, ou seu protegido? ” – Sophie, você não consegue controlar sua curiosidade nem que sua vida dependa disso, era o que se avô dizia sempre.

Sophie estava começando a acreditar nisso, mas se ela ia mesmo morrer, tinha o direito de saber, o que a matará e porquê.

“Sou um protegido dela” – A criatura respondeu depois de alguns segundos em silencio.

“Você vai me matar? ” – Sophie indagou pela terceira vez.

“Não, porém quero algo de você. ” – A criatura respondeu.

“O que? ” – A curiosidade tomou mais conta ainda de Sophie.

“Feche os olhos” – A voz da criatura soou calma e controlado, porém onipotente.

“Porque? ” – Sophie quis saber.

“Faça o que mandei, se quiser viver, e acredite seria um desperdício matá-la” – A voz da criatura soou mais grave e autoritária.

Sophie fez o que a criatura exigiu, fechou as pálpebras com cuidado vagarosamente, não que isso fosse fazer alguma diferença, mesmo com eles abertos ela não conseguia ver nada mesmo.

Quando seus olhos finalmente fecharam-se por completo, Sophie sentiu um hálito frio em sua face.

“Não abra os olhos” – A criatura sussurrou a centímetros da face de Sophie, que se controlava para não abrir os olhos.

“O que quer de mim? ” – Sophie indagou ainda com os olhos fechados.

“Um beijo. ” – A criatura revelou.

“Só isso? ” – Sophie perguntou confusa.

“Só isso, quanto acha que vale um beijo? Pode acreditar, se ele foi verdadeiro, pode salvar vidas. ” – A criatura riu.

“Tudo bem, eu lhe dou seu beijo. ” – Sophie falou, sem saber ao certo de onde tirou tanta coragem.

“Exato, meu. ” – A criatura sussurrou.

Quando Sophie menos esperou, sentiu lábios tocarem os seus, eram lábios frios, secos, porém experientes.

Os poucos Sophie foi entregando-se ao beijo, e da mesma forma como ele começou, o mesmo acabou, de surpresa.

“Volte aqui amanhã, neste mesmo horário. ” – A criatura exigiu, ainda a centímetros de Sophie.

“Se não? ” – Sophie falou, ainda recuperando-se do beijo.

“Toda a sua família, morrerá. ” – A criatura respondeu.

“Vire-se” – Sophie virou-se e sentiu o hálito da criatura em seu pescoço.

“ Não olhe para trás. ” – Foi a última coisa que Sophie ouviu naquela noite, o hálito da criatura ainda fazia Sophie arrepiar-se.

Sophie abriu os olhos, apenas minutos depois, quando percebeu que a criatura tinha ido embora, Sophie controlou-se para não olhar para trás, sabia que apesar de não poder mais ouvir ou ver a criatura, ela ainda podia vê-la e ouvi-la muito bem.

Sophie não podia arriscar, afinal a vida de sua família estava em risco.

Depois de mais alguns minutos parada, Sophie deu o primeiro passo, depois o segundo, o terceiro e assim foi até, finalmente, chegar a sua casa, no vilarejo, onde uma família exasperada e preocupada a esperavam ansiosos.

Em meio à confusão da chegada e o interrogatório que sofreu assim que pôs os pés dentro da modesta casa, Sophie não conseguia esquecer dos frios e experientes lábios que a beijaram a apenas uma hora atrás.

A moça mal podia aguentar, Sophie não sabia ao certo o que estava sentindo, porém ela nunca sentia tanta ansiedade pela a próxima noite, como sentia naquele exato momento.

Notas finais
Continua amanhã....Enquanto isso, comentem...