Foi sentindo o peso da culpa sobre seus ombros que, na manhã seguinte, Sam retornou a Palo Alto, jurando a si mesmo e ao irmão, que voltaria em breve para ajudá-lo a cuidar da mãe e lhe fazer companhia. Dean, após a crise do dia anterior, parecia bem convicto ao afirmar que o moreno podia demorar o tempo que precisasse, os dias e meses que a profissão lhe exigisse; e, mesmo não estando disposto a permitir que o trabalho voltasse a se tornar a maior prioridade em sua vida, o mais novo teve de admitir a si mesmo que aquilo o acalmou um pouco.

Despediram-se com um abraço apertado, e o loiro prometeu que o informaria a respeito de qualquer mudança ou emergência, por menor que fosse. Enquanto observava o irmão partir, o primogênito Winchester manteve o pequeno e confiante sorriso no rosto; no momento em que o carro virou a esquina, o sorriso desapareceu, dando lugar a uma expressão exausta. Ele suspirou pesadamente, bagunçou o cabelo com as mãos, e voltou sua atenção para a casa amarela atrás de si.

Aquele era seu lar, era onde havia crescido. Era o lugar que mais amava no mundo, e onde gostaria de poder viver pelo resto de sua vida. Mas, infelizmente, não eram apenas boas lembranças que ocupavam sua mente, em todas as vezes nas quais se permitia o luxo de afundar-se no sofá da sala e fechar os olhos para apreciar o odor característico da casa. Havia também as memórias ruins, das brigas familiares, da época em que estava no colégio, de quando o pai chegava estressado por causa do trabalho. Ele se recordava bem, do som do choro da mãe, quando John ultrapassava os limites do aceitável, e dizia coisas das quais certamente se arrependeria mais tarde. Ele se recordava de todas as vezes nas quais precisou dizer a Sam que não estava acontecendo nada, e o levou para um fliperama ou uma biblioteca para que não escutasse os gritos.

Mas, acima de qualquer outra lembrança, havia a certeza de que os pais se amavam. Fosse por meio de pequenos gestos ou grandes declarações, Mary e John acabavam sempre se reconciliando, e tudo ficava em paz por algum tempo. Enquanto observava a casa, Dean se dava conta que sentia falta de Lawrence. Do clima, das pessoas, até mesmo dos bares. Sentia falta da familiaridade. Não era como se não ficasse à vontade com a namorada, Lisa, em Battle Creek, mas era como se ali, em sua verdadeira casa, a liberdade se tornasse maior.

Sacudiu a cabeça, tentando afastar os delírios sobre aquele assunto, e caminhou em direção à porta, sentindo como se alguém tivesse acabado de lhe acertar um murro na boca do estômago. Ele se recordava de cada pequeno detalhe, e, de certa forma, isso era pior que não se recordar de nada. Porque nunca pensou que sentiria tanta falta das brigas. Das discussões. De tudo. Nunca pensou que sentiria tanta falta do pai. Porque nunca lhe ocorreu que, algum dia, John pudesse não estar lá para discutir com Sam, com Mary, ou até com ele, o filho mais velho. Antes, Dean se deu conta, era como se ele imaginasse que o homem era imortal, que nada nunca seria capaz de abalá-lo, ou afetá-lo.

Um pensamento tolo, meio infantil.

E cheio de esperança.

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— Como se sente?

Mary ergueu os olhos para o primogênito, e esticou os lábios num sorriso falho. Ele lhe entregara uma xícara de café no exato momento em que a loira se sentou à mesa, provavelmente por saber que ela não aceitaria a proposta de voltar a dormir. Seu pequeno anjo a conhecia bem demais para sequer cogitar a possibilidade de tentar persuadi-la a tal.

— Bem... — a resposta saiu falha, quebradiça. — Eu só... * Estava esperando acordar e descobrir que isso não passava de um pesadelo.

Dada a sinceridade da mãe, Dean foi até ela, sentando-se ao seu lado, envolvendo-a em seus braços com carinho. Mary retribuiu o abraço, e encostou a cabeça em seu ombro. O rapaz afagou os fios dourados de seu cabelo, depositou um beijo em sua testa, amparou-a silenciosamente quando, em seu âmago, seu único desejo era deixar-se levar pela dor da perda.

— Sinto muito. — murmurou num tom meio suplicante, como se fosse sua a culpa, e estivesse pedindo por perdão.

— Você não poderia ter feito nada, querido. — ela fechou os olhos por um instante. — Está tudo bem.

Mas ambos sabiam que não estava. E ficaram ali, na calmaria que precede a tempestade, confortando-se sem que fosse necessária nenhuma palavra além das que já haviam sido ditas. Mary, ainda severamente atordoada com a realidade com a qual seria obrigada a lidar dali em diante, com a perda e com a saudade que parecia esmagar seu coração. Dean, sentindo-se culpado, assustado e ferido; sem saber dominar a própria dor, para fazer com que a mãe se sentisse um pouco melhor com aquilo. Ele estava perdido, e não tinha nem a menor ideia do que deveria fazer para cuidar dos machucados que haviam sido feitos, para suturá-los e evitar que inflamassem, piorando a situação.

Só sabia que tudo estaria no caminho certo enquanto estivessem assim:

Cuidando um do outro.

Notas finais
*Não sei. Achei interessante deixar esse ponto "sob observação", porque foram as mesmas duas palavras de início de frase que Sam utilizou no capítulo anterior, ao tentar expressar como se sentia com relação à perda de John :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.