Do Lado das Flores Atemporais
1 Prólogo
Notas iniciais
Ela pôs a mão sobre os olhos, evitando o sol da tarde, enquanto olhava ladeira abaixo, onde uma silhueta vinha rápido por entre a relva, fazendo com que se balançassem com o vento. Passou a mão por seus cabelos roseados, sentindo o calor na sua pele. Instantes depois Ino diminuía o passo, chegando até ela com um sorriso no rosto, seus longos cabelos loiros agitando-se levemente frente a brisa, que soprava ali em cima.
– Então… resolveu vir?
– Eu não ia deixar você ir sozinha. – Ela disse, se achegando mais para perto. As duas iniciaram uma caminhada lenta, pondo as costas para o sol.
– Como sabia o que eu ia fazer?
– Porque eu conheço você.
– Porque eu não estou surpresa?
– Porque você sabe que nós somos rivais, e, que eu não iria deixar você se aventurar por aí sem mim.
Sakura olhou para a outra, vendo o sorriso divertido que cobria seu rosto. Os mesmos olhos de quando eram pequenas, azuis e perspicazes. Rivais, a palavra cruzava sua mente, enquanto olhava para aqueles olhos. Elas sempre foram um pouco daquilo sim. Tanto como kunoichi, quanto no amor. Agora, quando se lembrava dos desentendimentos por causa daquela rivalidade, não sabia se sentia-se envergonhada ou feliz. Era embaraçoso, apenas. Pensou em como esse sentimento que fluía entre as duas quase sempre tivera alguma relação com seu desenvolvimento e percebeu que gostava de tê-la por perto.
– Você mudou muito, sabe, Sakura. – Ino juntou suas mãos nas costas, olhando para o chão.
– Você também mudou bastante, Ino.
– Você sabe que não é verdade. – Olhou para o céu, que se estendia azul à frente. Sakura achava que sabia onde ela queria chegar. – Se entrássemos em uma batalha novamente, o resultado não seria o mesmo do exame chuunin. Muita coisa mudou desde aquele tempo. Você se tornou uma kunoichi exemplar. – Ela olhou para Sakura com um sorriso. – Eu não pretendo mais ficar para trás, testa de marquise.
– Ino… sua porca. – Sakura disse, com um sorriso zombeteiro no rosto.
As duas gargalharam. Soava como a infância para Sakura. Da forma como as duas saíam para os campos para colher flores e de quando sentavam-se sozinhas para comer o lanche na academia. Uma estranha nostalgia percorreu por seu corpo, lançando indecifráveis sensações de prazer e melancolia ao mesmo tempo.
– Tem mesmo certeza que é isso que quer, Ino?
– Não seria eu quem deveria estar te fazendo essa pergunta?
As duas se entreolharam, uma torrente de palavras não ditas. Sakura sorriu, tornando a olhar para o caminho que se estendia. Sim, ela estava partindo da vila. Vila Oculta da folha, Konoha. Sua casa por tanto tempo. Para sempre, seria mais certo dizer. Mas… mas agora, ela precisava de um tempo longe de casa. Ela precisava, precisava fugir um pouco. Necessitava de um tempo para si mesma. Sakura havia vivido praticamente toda a sua vida pelos outros, tentando ser o elemento de ligação, de união e se esquecido de que ela também precisava de se preocupar com ela. Desde que conhecera Sasuke e Naruto, ela vivera por eles. Pela amizade dos três, pelo amor que ela idealizava… Agora tudo parecia tão caótico que se não fosse seu autocontrole…
– Eu sei como é difícil perder alguém que você ama muito.
Sakura parou. Ino olhou para ela, o rosto triste contra o sol.
A guerra havia acabado, por fim, mas as perdas foram maiores do que o esperado. A morte dela ainda doía como o inferno em Sakura. Doía ainda mais quando pensava que não havia conseguido fazer nada. Não havia nada a ser feito. Ela teria usado a técnica de reencarnação de Chiyo Baa Sama se ela soubesse como utilizá-la, mas infelizmente, aquele jutsu proibido morrera com ela.
As pessoas continuavam dizendo a Sakura que não era sua culpa, mas ela não conseguia se convencer disso. Uma parte dela ainda continuava a se lamentar, a se culpar de alguma maneira. Ela não conseguira nem ao menos chorar ao ver o corpo de Tsunade, ficara apenas gritando por um manto, alguma coisa para cobri-la para que as pessoas não pudessem ver seu rosto de anciã. Ela gostava dele jovem. Ela gritara até a exaustão, quando alguém, provavelmente Naruto, lhe entregou sua capa de chuva e a obrigou a deixar o corpo, para que pudessem levá-lo.
Sakura ainda tinha a imagem em sua cabeça, do corpo magro e pequeno de Tsunade em seus braços, tão contraditório à visão de mulher forte ao qual Sakura tinha dela. Só conseguira chorar quando estivera sozinha em sua cabana. Seu corpo tremia tanto, que ela não conseguia manter o controle sobre si mesma, e ela tinha certeza que seus gritos foram tão altos e desesperados que todos no acampamento puderam escutar. Felizmente ninguém viera tentar lhe consolar. Não havia consolo para aquilo. Sakura lembrara-se de Sasori, e seu insentimental corpo de boneco, e sobre como ele lhe criticara sobre seu lado emocional. Talvez ele estivesse com a razão, no fim de tudo.
– Sakura… – Ino disse, esperando alguma reação.
Depois da guerra, quem pensou que as coisas iriam entrar nos eixos, se enganou. Com Naruto e Sasuke competindo pelo título de Hokage, o sistema tinha virado uma confusão. A população não confiava em Sasuke, mas era inegável que ele era um ninja altamente habilidoso, e que sua ajuda na guerra foi de extrema importância para a vitória da mesma. Além disso, a verdadeira história sobre o clã Uchiha viera à tona, dividindo opiniões pela vila ainda mais. Era muita coisa para Sakura assimilar.
O enterro de Tsunade ocorreu simultâneo aos dos outros mortos em combate. Muitas outras pessoas perderam suas vidas naquele dia. Sakura sentiu como se fosse o enterro do Terceiro tudo outra vez, só que agora incontavelmente pior. Ao menos desta vez ela não agira como uma louca ao ver sua mestra. Ela havia ajudado a preparar o corpo, deixando-o jovem novamente, como ela gostaria que tivesse sido. Então ela apenas parecera estar dormindo, depois de um longo tempo de trabalho. Logo após aquilo, ela passara dias trancada em seu quarto, mal recebendo visitas, e evitando sair a todo custo. As pessoas começaram a comentar que ela estava perturbada, e que provavelmente seus dias como ninja estavam acabados. Ela não esperara menos, afinal, ela sempre fora considerada a mais fraca do grupo.
Então essa tarde, ela pegara o menos possível e colocara em uma pequena bolsa, juntara suas economias de muitos anos, e pegara estrada para fora da vila. Algumas pessoas notaram-na, mas a ignoraram, provavelmente achando que ela estava louca demais para receber um oi. E fora assim que ela chegara ali agora.
– Obrigada, Ino.
A garota sorriu.
– É melhor irmos andando, não é?
As duas olharam uma última vez para a vila de Konoha lá embaixo, com o sol brilhando por cima dos rostos sem expressões dos últimos Hokages. Esta era uma visão da qual Sakura queria esquecer por um tempo. Talvez ela estivesse cometendo o mesmo erro que sua mestra havia cometido a tempos atrás, deixando a vila por motivos pessoais. Mas isso não importava agora. Ela estava um pouco cansada de pensar em todos os outros antes dela mesma. Agora, quem precisava ser curada, era justamente ela.
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