Do I Wanna Know
2 Capítulo 2 — Stormtroopers podem ser legais
Notas iniciais
"Querido Matty,
Estou finalmente comendo maçã verde. Sei que você prometeu que iria comprá-las pra mim, mas você não está aqui, está? Enfim. Vovó saiu bem cedo hoje e foi até uma feira de fazendeiros da região. Quando ela as trouxe, pensei que comê-las iria me fazer perceber que você não está mais aqui. Não podia estar mais errada.
Lembra-se daquela vez em que eu disse que você cheirava a algo que eu nunca havia sentido antes? Bem, eu descobri o que era. Sei que isso não vai fazer o menor sentido, mas você cheirava ao sabor de maçã verde, ácido, cítrico, mas ao mesmo tempo bom.
Tenho que ir agora. Hoje é segunda, meu primeiro dia de aula no Maur Hill.
Ruby."
Fechei meu diário, tampei a caneta e respirei fundo diversas vezes. Aquela era a maior carta que eu já escrevera depois que Matty morrera Ele sempre dizia que gostava de quando eu falava coisas sem sentido e lerdas, como uma vez que eu perguntara se a marinha ficava no mar. Lembrar dele era doloroso demais.
Calcei uma meia azul e outra de zebrinha, já que não achei um par dentro do meu guarda roupa, vulgo: caixas jogadas num canto qualquer do meu quarto. Calcei meus tênis surrados e desci as escadas, instantaneamente mais alegre com o cheiro de café que vinha lá de baixo.
— Sabe, a maioria das garotas de dezessete anos não tem pais que as deixam tomar café — papai disse, me entregando uma xícara generosa de café bem adocicado, do jeito que eu gostava.
— Só existem três opções que eu conheça de garotas da minha idade: as viciadas em drogas que estão grávidas, as riquinhas esnobes e religiosas e, o meu tipo, as garotas que lêem fanfics, assistem séries e sabem que Yuri não é só um nome de garotos
Saí andando, como se a resposta que eu dei fizesse o maior sentido com a frase que ele disse, deixando um Earl pensativo para trás. Joguei minha mochila no sofá no exato momento em que ouvi vozes atrás da porta.
Espiei por uma fresta na cortina e vi de relance um grupo de pessoas. O que é isso, tem uma maldita convenção na minha porta?
— Chame você... — ouvi um garoto falar.
— Não sou obrigada — uma garota respondeu. Depois, como se fosse a melhor ideia do mundo, ela disse: — Se você chamar ela sem ter um ataque, eu te dou cinco dólares.
— Cara, são cinco pratas — o mesmo menino respondeu.
Espera, isso não faz o menor sentido. Por que diabos ele convenceria a si mesmo? Cidade doida, só pode.
— Feito — ele disse e em alguns segundos alguém bateu na porta.
— Seja lá o que vocês estiverem vendendo, eu não estou minimamente interessada — fui logo dizendo ao abrir a porta apenas para encontrar um garoto da minha idade que parecia bastante abalado. Ele era magrelo, com olhos castanhos extremamente bonitos e óculos que os cobriam, infelizmente. Se minha vida fosse um filme, ele estaria na categoria nerd-bonito-mas-que-todo-mundo-acha-feio.
— Oi... Meu nome é Dominick. Eu sou seu vizinho — Dominick arrumou a mochila de, ai caralho, Stormtroopers nas costas, visivelmente sem saber o que fazer ou falar.
— Ok, Menino Guerreiro da Tropa Imperial — repliquei. Dominick pareceu surpreso que alguém além dele conhecesse Star Wars. — E o que é que você quer aqui?
Dominick pareceu perdido por um segundo, como se meu comentário sobre sua mochila realmente o tivesse deixado desnorteado, até que explicou:
— Ahn, alunos novos recebem um acompanhante para conhecer a escola. Como seu responsável ligou avisando que você ia começar a estudar na nossa escola, meu irmão foi designado como seu acompanhante. Normalmente eles escolhem alguém do Conselho Estudantil, mas na sua matrícula era preciso um comprovante de residência e nós éramos as pessoa mais próximas e...
— Ok, Dom, chega — outro garoto o puxou, quase fazendo o projeto de Stormtrooper cair no chão. — Prazer, eu sou o Damen, o irmão mais bonito, mais interessante e mais maravilhoso desse saco de ossos de setenta quilos aqui.
Damen e Dominick eram idênticos. E eu não digo isso da forma que as pessoas normalmente se referem a irmãos. Eles eram realmente idênticos, até o ultimo fio de cabelo. A única diferença era exatamente essa: Damen mal tinha cabelo. Ele não usava óculos e mantinha o corte militar a risca, dava pra perceber.
— Eu não preciso de uma babá — tratei de explicar logo. Eles já tinham feito a maior muvuca na porta da minha casa, eu definitivamente não precisava de mais problemas. Dominick parecia muito legal, mas Damen... Ele tinha o olhar de quem não sabe a hora de parar de brincar. Conhecia bem esse olhar. Eu o havia visto todos os dias da minha vida, até que um dia... Ele se fora. Olhar para Damen era excruciante.
— Ah, qual é, lobinha — Damen fez uma referência a minha camiseta. — Eu preciso de crédito extra e a única forma de conseguir é através de você. Então seja uma boa garota, deixe-me te acompanhar e mostrar a escola. Vai levar só vinte minutos e depois você estará livre pra fazer o que bem entender.
Arqueei as sobrancelhas enquanto pensava no caso do garoto. Eu definitivamente iria me perder na escola. Ele precisava de crédito extra. E...
— Ótimo — concordei e os gêmeos sorriram por motivos diferentes: Damen ganharia sua nota e Dominick ganharia cinco dólares. — Mas eu quero cinquenta por cento dos seus cinco dólares.
O sorriso de Dominick murchou na hora.
۞
— Cafeteria, mesas, cadeiras...
Damen apontava praticamente tudo pelo o que passávamos na escola. Em certo momento, ele até me apresentou o ex mascote do ensino fundamental: Grape, um porquinho-da-índia gordinho e tarado por uvas, daí o nome. E você terá o prazer de levá-lo para casa já que o ensino fundamental tentou matá-lo!
— E, finalmente, a sua primeira aula! — ele exclamou, verificando o papel com meu horário que havíamos pego na recepção. — Que também é a minha, do Dominick, do Dimitri, da Davina... e do segundo ano inteiro.
— Perfeito — murmurei, entrando e jogando minha mochila sobre uma cadeira desocupada ao lado da janela. Sentei-me e tirei meu celular do bolso, como uma boa adolescente que não desgruda do aparelho telefônico.
Pelo canto do olho, percebi que uma garota ruiva sentou-se ao meu lado e, nem dois segundos depois, estava cutucando meu ombro.
Revirei os olhos, virando-me e percebendo que Damen, Dominick e a garota estavam sentados ao meu redor.
— Oi, eu sou a Davina, tipo "divina" e tals. Irmã desses acéfalos aqui — encarei seu anel de pentagramas que combinava com meu colar, seu pingente em que se lia "eu sou alérgica a idiotas" e suas unhas pintadas de azul metálico que estavam descascando. Davina encarou minha capinha de celular de Supernatural e minha mochila xodó de Doctor Who, uma réplica da TARDIS.
Foi amor de melhor amiga à primeira vista.
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