Notas iniciais
Assim, só pra constar. ^^ Essa fic é angust, mesmo porquê eu ando numa fase meio... mórbida ¬¬ Só que eu tenho a leve impressão de que isso vai terminar fluffy >.< Só pra avisar, okkay? ^^ E obrigada mesmo pelos reviews! Non tive tempo de responder, mas agradeço!!! ^^

Ruki P.O.V.


Confesso que, quando aquele realmente estranho me chamou para morar com ele, eu hesitei. Mas não era como se eu tivesse escolha. Aoi não poderia me brigar, e só de pensar em voltar para o lugar de onde eu viera, tinha calafrios.


A intenção era que eu me jogasse daquela ponte. Ia dar fim à muitas preocupações, e à minha própria existência vazia. Mas justo ele, no meio de uma multidão, atendeu ao meu pedido mudo de socorro.


No fim das contas, acabei indo para o apartamento dele. Uma loucura a mais, outra a menos, para mim não fazia mais tanta diferença. Eu não estava me importando muito com isso. Mas meu salvador provou-se ser mais doce e gentil do que sua aparência demonstrava. E paciente. Muito paciente. Pois três semanas havia se passado e ele não havia me feito uma única pergunta sequer.


E nessas mesmas três semanas, eu senti que ele havia mudado, do pouco que o conhecia. Cheguei até mesmo ouvir — sem querer, não tenho o hábito de ouvir a conversa dos outros — Uruha dizer isso ao próprio Reita, que ele estava diferente, mais alegre e com um brilho a mais nos olhos. E na ocasião ele havia dito que a causa... era eu.


Ele não fazia idéia de que eu havia ouvido essa pequena conversa. E nem tinha idéia da alegria insana que isso havia me provocado. Eu finalmente havia sido útil para alguém. Eu finalmente havia servido para algo. Havia ali, enfim, uma razão para a minha existência medíocre. Então eu havia decidido mudar, por mim e por ele. Queria poder retribuir, poder sorrir sinceramente como há anos eu não fazia.


Mas quando Uruha entrou por aquela porta, chorando, dizendo que tinha pegado Aoi com outro — ou outra, eu não me ative a esses detalhes — na cama, eu me descontrolei. Por sorte, eu tinha apenas desferido um tapa no moreno. Mas eu sabia que se eu me deixasse levar, teria espancado Aoi. Mas eu tinha que respeitar o lar de Reita. Lar este que havia se tornado o meu também.


Porque eu me alegrava quando ele voltava da loja, chegando com seu lindo sorriso cansado. E eu pegara o hábito de lhe sorrir, ficando feliz ao ver que seu rosto se iluminava com o meu sorriso. Era bom ser útil. Era bom representar algo para alguém.


Por isso, quando voltamos a ficar só em seu apartamento, após a dramática e chorosa reconciliação de Aoi e Uruha, eu havia me decido. Eu o observei fechar a porta, um sorriso maroto nos lábios, e depois veio sentar-se ao meu lado no sofá.


- Dá pra acreditar nesses dois?


Eu sorri, observando seus olhos brilharem.


- É. Acho que você tinha razão no fim das contas... Aoi ignoraria minhas palavras se fosse qualquer outro. Como aliás já fez inúmeras vezes antes.


- Vocês se conhecessem a bastante tempo, ne?


Eu via hesitação em seus olhos, e eu suspirei. Aquele era o momento.


- Aoi sempre foi meu vizinho, desde que eu me conheço. Estudávamos na mesma escola, mas ele é mais velho, então não nos víamos muito. E na minha casa era impossível.


Ele franziu o cenho, e eu via as perguntas entaladas em sua garganta. Sorri de canto, um pouco mais melancólico.


- Reita, eu sei que se depender de você, eu posso morar aqui até o fim dos meus dias, sem te dizer uma única palavra. Mas eu decidi... eu decidi que vou te contar tudo, sem esconder detalhes. Considere um agradecimento pelo abrigo.


- Ruki, você sabe que não precisa, se não quiser...


- Eu já disse que decidi, e não vou voltar atrás.


Suspirei, apreciando sua expectativa quase infantil. Eu o vinha observando a dias, tomando todo o cuidado para que ele não percebesse. Já conhecia cada mania sua, cada gesto mais metódico, cada reação. Sabia, só de olhar, quando o dia dele havia sido péssimo e quando havia sido tedioso. Inspirei profundamente, começando meu discurso.


- Digamos que o meu problema seja a minha... família. Eu sou o mais novo, tenho um irmão mais velho. Um idiota vagabundo que só dorme o dia inteiro. O meu... pai trabalha em uma empresa de publicidade, mas não tem lá um cargo muito grande. E, já que a vida dele não era como ele queria, ele se entrega à bebida. E, com isso, volta pra casa bêbado, espanca minha mãe, eu, e me violenta quando tem vontade.


Respirei fundo, lembranças rondando minha mente.


- Com o tempo, ele viu que podia ganhar dinheiro com isso. Ele virou um tipo de cafetão, me vendendo por uma noite para seus colegas de trabalho. Minha mãe nunca fez nada, por medo do meu pai, e meu irmão sempre foi um inútil. Com o tempo, eu comecei a perder as esperanças. Tinha as visitas ocasionais de Aoi, que pagava para que eu pudesse ter algumas horas de paz, sem ser molestado, violentado ou espancado. Incrível como homens de terno podem se tornar extremamente brutos com alguém como eu, dentro de quatro paredes. Algumas semanas antes de você me encontrar, eu havia começado a tentar o suicídio. Era a única alternativa que eu via. Eu me cortei, mas ele viu, e a surra que levei por isso foi uma das mais violentas que eu já havia recebido.


Fechei os olhos, aquela voz maldita soando nos meus ouvidos, esbravejando "você não pode morrer, porque sua vida não pertence a você"... enquanto sentia a fivela de seu cinto ir de encontro à minha pele, e logo depois a cadeira da cozinha sendo quebrada nas minhas costas e eu perdendo os sentidos. Acho que naquele dia, Aoi havia invadido minha casa com a arma do pai, e me tirado de lá, inconsciente. Lembro também do sorriso doce do moreno quando eu acordei no hospital, mas minha alegria durara pouco, e logo aquele maldito estava na porta do quarto, pronto para me levar de volta ao meu inferno particular. Suspirei, tentando esquecer de tudo aquilo.


- Então, eu consegui, por meio de Aoi, alguns comprimidos pra dormir, e consegui dopa-lo. Assim, eu fugi daquela casa suja e maldita e... não fosse por você eu teria morrido. Sabe Reita... Será que anjos usam moicano?


Ele piscou umas duas vezes, tentando absorver toda a informação que havia recebido. Depois de alguns segundos, ele sorriu, me puxando para um abraço desesperado. Eu me deixei levar pelo calor de seus braços, e meu choro, contido durante anos, foi-se indo, quase naturalmente.


Era a primeira vez que uma pessoa "de fora" conhecia o que se passava dentro daquela casa suja. E Reita não recuara, pelo contrário; me abraçava de um jeito como se tentasse me proteger das sombras do meu passado. E eu era grato por isso. Me sentia feliz com isso. Não que eu quisesse me desfazer da amizade de Aoi, mas era a primeira vez que eu me sentia protegido, me sentia querido por alguém. E não era por alguém qualquer... era por Reita. O louco que abrigara um desconhecido que ele havia salvado de cometer suicídio.


Eu soluçava contra seu ombro, sentindo a dor indo embora com as minhas lágrimas. Toda a dor e tristeza que eu havia suprimido durante anos, e elas iam simplesmente embora. No fim das contas, adormeci o abraço quente de Reita.


Abri os olhos lentamente, sentindo-os ainda inchados pelo choro abundante de horas atrás. Senti algo macio sob mim, e me assustei ao ver que a coisa macia era Reita. Eu estava deitado sobre seu tórax, os braços dele ainda me envolviam. Sorri bobamente observando-o dormir, algumas mechas ruivas do meu cabelo obstruindo minha visão. Aquela cor...


Com cuidado, saí do seu abraço quente, quase lamentando quando me afastei. Encaixei um travesseiro cuidadosamente entre seus braços, e o vi murmurar alguma coisa e se agarrar ao travesseiro. Rumei até o banheiro, vendo a minha imagem refletida no espelho. Minha aparência com certeza estava bem mais saudável, mas aquele vermelho estava me incomodando. Talvez mais uma mudança fosse necessária, para que eu pudesse deixar meu passado de vez para trás.

Continua...