Dln Darkness, Lies And Nobody Else
3 Capítulo 3
Aoi P.O.V.
Não pude me controlar quando eu coloquei meus olhos no chibi, e vi que ele estava bem. Eu havia passado a noite toda em claro, procurando por todos os hospitais, delegacias e a fins de Tóquio. E, quando o desespero já estava tomando conta de mim, havia achado um hospital. Mas meu alívio fora passageiro. Ele havia saído com um desconhecido.
Podia me chamar de bobo, de infantil... Mas minha preocupação com Ruki atingia sim níveis extremos. Porque eu sabia tudo o que ele havia sofrido. Eu acompanhei sua história como ninguém mais pôde.
Ele já era meu amigo de muito tempo, e desde que eu o conhecera, ele era assim, calado, contido. Acho que nunca presenciei um ato espontâneo do chibi. Era triste, e por mais que eu tentasse, não conseguia. Aqueles olhos vazios, sem esperança ou perspectiva do futuro.
Quando ele havia me dito que iria fugir, eu fiquei alarmado. Se ele não tivesse para onde ir, eu sabia o que ele iria fazer. Por mais que eu dissesse que sempre o ajudaria, ele era gentil o suficiente para se achar um incômodo, para não me envolver com a sua história. Mas eu já estava mais do que envolvido.
Por isso, quando olhei para aquele rapaz alto, loiro, de moicano e faixa no nariz, por mais que a aparência não contribuísse, eu sabia que era uma boa pessoa. Parecia que o destino queria compensar todo o mal que a vida havia feito com Ruki. E eu esperava que assim fosse, ou eu quebraria a cara de Suzuki.
- Bem, Reita-san... Eu realmente fico grato por você tê-lo acolhido.
- Bem... Digamos que minha vida não estava lá aquelas coisas... Mas... Bem, você parece ser um amigo de confiança dele, não?
- É, pode-se dizer que eu chego o mais perto disso.
Ele franziu o cenho, mas continuou sua linha de raciocínio.
- Você vai... levá-lo embora?
Ou eu estava muito enganado, ou eu via nos olhos de Reita que ele queria que eu o deixasse lá. Mas digamos que eu não costumo me enganar com esse tipo de coisa.
- Mesmo se eu quisesse, eu não poderia, e Ruki jamais voltaria comigo. Eu sou vizinho dele.
- Vizinho? Então não seria melhor...?
- Não, Reita-san, acredite em mim. O melhor pra ele é ficar aqui. Se não for incomodar, claro.
- Imagina! Eu tenho um quarto desocupado... Bem, tá uma bagunça lá, mas nada que não possa ser ajeitado. Se não me engano, deve ter uma cama lá.
Mordi o lábio, imensamente aliviado com a bondade do outro.
- Reita-san, você não sabe como isso me alivia. O Ruki... O Ruki tem um histórico complicado, que não compete a mim contar aos outros. Isso é algo que, se Ruki conseguir confiar em você, ele irá contar. É uma ferida profunda e recente demais para ser aberta. Você... Você acredita no destino, Reita-san?
Ele piscou, sendo pego de surpresa pela pergunta.
- Ahn... Não costumo.
- Pois você, mais do que ninguém, deveria acreditar. As enfermeiras me disseram que você chegou com o chibi desacordado no hospital. O que teria acontecido se você não o tivesse encontrado? E se você tivesse simplesmente o ignorado, largado ele na sarjeta... Mil coisas poderiam ter acontecido. Ele poderia ter morrido. Mas justo você o achou. E o socorreu, e agora está abrigando ele na sua casa. Ainda não acredita no destino?
Reita entreabriu a boca, mas foi interrompido pela chegada do chibi e do loiro chamado Uruha. Meus olhos acompanhavam cada movimento de Uruha, sem deixar nada escapar. Ele era... de uma beleza singular. Os fios loiros, as feições harmônicas.
Digamos que, desde a minha adolescência, eu nunca fora o mais fiel dos amantes. Amigo fiel sim; mas amante ou namorado fiel, nunca. Nem eu sabia ao certo. Talvez porque eu nunca havia achado alguém me prendesse realmente. Ruki não dizia nada, apenas me lançava aquele olhar reprovador só dele, que me fazia ficar com peso na consciência... até a manhã seguinte.
Mas minha prioridade no momento era o chibi.
- Ne, chibi. Eu vou ver se consigo trazer algumas coisas suas pra cá.
Sua mão voou até meu ombro, os olhos estampando o medo puro.
- Não. Faça. Isso.
- Chibi, você sabe melhor do que ninguém que eu entro e saio de lá sem que ninguém me veja. — pisquei um olho, e ele abaixou a cabeça.
Uruha e Reita olhavam do chibi a mim, e de volta para o chibi, sem compreender. É, levaria um bom tempo até Ruki confiar neles, mas eu tinha certeza — certeza esta que eu não sabia de onde vinha — que era o melhor para Ruki no momento.
Por isso, quando voltei lá três dias depois, com duas malas, um olho roxo, um corte no supercilho e uma costela luxada, foi lindo ver o semblante preocupado de Uruha quando nos encontramos no hall.
- A-Aoi-san? O que aconteceu?
- Hã? Ah, eu vim trazer as coisas do Ruki...
- Eu estava falando dos cortes...
- Ah. Não foi nada.
Eu sorri, melancólico. Eu não revelaria o segredo do chibi. Aquilo era uma coisa que só o próprio Ruki poderia contar, quando chegasse a hora. Meu sorriso se tornou o mais gentil que pude, e vi com certa satisfação um leve rubor cobrir o rosto do loiro. E, apesar do constrangimento, ele pareceu perceber que eu não gostaria de perguntas sobre o assunto.
- Ruki está?
- Ah, sim. Reita acabou de chegar da loja. Quer que eu... toque a campainha pra você?
- Se puder me fazer esse favor...
Outro sorriso, outro rubor. Até que aquilo estava se tornando um jogo interessante. A campainha tocou e logo o loiro alto veio atender a porta.
- O que foi, Uru...? Aoi-san? Kami-sama! Você foi atropelado?
- Praticamente. O Ruki está? Eu trouxe as coisas dele...
Reita me ajudou com as malas, e eu não consegui conter um gemido de dor por causa da costela luxada. Foi então que eu o vi, parado, perto da porta da cozinha. Ruki certamente estava melhor do que o dia em que eu o havia deixado lá. Já não estava mais tão pálido, e nem tão raquítico. Mas seu olhar continuava vazio, como sempre fora.
Ele apenas me olhava, e eu sorri, por fim.
- Eu trouxe suas coisas.
Ele não disse nada, apenas meio caminhando na minha direção. Quando chegou perto, apenas começou a chorar, apoiando a cabeça contra meu tórax. A costela luxada reclamou um pouco, mas consegui conter um gemido de dor. Eu não queria preocupar ainda mais o chibi. Ele já tinha coisas demais para se preocupar. Após um tempo, seus soluços diminuíram. Era sempre assim, ele nunca chorava todo o seu sentimento.
- Eu falei pra você não ir.
- E desde quando eu te obedeci em alguma coisa?
Ele olhou pra mim, e sorriu de canto, aquele seu sorriso sarcástico típico. Reita pegou suas malas e foi levando para o quarto, e logo em seguida o chibi o seguiu, murmurando algo sobre "estar dando trabalho". Eu acabei por rir, mas parei logo que senti a maldita costela reclamar.
- Ta doendo muito?
Virei-me para Uruha, sorrindo sinceramente grato pela sua preocupação genuína.
- Só de vez em quando. Você é muito gentil, Uru.
Ele abaixou a cabeça, e eu instintivamente coloquei meus dedos em seu queixo, erguendo seu rosto lentamente.
- Uruha...
Eu me aproximei lentamente, Não iria fazer nada que o loiro não quisesse, mas eu o sentia ceder lentamente, conforme eu me afastava. Quando estávamos a uma distância muito curta, sorri uma última vez, os olhares presos. Nossos lábios se tocaram com cuidado, como se temêssemos ultrapassar um limite imaginário. Mas logo esse pequeno contato não era mais suficiente.
O beijo se aprofundou lentamente, já que nem eu nem ele tínhamos pressa. Sentia seus braços deslizando sobre o meu tórax e o beijo foi cortado pelo meu gemido de dor.
- Ah, me desculpe, eu esqueci...
- Tudo bem — eu sorri. — Digamos que... valeu a pena.
Ele corou furiosamente, e Reita e Ruki escolheram aquele momento para entrarem na sala. Ruki vinha inexpressível como sempre, mas Reita vinha com um sorriso largo. Largo até demais pro meu gosto.
- Ah, por que você não fica pro jantar, Aoi-kun? Kai e Não vão vir aqui, hoje é dia de confraternização de vizinhos! E, como Kai é dono de restaurante, ele vai cozinhar pra nós! Garanto que a comida é boa, não é Uru?
- Ah, c-claro. Com certeza.
- Se é assim... Vou aceitar o convite.
Talvez, num ambiente diferente como aquele, longe de tudo que o chibi era obrigado a suportar, ele se tornasse uma nova pessoa. Se livrasse daquela melancolia e daquele vazio. E quem sabe até mesmo eu não passaria a freqüentar mais aquele andar?
Fale com o autor