Dln Darkness, Lies And Nobody Else
1 Capítulo 1
Reita P.O.V.
Uma merda. É, era assim que eu estava achando a minha vida nos últimos meses. Nada me interessava, nada chamava a minha atenção. Eu estava cansado da vida que eu tinha. Não era hipócrita o suficiente pra não ver a dor dos outros ao meu redor. Mas eu não me importava com elas, porque eu sabia que elas não se importariam comigo.
Meu amigo Koyou dizia que isso era pura frescura. E talvez fosse. Nem eu mesmo sabia ao certo de onde vinha aquela sensação de vazio, aquela sensação... de não sentir nada. Estranho, não? De qualquer forma, os conselhos de Koyou não estavam me sendo de grande valia.
Já faziam alguns anos que eu havia deixado as casa dos meus pais, simplesmente por estar farto de dever explicações à eles. Digamos que meus pais não eram dos mais amorosos. Surras eram bem comuns. Quase quebrei meu nariz uma vez, eu devia ter uns quinze anos... desde então eu adotara uma faixa no nariz como parte do visual... que não era nada discreto com o moicano loiro. Mas enfim. Eu nunca liguei para a opinião alheia.
E aquele era mais um dia na minha vidinha entediante. Saí na hora do almoço da loja de discos em que trabalhava, caminhando calmamente pela avenida próxima. Saí tão desanimado que próximo à ponte, esbarrei em alguém.
- Gomen nasai...
A pessoa se virou para me olhar. Era um rapaz baixo, os cabelos ruivos bagunçados... e os olhos vazios. Os olhos mais vazios que eu já havia visto. Ele apenas me olhou, assentiu com a cabeça e voltou a fitar algum ponto mais à frente. Caminhei mais alguns passos, mas acabei por olhar para trás. E o que eu vi quase me matou de susto.
O rapaz estava de olhos fechados, inclinando-se perigosamente para a beirada da ponte. Como se fosse se jogar. E ele estava se jogando. Eu não sei o que aconteceu naquela hora, mas quando eu vi, já estava puxando o rapaz de volta.
- Moço! Tudo bem com você?
Ele apenas me olhou novamente, com os mesmos olhos vazios, antes de perder a consciência nos meus braços. Que. Ótimo. Eu tinha um completo desconhecido suicida desmaiado nos meus braços. E reparando bem, agora que ele estava mais próximo... ele estava pálido demais. A única coisa que eu poderia fazer era levá-lo ao hospital mais próximo.
Quando eu cheguei no hospital, o pequeno desacordado em meus braços, a enfermeira que nos atendeu tomou um susto imediato, dizendo que o ruivo desacordado estava desidratado e provavelmente há alguns dias sem comer. Ela apressadamente arrumou uma maca e espetou um soro em sua veia. Eu fiquei ali, observando-o.
Não aparentava ter mais idade do que eu. O rosto era bem desenhado, os lábios pequenos, como parecia ser tudo nele. Depois de algum tempo, a enfermeira veio me interrogar o nome dele. Após uma pequena caçada, uma carteira foi encontrada no bolso de sua calça. Matsumoto Takanori. A enfermeira anotou o nome dele num papel sobre a prancha que levava e depois voltou-se para mim.
- Bem, eu vou tentar entrar em contato com algum familiar dele para...
- Não.
O pequeno recobrar a consciência, agarrando meu pulso por reflexo. Olhei pra ele, intrigado, questionando-o com o olhar.
- Não avise a ninguém. Eu já estou melhor. Quando o soro acabar, eu vou embora.
A enfermeira se afastou, um pouco contrariada, e eu voltei a fita-lo.
- Tem certeza de que está bem, Matsumoto-san?
O olhar dele, que sempre era tão vazio, subitamente se preencheu de um misto de ódio e medo ao ouvir aquelas palavras. Ou seria o seu nome?
- Ruki.
- Huh?
- Me chame de Ruki.
- Tudo bem. Mas... tem certeza de que não quer que eu avise seus parentes, amigos? Seus pais, talvez?
Novamente, aquele olhar carregado de ódio e medo. Aquilo era muito estranho.
- Já disse. Ninguém.
- Tem um lugar pra ficar?
Ele piscou umas duas vezes. Parecia que aquela era a primeira vez que ele pensava sobre o assunto.
- Não.
Comecei a ponderar. Estava prestes a tomar uma decisão que poderia ser boa ou ruim. Era o tipo de decisão que poderia mudar sua vida. E por que não? Minha vida andava um vazio inútil e tedioso. Se eu pudesse ser útil para alguém... eu poderia ter algum valor.
- Por que você... por que você não fica na minha casa?
- Eu? Na sua casa? O senhor mal me conhece.
Eu sorri, vendo a desconfiança tomar conta de seus olhos. É, nem eu mesmo sabia o porquê de confiar minha casa a um rapaz que eu acabara de conhecer. Era falta de prudência. E desde quando eu tinha prudência? O que eu queria... era ser útil àquele rapaz que me parecia tão frágil aos olhos.
- É, eu mal te conheço. Mas você não está em condições de ficar na rua, já que nega a procurar qualquer conhecido. Então, você vai pra minha casa e fim de papo.
Após alguns segundos me encarando, ele pareceu se convencer de que eu não tinha intenções ocultas. Claro que o meu moicano loiro e a minha faixa não contribuíam muito na tentativa de parecer um cidadão de bem, mas ele pareceu ceder por fim.
- Tudo bem. Mas é só até eu achar um lugar.
- Você vai ficar até melhorar sua desidratação e melhorar essa sua palidez.
Não trocamos mais nenhuma palavra até o soro acabar. Claro que eu tentava a todo custo não ficar só encarando o pequeno, mas era uma tarefa difícil. Os olhos dele haviam se prendido em algum ponto do lençol, e voltado a ficarem tão vazios quanto antes. O que teria acontecido para ele ser como era? O que a vida havia feito com aquele rapaz tão jovem que seus olhos tinham ficado tão vazios?
Assim que o soro dele acabou, tratei de levá-lo pra casa. A primeira questão que surgiu na minha mente foi roupas. Eu era visivelmente maior que Ruki. Mas então fez-se a luz na minha mente: meu vizinho, Naoyuki. Tão pequeno quanto Ruki, as roupas dele certamente caberiam. E tinha certeza de que o outro não se incomodaria, já que Nao era uma pessoa gentil ao extremo.
Deixei Ruki no sofá de meu apartamento e fui apertar a campainha de Nao. O moreno abriu a porta com seu costumeiro sorriso largo.
- Aki-kun! A que devo a honra de tão rara visita?
- Não precisa ser tão sarcástico, Nao. Eu preciso de roupas.
- Ahn... você não deveria ir até uma loja?
- Não são pra mim. É que eu estou temporariamente abrigando um amigo meu que ao que tudo indica, fugiu de casa. E como ele é mais ou menos do seu tamanho...
- Já entendi. Entra, fica a vontade. Eu vou pegar umas trocas de roupa. Quer um chá ou... água?
- Não, obrigada, Nao-kun.
Em pouco tempo, o moreno voltou com três trocas de roupa.
- Pode deixar que logo eu devolvo limpo e passado.
- Se precisar de mais...
- Muito obrigado mesmo, Nao-kun.
- É um prazer poder ajudar.
Nos primeiros meses que Nao havia se mudado para aquele andar, ele parecia a pessoa mais tímida que eu já tinha visto. Corava simplesmente de alguém lhe dirigir um cumprimento normal. com o tempo, ele foi aprendendo a se soltar, e devo dizer que parte disso era mérito de meu outro vizinho, Kai, também um velho amigo meu.
Aquele andar possuía quatro apartamentos: o meu, o de Nao, o de Kai e o de Uruha. Uruha já me conhecia da época do colégio. Kai, eu conheci um pouco depois. Kai era o tipo de pessoa gentil até nos momentos mais absurdos. Nunca o havia visto irritado ou descontrolado. E seus sorriso eram sempre um pouco mais gentis para Nao. O motivo, eu deduzi algum tempo depois. Nada que não fosse óbvio.
Eu não me importava que meus vizinhos fossem namorados, e Uruha até incentivava. Creio que o loiro havia servido de cupido nessa história. Mas era uma história bonita, de qualquer forma. E era um casal bonito também. O "casal gentileza", como eu os chamava internamente.
Quando abri a porta do meu apartamento, Ruki continuava em meu sofá, mas... parecia ter caído num sono profundo. Sorri com a visão, apreciando a beleza triste do pequeno. É, talvez... dali pra frente, minha vida não fosse mais a monotonia mórbida de sempre. E tinha a prepotência de pensar que, de alguma forma, eu havia sido útil a alguém. Quem sabe não seria aquele pequeno dormindo no meu sofá que preencheria o vazio da minha vidinha comum?
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