Diários do Fim do Mundo | FIC INTERATIVA

3 CAPÍTULO 2 - O lobo é o lobo do lobo


17/08/2694 4:32AM

Para lembrar futuramente: a vida pós-apocalíptica é tão ruim quanto a vida normal.

Como sobreviver ao apocalipse em passos simples:

#1- Ache/construa um abrigo seguro;

#2- Ache uma fonte potável de água;

#3- Ache alimentos comestíveis;

#4- Crie uma porta dos fundos no seu abrigo que só você saiba;

#5- Crie armadilhas externas e internas para se proteger de invasões;

#6- Não procure maconha.

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19/08/2694 4:24PM, FAZENDA DA DONA NINA

Honestamente, quando pensava no mundo apocalíptico, achava que a situação seria levada à sério por todos, mas acho que cada um tem seu jeito de lidar com a vida, não? Gostaria de deixar registrado que a vida depois do fim do mundo não muda muito, e que as pessoas sobreviventes são apenas mais irracionais do que antes. Seres endemoniados ou pessoas, todos são abestados. Acho que deve ser intrínseco à natureza do ser humano.

Recapitulando o que aconteceu até agora, mesmo que não tenha certeza se quero lembrar do que aconteceu. Quando cheguei na livraria, havia algo lá dentro. A coisa mais lógica a se fazer foi entrar pelos fundos da loja, o que descobri ser extremamente conveniente. Quando se vive em um mundo de caos, a porta dos fundos é o melhor jeito de evitar a estupidez humana.

Cheguei em silêncio para tentar descobrir a fonte de luz que se formava e apagava lá dentro, com um pedaço de madeira que havia achado na fazenda. Seria útil achar um bastão ou alguma arma, caso isso aconteça de novo. Devia procurar algum livro que me ensine a confeccionar armas brancas de longo alcance, como um arco e flecha.

O que achei foi muito surpreendente, esperava que aquelas coisas tivessem invadido. Queria que tivessem sido endemoniados, seria melhor. Descobri que não era a única sobrevivente (o que já havia suposto), e que no meio da livraria havia uma garota com um isqueiro fraco revirando os livros ali dentro.

Ela é uns dez centímetros mais alta que eu, mas mais magra. Parecia fácil derrubá-la. Uma pele mais escura que a minha e cabelos mais compridos que os meus, castanhos e cacheados, os meus são lisos e negros. Não parece mais fácil de cuidar que o meu, mesmo que seja menos oleosos, muito cabelo significa mais shampoo. Não existe muito shampoo e chuveiro no fim do mundo. Tinha sorte da privada ainda funcionar.

Me perdi na surpresa de existir outra pessoa e fiquei mais exposta para analisá-la, e quando ela se virou me viu também. E gritou, um grito muito agudo. Minha reação foi automática e, antes de me julgar, pensei se não teria feito o mesmo que eu. Eu acertei a cabeça dela com o pedaço de madeira. Achei que era uma benção ela não ter morrido, agora não sei se é algo bom.

Tranquei ela no caixa da biblioteca e tampei a parte de cima com uma estante que havia caído, graças à Arquimedes. Com uma alavanca se levanta o mundo e cria uma prisão provisória. Não achei que sou um péssimo ser humano, por isso, deixei um pote de água e comida lá dentro pra ela, e deixo ela sair para ir ao banheiro, não ia colocar um balde pra isso. Só preciso descobrir antes se ela é confiável ou não. Útil eu ainda não tenho certeza.

Enfim, a garota fraca só acordou cerca de oito horas depois. Se tivesse gelo teria cuidado do galo em sua cabeça, mas os recursos são poucos e energia não existe. Achei que ela ia acordar gritando de novo, mas pra minha infelicidade acordou reclamando e não falava coisa com coisa. Era algo sobre o lobo ser o homem do lobo, algum autor francês que havia virado morto e sobre escrever o primeiro ensaio pós-apocalíptico já que estava em uma prisão. Eu ignorei ela pela próxima meia hora, acho que a pancada acabou sendo muito forte.

Tão forte que fazem dois dias que nada do que ela fala faz sentido, então só deixo ela trancada enquanto arrumo a fazenda. Talvez, quando terminar, deixe a livraria pra ela. Pode ser o contrário do que muitos livros de sobrevivência recomendam, mas ficar sozinha é muito mais pacífico do que com uma estranha que não cala a boca.

Quando consegui conversar com ela no meio da madrugada, ela me contou que o motivo de ter entrado lá era pelo estoque de maconha dela ter acabado e por livros serem o melhor esconderijo. Depois me falam que achar que americanos são malucos é preconceito, no caso dela já é um conceito consolidado. Quer dizer, quem no meio do fim do mundo decide cruzar a fronteira para um país frio como o Canadá só para procurar maconha? Um mês e tudo que ela pensou em fazer foi isso? Sinceramente, às vezes a humanidade merecia ser extinta.

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21/08/2694 4:16 PM, FAZENDA DA DONA NINA

Creio que uma das coisas que mais queria antes do fim do mundo era um pouco de paz, sossego, um canto que pudesse chamar de meu e viver tranquila e um animal de estimação. Nunca pensei que o fim do mundo seria o que me proporcionaria tudo isso. Quando todos morrem, paz e sossego é o que se tem de sobra, será que era isso que Deus queria? Ninguém fica enchendo o saco? Quando todos somem, o que mais sobra é espaço para se apropriar, agora tenho uma fazenda e uma livraria.

Viver tranquilamente é difícil, por mais que não escreva muito sobre isso, sair pra qualquer lugar é o maior perigo que se pode enfrentar agora. A hippie que encontrei, que descobri se chamar Sophia, sempre me pergunta o porquê de sair da zona de conforto se é muito arriscado. Finjo ignorá-la, mas no fundo, só não achei uma pergunta decente.

Por medo de ficar presa, medo de morrer sem nem tentar. Sair é enfrentar essas coisas que vieram só Deus sabe da onde, mas ficar é enfrentar a fome, sede e, pior, as dúvidas e medos que se escondem dentro da nossa mente e só são enfrentadas na solidão. É a clássica situação de se ficar o bicho pega, se correr o bicho come.

Por último, um animal de estimação para me fazer companhia. Não era o que tinha em mente, mas Sophia é praticamente isso hoje. Come, dorme, faz xixi e enche o saco. A resposta pra sair todos os dias é me livrar das conversas sem sentido que ela tenta ter, tentar ter a paz e sossego que tinha antes dela chegar. Quem sabe, algum dia perceberemos o quão importante é viver em comunidade seja.

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23/08/2694 2:47AM, LIVRARIA

Tive um sonho, um pesadelo na verdade. Era mais uma memória ruim. Estava no banco de trás de um carro, ouvia a música que saía do rádio e ria das coisas sem sentido que minha irmã dizia ao meu lado. Tudo passava em câmera lenta, a luz forte, o barulho alto, o vidro se espalhando.

Mas, ao mesmo tempo, tudo era muito rápido, como um borrão. Fechei os olhos e, ao abri-los, o que vi foi a livraria destruída. O carro em que estava havia atravessado a vitrine, o farol aceso cegava minha visão e a buzina machucava meus ouvidos. O vidro estava todo espalhado, o carro amassado… Mas não tinha ninguém. Tudo o que me restava era vidro, pó e destroços.

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25/08/2694 6:52PM, LIVRARIA

Preciso de ajuda.

Decidi soltar Sophia, sinto que de alguma forma ela me convenceu que manter alguém preso, mesmo que uma ameaça, é aniquilar minha própria humanidade. De alguma forma, dar uma chance para um desconhecido e deixá-lo esfaquear minhas costas parece muito mais agradável do que interrogá-los até ter certeza que é alguém confiável. Talvez ela não seja tão inútil quanto eu penso. Provavelmente, me arrependerei de tê-la soltado.

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27/08/2694 5:23PM, LIVRARIA

Agora é praticamente oficial, Sophia é meu novo animal de estimação. Aonde eu vou, ela me segue. Me pergunta o tempo todo o que estou fazendo, pede comida e água o tempo todo. E me faz companhia o tempo todo, me respeita quando preciso do meu espaço também. Na verdade, ela tem me ajudado bastante na fazenda, diz que é um ótimo lugar pra se refugiar no apocalipse. Se eu peço pra ela buscar a madeira, ela busca. De certa forma, se tornou como um animal de estimação, só preciso treiná-la melhor.

As conversas sem sentido são divertidas, me fazem esquecer por um momento que estamos nessa situação. É quase como se fossemos amigas de longa data conversando sobre os livros que lemos enquanto tomamos sorvete, até espero André descobrir e me chamar de volta pro trabalho. Ela tem esse efeito meio hippie, de me fazer acreditar que nada mais importa apenas o fato de que peixes podem nadar fora d’água e que a sociedade se estrutura de diversas formas diferentes.

Ela tem boas recomendações de livros também, e recomendações sobre como preservar todo tipo de erva por mais tempo. Diz que foi o que mais aprendeu nesse último mês. Concordamos que ela cuidaria da horta por esse motivo, ainda que eu ache que vá me arrepender e encontrarei apenas maconha lá. Ela diz que é útil por ser medicinal e nos deixa calmo também. Mas te dá fome, e fome é algo que se deve evitar quando a comida é escassa.

Chegar na livraria em segurança no fim da tarde e preparar o que seria nosso jantar tem sido um dos momentos que mais espero. No telhado daquele prédio pequeno, enquanto tomamos alguma sopa improvisada e observamos o pôr do sol, me sinto em casa. Será que essa é a nova definição de “lar”? Um momento de paz e segurança em que não se pensa e espera nada, apenas vive o momento?

Ainda que cautelosa, quero manter Sophia por perto. Mesmo que não sejam novas informações sobre como sobreviver ou o que aconteceu com o mundo, ela tem se mostrado um ótimo livro para se ler e descobrir. Louquinha de pedra, como diria minha mãe, mas cheia de conhecimentos interessantes sobre como o mundo era antes.

É, de certa forma, tranquilizante poder pensar que assim como todas as coisas que ela fala uma vez foram história e passaram, tudo o que vivemos agora também é e vai passar. Quando não está sendo irritante, ela me lembra de viver de vez em quando ao invés de me preocupar, e me traz esperança de que todo novo dia é uma nova oportunidade para descobrir algo além do cenário de guerra à nossa frente.

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28/08/2694 5:23AM, LIVRARIA

Uma coisa que não achei em nenhum livro pós-apocalíptico até agora é o quão tranquilo pacífico ele poderia ser. É quase como se vivesse isolada em uma montanha, sem muitos problemas e barulho. Depois de algum tempo sem quase ninguém na cidade, muitos animais começaram a aparecer, o que significa uma quantidade maior de proteína.

Descobri que não existem vegetarianos e veganos quando se está tentando sobreviver, é um pouco contraditório pensar em proteger a vida de um animal quando se tenta proteger sua própria vida. Infelizmente, meu único animal de estimação ainda é Sophia, mas não posso reclamar tanto.

Talvez esteja me apegando a ela, o que é uma atitude um tanto quanto questionável quando se vive em um mundo em que o perigo literalmente está em cada esquina. A grande vantagem de não ter mais gente e mais comida caminhando pelas ruas é que elas despistam aqueles demônios que ficam por aí.

Antes de encontrá-la, me preocupava muito em achar comida e aprender o máximo possível, agora me preocupo em voltar pra casa antes do entardecer, não pelo perigo que a falta de luz representa (surpreendentemente, o isqueiro que ela usa pra fumar foi muito útil para conseguirmos uma lamparina improvisada com o resto de óleo do fast-food da rua), mas para conversarmos até perder a noção do tempo. É quase como se ela tivesse me ensinado a viver. É quase como uma forma de escapar da dura realidade que enfrentamos.

Mas sendo bem justa, às vezes ainda me arrependo de tê-la soltado da gaiola. Descobri que a pancada que dei não foi muito forte, ela é maluca naturalmente. Se aquelas coisas forem zumbis, ela pode andar sem medo, já que eles gostam de comer cérebro e ela não parece muito ter um. Ou não usa muito.

Enfim, exageros a parte, nossa horta está quase pronta, mas precisamos achar água e um jeito de regá-la. Me lembro vagamente de ter assistido um filme em que um garoto fazia isso com vento, mas aqui não venta muito. Problemas de cidade montanhosa, eu acho. Tinha um riacho perto da fazenda em que o restaurante da dona Nina ficava, mas quando chegamos lá ele havia sumido.

Muitas coisas mudaram em pouco tempo. Ainda me questiono onde os habitantes da cidade foram parar, não seria possível só eu e o André termos sobrevivido, ainda que a cidade tenha poucos habitantes. Sophia não se lembra de ter encontrado ninguém no caminho para cá também.

Sendo bem sincera, acho que ela não se lembra de quase nada, provavelmente nem de como tudo isso começou. E não me pergunte, ainda não faço ideia como ela conseguiu cruzar a f

ronteira e imagino que nem ela saiba. Não seria possível também que só nós não nos transformaremos naquelas coisas, sejam elas o que forem.

Estávamos discutindo outro dia sobre possibilidades do que tenha acontecido, se foi o governo controlando as mentes, uma bomba biológica, nuclear, explosão solar… A mais hilária foi a de que os alienígenas que fizeram isso. Nos lembramos que um canal de história da televisão sempre falava que tudo na história havia sido manipulado por aliens, e que provavelmente o fim do mundo era eles se arrependendo de nós. Ou se sentindo ameaçados. Ou eles resolveram popular a Terra e essas coisas são alienígenas.

Sophia pode ser drogada, mas ela tem uma habilidade impressionante de falar besteiras até sóbria, acho que isso a torna uma companhia questionável, às vezes agradável de ouvir, às vezes irritante por não calar a boca. Claro que ela ainda é um pouco preguiçosa, ao meu ver, e fala até no sono. Discute sobre tudo, desde racionarmos água e comida até sobre o céu ser azul ou não. Acho que, no fundo, ela só gosta de discutir e irritar. Ela é a personificação da mosca na minha sopa.

Literalmente. Uma vez ela quis ver se minha sopa estava quente e colocou o dedo sujo nela, depois ficou me enchendo por não ter avisado que estava quente demais para colocar o dedo. E depois ficou argumentando sobre a sopa quente não ser um fato concreto, mas que dependia do meu referencial. Nesses momentos eu me arrependo de não estar sozinha.

Mas, vendo pelo lado positivo, é vantajoso ter alguém para me fazer companhia. Ela me ajuda a reconstruir a fazenda e achar mais mantimentos e, se ela encher muito o meu saco, sempre posso jogá-la na rua com a missão de descobrir se aquelas coisas matam pessoas ou não :)

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30/08/2694 9:35PM, LIVRARIA

Atualização rápida do que fizemos hoje:

Achamos mais sementes na floricultura, incluindo de girassol e abóbora. Achamos também alguns tubérculos que começaram a crescer, incluindo feijão e batata, e decidimos que íamos plantar ali. Ainda acho que Sophia sabe fazer algum tipo de hipnose ou lavagem cerebral, porque de alguma forma ela me convenceu a deixá-la plantar um pouco de maconha também. Preciso me lembrar se nessa província a maconha é legalizada ou não, só por precaução.

Enquanto ela cuidava do jardim, fiquei arrumando a varanda e protegendo as entradas da casa também. A estrutura do chão é um pouco questionável, mas resolvi ignorar por enquanto. Se tivermos proteção contra ameaças externas e, com as lamparinas que conseguimos fazer, podemos virar noites, se necessário, consertando o interior.

Fizemos uma estufa para proteger a horta do sol, caso a radiação seja prejudicial à saúde. Encontramos um poço fechado nos fundos, provavelmente amanhã vamos tentar descobrir se ainda tem água ali e como bombeá-la. Precisamos consertar o galinheiro, caso a gente queira criar algum animal, e arrumar a cerca elétrica.

Ainda que não exista mais energia nessa parte, podemos usar o arame como proteção e colocar algumas armadilhas ao redor. Precisamos achar algum jeito de conservar a carne que adquirimos também, já que não temos um estoque de sal muito grande. Enquanto descansamos no almoço, a sensação de que tudo poderia dar certo me atingiu em cheio. Acho que estou baixando muito minha guarda para um apocalipse. Espero que essa sensação nunca acabe.

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02/08/2694 2:15AM, LIVRARIA

Essa sensação acabou hoje.

Surpreendentemente, pela primeira vez desde que o mundo acabou, não sei o que fazer. Minha mente continua voltando pros acontecimentos de hoje, tentando descobrir o que deu errado. De alguma forma, meu cérebro busca uma justificativa para me fazer acreditar que a culpa não foi minha. Mas eu sei que foi. Não foi azar, não foi falta de conhecimento.

Pela primeira vez desde que o mundo acabou, eu não prestei atenção. Fiquei tão focada em ter algo bom para comermos hoje que não prestei atenção, e quem pagou o preço por isso não fui eu. Fiz tudo o que consegui e aprendi nos livros até agora, procurei mais livros sobre primeiros socorros, todos eles me dizem que tudo o que posso fazer agora é esperar.

Não devia ter deixado Sophia sozinha, eu sabia disso. Mas, por um momento, eu esqueci o quão perigoso isso podia ser. Nem toda a carne do mundo vale mais que ela, pelo menos não para mim. Achava que sobreviver sozinha era a melhor opção, mas era apenas a mais fácil. Estava fugindo disso, sabia que isso ia acontecer, de novo.

Enquanto nos preparamos para voltar, ouvi um animal chorando, machucado, nos arredores da fazenda. Queria comemorar por termos acabado o que precisávamos fazer e por podermos nos mudar para lá. Quando cheguei lá, fiquei com pena do animal chorando, mas o grito de desespero me chamando que ouvi foi o que me quebrou. Tudo foi tão rápido e, ao mesmo tempo, tão devagar. Como um borrão e tudo o que consigo me lembrar são os detalhes.

A terra seca enchendo meu nariz de pó e fazendo minhas coxas queimarem enquanto tentava subir de volta o barranco que dá para os fundos da fazenda. O sol quente está se pondo e me fazendo suar ainda mais. Aquela coisa humana com dedos que pareciam facas acertando o chão enquanto corria. O brilho sanguinário de determinação naqueles olhos negros que me fizeram vacilar e travar por alguns segundos cruciais. A terra se tornando vermelha. Os cachos castanhos se sujando de terra. Não importa se eu feche meus olhos ou não, essa imagem se gravou nas profundezas de minha mente e nunca me deixará em paz. Queria poder apagá-la. Queria que não fosse minha culpa.

Sabe, na maioria dos livros sobre apocalipse que li, os personagens se refugiam em uma fazenda por ser um lugar seguro e cheio de mantimentos. Mas não é. Nenhum lugar é. Tentar sobreviver é inútil, estamos apenas adiando o inevitável. Vivi até agora como se tivesse o controle sobre tudo, sempre foi assim. E sempre deu errado.

Não quero perdê-la.

Quero que ela acorde me dizendo que estar machucado ou não depende do seu referencial, que ela reclame por estar com a perna enrolada na sua roupa preferida e que foi caro encontrar algo que fosse à altura da moda atual, que fale sobre como um peixe conseguiria sim viver fora d’água e ainda andar de bicicleta, sobre como nós somos os alienígenas ao invés dos demônios que a atacaram enquanto virava minhas costas, quero tomar a água quente com tempero que ela chama de sopa enquanto me ensina sobre como a curiosidade do ser humano pelas estrelas são a base da formação da sociedade pós-moderna. Por que tem que ser sempre assim?

Só quero que ela esteja bem. Só quero que ela esteja viva.