Diários de Verônica
1 26 de Dezembro de 1988
26 de Dezembro de 1988.
Meu Deus, eu não Acredito! Com tanto presente bom pra me dar a minha mãe tinha que me aparecer justo com um diário? O que é que eu faço com uma coisa dessas? Acho que até preferia ter ganhado umas roupas ao invés disso... Mas mamãe disse que eu já sou uma mocinha e que já estava na hora de ter um diário pra escrever sobre os meus segredos de adolescente.
Às vezes a minha mãe realmente consegue ser exagerada... Mês passado, quando veio a minha primeira menstruação, ela disse que agora eu não era mais uma criança e jogou todas as minhas bonecas fora. E agora ela me aparece com esse “diário-coisa-de-adolescente”. Dá pra acreditar? Eu gostava das minhas bonecas, podia até ter guardado uma para deixar para as minhas filhas, mas eu aposto que ela nem pensou nisso. Pelo menos a boneca que vovó me deu está bem guardada e essa mamãe não achou, vai ser uma boa lembrança da minha infância.
Mas já que agora eu tenho um diário, não custa nada tentar usar...
Querido diário,
Eu tenho mesmo que escrever isso? Bom... Não importa, eu acho...
Hoje é manhã de natal e eu acabei de te receber das mãos da minha mãe, que estava muito emocionada por sinal. Deve ter se lembrado da infância dela ou coisa do tipo.
Meu nome é Verônica Porto Dias. Tenho catorze anos, meu cabelo é longo, castanho claro e bem ondulado, meus olhos são mais pretos que carvão e eu não sou tão alta como eu desejava, mas tenho esperanças de ainda crescer mais um pouco do que os meus um metro e cinqüenta e cinco centímetros. Moro com meus pais e minha avó em um casarão que herdamos do meu avô, e não tenho irmãos. Eu não costumo ser muito simpática com as pessoas, acho que tenho uma tendência meio anti-social, deve ser por isso que eu não consigo aprofundar minhas amizades. Mas adivinha: eu não me importo com isso também.
Já que nesse diário eu supostamente devo escrever sobre mim e sobre meus segredos mais profundos, tem algo sobre mim que eu preciso falar.
EU CONSIGO VER FANTASMAS.
Pronto, falei. Nossa, foi melhor que eu esperava! Deve ser porque um diário não vai poder te responder. Logo não vai te chamar de louca ou dizer que está tendo alucinações. Antes fossem alucinações. Para mim eles são tão reais quanto qualquer ser humano, tanto que no começo eu nem sabia diferenciá-los.
No começo era realmente muito complicado para mim, eu não entendia por que logo eu estava vendo gente morta por aí e eu também não tinha com quem conversar sobre isso. Eu até tentei falar para a minha mãe o que estava acontecendo comigo, mas ela pensou que eu estava só querendo chamar a atenção, por que na época nós tínhamos acabado de mudar pra essa casa e também fazia pouco tempo que vovô havia morrido, e eu era muito apegada a ele. Só querendo chamar a atenção? Tenha paciência, eu via um homem na nossa sala de estar todos os dias, e não só na sala, mas pela casa toda! Eu não acho que isso seja querer aparecer. Essa foi a minha primeira tentativa. Fracassada, logicamente. E eu que pensava que minha mãe fosse compreensiva já que ela, com toda aquela religiosidade dela, acreditava na alma humana e na vida após a morte... Mas ela apenas me disse que eu estava grandinha demais para inventar essas histórias. A partir desse dia desisti de contar qualquer coisa para ela.
Bom, falar para o meu pai estava fora de cogitação. Ele é velho e antiquado, cem por cento de chances de ele ter me dado uma surra daquelas, que era para eu aprender a não mentir mais.
Então sobrou a minha avó. E, para a minha surpresa, ela não me achou carente de atenção, nem louca, nem mentirosa, nem nada. Ela até me aconselhou, me disse que eu deveria tentar conversar com eles, saber o que eles queriam, talvez eles não precisassem de muita coisa antes de ir descansar definitivamente. Só que, e eu não gosto de dizer isso, vovó já está muito velhinha e às vezes ela não fala coisa com coisa. Muitas vezes dá a impressão de que nem ela sabe direito do que está falando.
Mas minha avó foi a única a me dar palavras de conforto, e foi graças a essas palavras que eu consegui lidar com Eles. E hoje eu estou totalmente acostumada. Pode até soar meio esquisito uma pessoa dizer que está acostumada a viver rodeada de gente morta, mas eu os vejo, e não tem como mudar isso. E alguns até que são simpáticos, não dá pra evitar.
Hoje eles são parte da minha vida, e eu não consigo imaginar como seria minha vida sem isso, pois isso é o que me dá a impressão de ser uma pessoa única no mundo e que deixa minha vida mais animada, pois eu sei que viver como uma pessoa normal deve ser muito chato.
Pronto acabei de escrever na primeira página do meu diário. Mamãe vai ficar orgulhosa de mim. Até que deu pra fazer um desabafo legal... Talvez esse diário seja útil para alguma coisa, enfim.
Notas finais
E então, como ficou? É a primeira vez que eu tento escrever alguma coisa desse tipo então sejam bonzinhos comigo.
Então... Eu vou tentar fazer uns capítulos não tão grandes e vou tentar postar pelo menos um dia da vida dela por semana (se der sorte, coloco dois ^^)
E por quê esa data e esse ano? Ah, quando chegar mais pra frente vocês vão entender, juro.
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