[...]Fico feliz que tenha me convidado e agradeço pelo dia, me diverti bastante.

– Eu que agradeço por ter aceitado sair comigo. Posso lhe pedir um favor?

– O que?

– Não conte nada do que houve a Manuela. Não quero que ela saiba.

– Está bem! Mas é melhor irmos logo antes que algum supervisor nos veja.

– Tudo bem, amanhã nos vemos?

– Claro! Boa noite Joaquim!

– Boa noite Alice!

Joaquim se inclina para frente e beija a minha bochecha antes de se afastar para o dormitório. Eu subo a escada correspondente a ala feminina com vontade de nunca chegar, pois sei que minhas amigas devem estar me esperando acordada para que eu responda um enorme interrogatório que provavelmente estragaria o lindo dia que tive, mas sei que terei que enfrenta-las de qualquer maneira.

Chego no quarto e quando abro a porta, vejo minhas amigas sentadas nas camas. A primeira a falar é Mirela, após eu fechar a porta atrás de mim:

– Me conta tudo!

– Tudo o que?

– Sobre o encontro!

– Não foi um encontro!

– Para você chegar a essa hora, o que poderia ser se não foi um encontro?

– Só sairmos!

– Para onde?

– Fomos para o camp... O que importa?

– Por favor! Seja boazinha conte-nos tudo!

– Tá, mas conta logo!

– Joaquim me levou para o campo de tulipas vermelhas e lá ele tinha preparado um piquenique. Conversamos sobre coisas sem importâncias!

– E o que mais?

– Só isso! Agora eu vou dormir pois estou cansada!

– Mas...

– Mas nada! Boa noite!

Abro a minha mala e pego um pijama azul, o primeiro que vejo antes de ir ao banheiro para tomar banho e começar a minha rotina antes de dormir. Quando volto para o quarto minhas amigas vejo minhas amigas no mesmo lugar, olhando para mim com caras de curiosas, mas não dou a mínima.

Coloco um tapa-olho e um fone com uma música relaxante, só dessa forma mesmo para que eu consiga dormir depois do dia que eu tive. Depois de algumas músicas, acabo dormindo...

∞∞∞

Quando acordo e retiro o tapa-olho, minhas amigas estavam do mesmo jeito que na noite anterior. Eu acharia que que elas não tinham dormido, senão estivessem de pijama e com aquelas caras de quem acabou de acordar com marcas do travesseiro.

– Vai conta como foi?

– Eu contei tudo – pego o meu celular que acabou ficando no criado-mudo e olho rapidamente as notificações. A maioria era mensagens e ligações da minha mãe. Leio as mensagens e vejo que minha mãe chegou a vir no quarto ontem, mas viu que estava dormindo e foi embora. Então se despediu e desejou boa-sorte com o ano letivo por mensagem.

– Queremos detalhes!

– Tive uma ideia. Que tal eu descer falar com ele umas coisas que eu preciso falar, ai depois eu subo e conto tudo nos mínimos detalhes.

– Amei a ideia! Então o que está esperando? Coloca a sua melhor roupa e vai!

Consegui convence-la por um tempo, mas eu sei que por mais que eu enrole para voltar ao quarto, em algum momento eu acabarei no interrogatório de novo. Enquanto me arrumo, as meninas começam as próprias rotinas.

Ao sair do quarto, não vou atrás de Joaquim como disse, sigo para o pátio falar com uns amigos que eu ainda não havia visto desde quando voltei ao colégio.

Devo ter ficado conversando por uma hora com meus amigos, depois eu resolvi dar uma volta só para espairecer... Como ele é lindo. Perfeito. Tem ar de ser inteligente. Dono de um olhar marcante.

Ops!

Desconsidere o que escrevi por último. Enquanto realizava as minhas anotações, meus olhos acabaram captando ele não muito longe de onde estou, escrevendo no próprio diário. Volto a olhar para você rapidamente quando percebo que ele me viu e se levantou, vindo até mim.

– Acordou bem? – Joaquim pergunta se sentando no meu lado.

– Muito bem e você?

– Bem...

– Que bom! – me resumo a dizer, sem saber ao certo o que dizer a ele depois de ontem.

– Quero te mostrar uma coisa...

– Do que se trata? – falo sem dar muita atenção.

– Está lá no meu quarto... — ele fala se levantando.

– Ah..., eu espero aqui então... — Joaquim faz menção de que seguiria o corredor, mas vira novamente a mim coçando a cabeça.

– Eu queria te mostrar a sós... então se importa se vier comigo?

– Tudo bem então... eu vou...

Me levanto e o sigo um pouco atrás dele para não levantar muitas suspeitas. O quarto dele é uns dos últimos do dormitório masculino. Preciso de bastante cautela para chegar sem ser vista por quem não devia.

– Esse é o meu quarto... – ele fala abrindo a porta – Entra... – passo pela porta marrom entrando no quarto.

Todas as acomodações são parecidas. As únicas diferenças são que no feminino a cor das paredes é um lilás e a masculina é um tom verde claro, dependendo do quarto são três ou quatro camas. Mas os outros detalhes são iguais, no lado direito de cada cama um criado-mudo e do outro uma mesa de estudo. Na parede oposta a porta de entrada um grade-roupas grande de oito portas e a porta para o banheiro.

– Fique à vontade. Por enquanto estou sozinho no quarto até chegarem de férias.

– Então?

– Então o que?

– O que queria me mostrar...?

– Na verdade não a nada o que mostrar...

– Nada? Então por que me chamou aqui?

– Queria um momento sozinho com você...

– Melhor eu ir embora.

Me viro voltando para a porta. Não sei aonde estava com a cabeça quando aceitei vir ao quarto de um rapaz que eu mal conheço e não sei de suas intenções. Toco a maçaneta da porta para abri-la quando ele coloca as mãos em minha cintura e me vira em sua direção.

– Me solta..., tenho coisas a resolver... – falo tentando manter a calma.

– Não vou te soltar se quiser ir embora..

– Me solta senão eu grito!

Joaquim me puxa para mais perto de si. Sinto sua respiração suave em minha pele. Ele se aproxima cada vez mais e me sinto hipnotizada novamente por seu olhar, incapaz de me soltar.

– Nós queremos o mesmo, está em seu olhar! – Joaquim diz enquanto olha em meus olhos.

– E o que eu quero? – pergunto com medo da resposta, da dele e da minha.

– Isso...

Joaquim termina o espaço entre nós e seus lábios tocam nos meus, iniciando um beijo doce e suave, como se ele tivesse medo que eu pudesse quebrar em suas braços. Minha resposta é rápida, mas o afasto quando me lembro que ele é namorado de uma velha amiga minha.

– Não...

– Não adianta mentir... – o espaço entre nós é curto, curto o suficiente para que ele me beije novamente se quiser e se fizer, não acho que sou capaz de ter forças para me afastar.

– Você tem namorada e ela é minha amiga – digo tentando manter a minha mente em ordem.

– Não estamos mais juntos! Estou apaixonado por você!

Fico perplexa. Nunca ninguém me disse que estava apaixonado por mim com tanta paixão na voz. Minha parte racional me diz que ele pode estar me enganando para se aproveitar e que talvez, nem tenha terminado com Manuela.

Ele me beija novamente. Dessa vez eu deixo, não tenho forças para me afastar e quero acreditar na palavra dele porque faz sentido para mim.

A porta de abre ao nosso lado e viramos nossos rostos ao mesmo tempo para ver quem está entrando já que Joaquim me disse estar sozinho no quarto, mas nossos corpos permanecem juntos.

– O que significa isso?

– Manuela? – falo assustada e empurro o Joaquim com minhas mãos em seu peitoral. Ele não estava esperando, então consigo me desvencilhar – Eu posso explicar...

– Sim, sou eu e realmente adoraria uma explicação – Manuela fala colocando a mão na cintura fazendo aquele jeito mandão que só ela sabe fazer, mas com seu rosto demostrando raiva.

– Terminei com você Manuela.

– Eu sei, você disse que a distância não daria certo ontem. O que você não sabia, é que eu havia convencido os meus pais a me transferirem para cá e como Alice parece estar tão feliz aqui, eles concordaram rapidamente. Pensei em fazer uma surpresa para meu namorado e para minha amiga. Vejam só! Eu que fui surpreendida!

Fecho os olhos por um segundo, tentando clarear a mente e decido assumir a culpa. Sou culpada de qualquer jeito por sentir o que senti desde a primeira vez que o vi ontem e por permitir ser colocada nesta situação.

– É tudo culpa minha! O Joaquim não teve culpa!

– Não a culpa é minha!

– Se decidem quem é o culpado?

– Minha – falamos em uníssono.

– Alice, eu disse para você cuidar dele, para que ninguém o roubasse de mim, mas acabo que você mesma fez isso.

– Não é o que parece, eu juro!

– Para de mentir Alice. Não so nenhuma tonta. Vi você dois se beijando.

– E daí já não estamos mais juntos.

– Vou embora para que possam conversar. Se quiser, podemos falar mais tarde.

Me pronuncio e saio do quarto em seguida, não dando tempo para nenhum dos dois dizerem nada. Sai dos dormitórios dos garotos o mais rápido que consigo para não ser vista.

Quando chego no meu quarto, me deparo com minhas colegas de quarto e Fabiana, além de mais duas do quarto ao lado conversando sobre a razão de terem mais um conjunto de cama e malas.

– Você sabe de algo? – Melissa pergunta assim que me vê entrar.

– Acredito que possa ser da Manuela.

– Se é a sua amiga, porque não parece feliz?

– Eu estaria se ela não tivesse visto eu e o Joaquim se beijando no quarto dele. Agora ela deve estar querendo matar a nós dois.

– O QUE? – perguntam todas ao mesmo tempo.

– Estávamos nos beijando no quarto dele quando ela entrou. Deixei eles tendo uma discussão.

– Sinto muito amiga!

– Eu também sinto. Ela é ou era uma grande amiga.

– Se eu fosse você eu enfrentaria e roubaria o gato dela! – Mirela diz bem calmamente, parecendo não entender a situação.

– Vou sair!

– Para onde?

– Vou dar uma volta pela cidade.

– Quer companhia?

– Não eu vou pensar um pouco na vida!

Pego a minha bolsa que estava na minha mesa de estudos e saio do quarto sem um destino definido. Talvez nunca mais volte para aquele colégio, pelo menos é o que sinto no momento.