Diários da semideusa
20 Capítulo 18
Notas iniciais
Enquanto Zoe não acordava, fiquei pensando sobre meus últimos sonhos. Nico e Percy. Um confuso e o outro... Confuso também. Minha mente estava processando tudo que havia acontecido comigo nos últimos tempos, mas, ainda sim, nada fazia tanto sentido e não consigo deixar de imaginar se isso tudo não seria só mais um dos meus sonhos super-reais.
Zoe acordou e um pouco depois Thalia, Grover e Percy apareceram dizendo que tínhamos que seguir em frente o quanto antes.
Nós chegamos a uma pequena cidade, que segundo a placa se chamava Cloudcroft, no Novo México. O ar estava frio, mas não muito pior que o de onde estávamos anteriormente. Altos pinheiros teciam o vale, formando sombras escuras, embora a manhã estivesse ensolarada. Fomos à rua principal e continuamos andando, até que Thalia parou e disse irritada:
– Ótimo. Sem estação de ônibus. Sem táxi. Sem aluguel de carros. Sem saída.
– Há uma lanchonete – replicou Grover.
– Sim – Zoe disse. – Café é bom.
– E pastéis. E papel encerado.
– Certo. Que tal se vocês forem pegar alguma comida para nós e Percy, Bianca e eu vamos checar na mercearia. Talvez eles possam nos dar algumas direções – Thalia propôs e concordamos de nos encontrar na mercearia em quinze minutos. Eu não estava muito a vontade, principalmente depois do sonho da noite anterior, mas tentei ser profissional e fui.
Quando chegamos à mercearia, descobrimos que a cidade era ainda mais complicada que aparentava ser.
– Você poderia chamar um táxi de Alamogordo. É lá embaixo, na base das montanhas, mas levaria pelo menos uma hora para chegar lá. Custam centenas de dólares. – o balconista disse duvidoso.
Voltamos para esperar em frente à mercearia, como o combinado, e Percy brincava com o rato de borracha que havia comprado por um dólar sabe-se lá por que.
– Maravilha! Eu vou descer a rua e ver se alguém das outras lojas tem alguma sugestão. – Thalia anunciou.
– Mas o balconista disse...
– Eu sei. Vou checar mesmo assim.
No momento em que ela saiu, Percy e eu ficamos num clima de silêncio constrangedor. Eu estava tão desesperada por um assunto, que qualquer idéia maluca serviria.
– Belo rato – disse por fim.
Ele o pôs na grade do portão e se virou novamente para mim.
– Você me pareceu arrependida de não ter se juntado a caçada.
– Se eu tivesse ficado arrependida, diria a Ártemis no mesmo minuto.
– Só que não pode fazer isso. Não sabe onde ela está.
– E pra mim isso só serviu de alerta. Um alerta de que não é uma boa idéia e de que isso não é pra mim.
Ele finalmente pareceu confiar em mim e o silêncio voltou a se instalar.
– Além do mais – retomei a explicação -, Nico não entenderia a minha decisão.
– Ele ficaria bem. O acampamento meio-sangue cuida de várias crianças menores. Cuidaram de Annabeth.
– Espero que a encontremos. Annabeth, quero dizer. Ela tem sorte de ter um amigo como você. Ou será que não são só amigos...?
– É um assunto complicado.
– Mas gosta dela, não é? – ele me lançou um olhar meio triste, então acrescentei: — Não precisamos falar disso, se não quiser...
Pra falar a verdade, de uma forma ou de outra aquilo tinha me machucado. Eu vi em seus olhos que a resposta seria sim.
– Muito bem fez a ela esse amigo como eu.
– Não se culpe, Percy. Você arriscou sua vida para salvar ao meu irmão e a mim. Quero dizer, isso foi seriamente corajoso. Se eu não tivesse te conhecido, eu não me sentiria bem em deixar Nico no Acampamento. Eu acho que se há pessoas como você lá, Nico ficará bem. Você é um cara legal.
– Mesmo tendo te derrubado no Capture à Bandeira? – ele disse sorrindo.
– Tá. Tirando isso, você é um cara legal – respondi também rindo.
Depois de um tempo, Percy perguntou:
– Então, qual é a história de você e o Nico? Onde vocês estudavam antes de Westover?
– Eu acho que foi em um internato em D.C. – disse, franzindo as sobrancelhas e tentando me lembrar. – Parece que foi há muito tempo.
– Vocês nunca moraram com os seus pais? Quero dizer, os mortais?
– Disseram-nos que nossos pais estavam mortos. Havia um fundo pra nós. Muito dinheiro, eu acho. Um advogado viria de vez em quando nos ver. Aí Nico e eu tivemos que deixar a escola.
– Por quê?
Novamente, tentei me lembrar.
– Tínhamos que ir a algum lugar. Eu me lembro que era importante. Viajamos um longo caminho. Ficamos nesse hotel por algumas semanas. E depois... Não sei. Certo dia um advogado diferente veio nos buscar. Disse que era hora de partirmos. Ele nos levou de volta para o leste, por D.C. Depois a Maine. E começamos a frequentar Westover.
– Então você tem cuidado de Nico praticamente a vida toda? Só vocês dois?
– É por isso que eu cogitei a idéia de me aderir às Caçadoras, afinal. Digo, eu sei que é egoísta, mas eu queria minha própria vida e amigos. Eu amo Nico — não me entenda mal — eu só precisava descobrir como seria não ser a irmã mais velha vinte e quatro horas por dia.
– Zoe parecia confiar em você. Sobre o que vocês estavam conversando afinal? Alguma coisa perigosa sobre a missão...
– Quando?
– Ontem de manhã. No pavilhão.
– Como você... – comecei a perguntar, mas me interrompi quando lembrei que Annabeth tinha um boné que a deixava invisível e que quando ela despencara do penhasco Percy ficou com o boné. Ele estava usando-o no momento em que em conversava com a Zoe no pavilhão, é a única explicação... Que direito ele tem de nos espionar? – Você estava bisbilhotando?
– Tecnicamente, não. Eu só...
Antes que ele pudesse se explicar, Zoe e Grover chegaram com as bebidas e alguns pastéis. Chocolate quem pra mim e para Percy e o resto preferiu café. Eu amo café, mas nunca me deixaram beber porque eu fico “muito agitada”. Percy evitou olhar novamente para mim, mas vi que ele reparou no meu olhar mortal pelo canto do olho.
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