14 de outubro, terça-feira.

Querido diário.

Hoje é meu aniversário, basicamente já foi o meu aniversário. Já que o relógio acusa que passam da meia-noite, porem foi uma noite alegre e ao mesmo tempo cansativa para mim. Tia Judith e Robb me compraram um delicioso bolo de chocolate, coberto com glacê e raspas de nozes. Reunimos-nos todos na sala e cantamos os parabéns, eu apaguei as velas e fiz um pedido em silêncio – nesse momento eu pensava em Elena, já fazia dois dias que ela não vinha me visitar na calada da noite. Muita das vezes ela me aparecia divina, como um anjo com aquelas imensas asas – Elena me dizia que aquelas eram as Asas da Proteção, que todas as noites elas estariam abertas por sobre mim, para que nenhum Poder maligno viesse me atormentar durante a noite. De inicio eu nunca entendi que Poder poderia ser esse, mas de uns tempos desses para cá, Elena tem compartilhado segredos comigo que por muita das vezes poderiam parecer uma grande mentira. E como agora eu já sou uma garota crescida, completei meus 17 anos na noite passada, decidi que já estava na hora de expressar todos os meus sentimentos e meus pensamentos em algum lugar que eu poderia confiar.

Mas, vejo que esses primeiros segredos de Elena terão que esperar, pois estou com sono. Tia Judith acabou de se recolher, mas antes deu uma passada em meu quarto. Pedindo para que eu apagasse a luz e fosse me deitar, amanhã seria um dia longo. Robb disse que iríamos para um lugar, não sei muito bem o que pode ser – ele muita das vezes preferi manter tudo em segredo para poder nos impressionar, o casamento de ambos tem melhorado muito ultimamente. Toda aquela tristeza de que Elena estava morta, assim como os meus pais, parecia ter chegado ao fim. Porem, eu era a única que sabia que minha irmã ainda estava viva, não sei como ela fez isso, mas que ela sempre esteve perto de mim. Isso terá de esperar também, estou bocejando e meus olhos estão marejados e pesados...

Ainda 14 de outubro, agora mais ou menos 3 da manhã.

Acordei desesperada e suando frio, estava tão cansada que nem completei o que terminaria de escrever horas mais cedo. Eu apenas deixei você de lado e apaguei. Pensei que não iria sonhar com nada, mas estava enganada, assim que fui entregue ao sono a minha mente começou a voar para longe – primeiro vieram os círculos brilhosos, pequenos fragmentos de luzes que cintilavam contra uma clareira escura e fria e depois, vieram às sombras. Eu não poderia discernir quem estava ali, muito menos descobrir pelas vozes – era uma mistura de rugido e grunhido animalescos, porem era humano. Descobri que eu não estava sozinha nesse sonho, Elena esta ao meu lado com suas asas abertas –, quando ia dizer algo, ela apenas me pediu para ficar em silêncio e observar o que estava acontecendo.

Logo reconheci. Eu me encontrava no bosque, sentada por sobre um pinheiro-cipestre observando a tudo o que se passava, as sombras andavam de um lado para o outro e no meio deles encontrava-se uma garota presa, acorrentada. Ela tinha as aparências de Bonnie, isso era impossível não poderia ser a amiga de minha irmã. Rapidamente as sombras avançaram e prenderam ainda mais as mãos da garota fazendo-a gritar de dor, escondi meu rosto aos ombros de Elena, mas seus dedos finos e delicados tocaram em meu rosto.

“Continue vendo” – sussurrou ela.

Por um momento eu hesitei esse sonho não poderia ser totalmente real, mas os gritos, os pedidos de clemência, os choros eram nitidamente ouvidos de longe. Seja lá quem fosse, se fosse realmente Bonnie, ela precisaria de ajuda o mais rápido possível – mas Elena ficou parada ao meu lado, obervando com aqueles olhos frios, sem demonstrar algum sentimento de ajuda ou compaixão.

Foi quando tudo ficou pior, a beleza angelical de minha irmã obscureceu e suas asas desintegraram-se, tudo de inocente em Elena começou a ser corrompido quando uma das sombras nos avistou e flutuou em nossa direção.

“Ora! Ora! Você nos trouxe a garota...” – disse a sombra para minha irmã.

Eu já estava apavorada, queria sair dali, mais os dedos finos e frios de Elena me seguravam fortemente. Foi quando tudo começou a ficar embaçado e eu despertei em minha cama. É estranho poder escrever tudo isso, eu estou com os olhos marejados de tanto chorar de medo. Elena não veio me ver esta noite, muito pelo contrário, eu acabei tendo um pesadelo totalmente estranho. – E tinha a certeza de que algo não estaria bem. Já fazia anos que Fell’s Church encontrava-se longe de perigo, Elena havia me contado tudo o que tinha enfrentado no tempo em que eu era pequena. Que provavelmente essa cidade seria entregue nas mãos do mal novamente mais cedo ou mais tarde, me disse também que muitas coisas ruins haviam acontecido aqui em tempos passados, que era por isso que essas coisas ruins eram atraídas para cá. Como em qualquer lugar “amaldiçoado”.

Só basta esperar para o que acontecerá.

Mas esta noite não, por que tenho que voltar a dormir, desta vez eu me despedirei direito, sem deixar nenhuma frase inacabada. Espero que quando eu estiver contando mais coisas sobrenaturais, ninguém possa vir ler. Se isso cair em mãos erradas, eu provavelmente serei chamada de louca e isso não é realmente bom. Sei que irei demorar um pouco a dormir, ficarei rolando em minha cama – pensando nesse pesadelo estranho e tentando encontrar algum significado para ele. O que eu poderia estar sentindo agora? Medo? Não é algo comum para uma garota de dezessete anos sentir agora e nem depois. Desta vez tentarei dormir, não irei pensar e nem sonhar com mais nada – apenas deitarei em minha cama e dormirei.

Margaret.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.