Notas iniciais
Espero que gostem! :D

Sem dúvidas, meu dia não podia ficar pior. Minhas trágicas e humilhantes apresentações no colégio começaram cedo, com a apresentação de um trabalho de História. Qual era o tema? Não me pergunte. Pois nem isso eu sei! A única coisa que eu me lembro desta apresentação é que, no meio dela, a "pressão" causada pelos meus colegas de classe já estava me irritando. O fato é que eu o-d-e-i-o ser o centro das atenções. Odeio falar em público. Principalmente quando estou sozinho, no meio de uma grande sala de aula numa escola para alunos "especiais". E é sempre nessa hora que minha dislexia começa a me aborrecer.

Gaguejo. E quando começo a gaguejar, os valentões da Academia Nacional de Estudantes Especiais de Dallas (ANEED) começam a rir de mim. Claro. Como sempre, eles estão rindo de mim. Nos mesmos lugares de sempre. No fundo da sala de aula.

É nessas horas que eu desejaria que minha vida fosse normal. Que eu não tivesse que aturá-los. Que eu não tivesse que aturar minha dislexia nem meu sono excessivo. Que eu não tivesse... Que eu não tivesse minhas habilidades incríveis para memorizar qualquer coisa. Eu sou "especial". Sou especial até demais!

Após uma ou outra advertência da Srª. Kunz, minha professora de História, os valentões se calaram. Todos eram filhinhos de papai, que se gabavam do dinheiro de seus pais e que tinham todas as suas vontades feitas num piscar de olhos. Os odeio.

Após minha pequena apresentação do trabalho de História, veio o intervalo, a hora do almoço. A maldita hora do almoço.

Como sempre, eu me sento sozinho em uma mesa separada das outras, encostada em uma parede perto da porta da saída de emergência.

Eu quase nunca almoço, de fato. Como uma maçã e petisco alguns docinhos, mas quando menos espero, estou dormindo na mesa onde fico. E quando acordo, vejo que os valentões pregaram peças em mim. É quase sempre a mesma coisa. Bigode falso pintado com canetinhas. Desenhos nos braços e rosto. Puxão de cueca. Mas não. Eu nunca percebo isso quando estou dormindo. E também, só acordo quando o irritante barulho do sinal começa a tocar. E hoje não foi diferente. Mais uma das minhas humilhações aconteceu.

O resto do dia na escola foi tranquilo. Por enquanto, meus sofrimentos e minhas humilhações acabaram. Felizmente, não tive que fazer mais nenhuma apresentação ou coisa do tipo. E por mais normal que pareça, permaneci dormindo pelo restante das outras aulas, sendo acordado somente quando o Sr. Miller vem me acordar, dizendo que a aula já acabou e que eu já podia ir pra casa.

O Sr. Miller é, sem um pingo de dúvida, o professor mais legal e querido da ANEED, sendo o professor de geometria e substituto da Sr.ª Kunz.

── Creio que você não possa mais dormir em paz... Pelo menos, não aqui na escola! ── diz ele, dando um leve sorriso de canto de boca.

── Me desculpe, Sr. Miller. Sério... é que eu não consigo ficar muito tempo acordado! Esse é um dos meus problemas... ── começo a dizer, mas logo sou interrompido pelo Sr. Miller.

── Problemas? Com certeza, seu sono te salvará algum dia. E tudo aquilo que você considera um problema para você também irá te salvar... ── Nesse momento, o Sr. Miller é cortado por uma súbita lembrança que o faz olhar para baixo e parar para pensar por alguns segundos. ── Bem, creio que eu e você nos veremos bastante neste verão! Ha-ha-ha. Sua mãe já lhe... contou... sobre o Acampamento?

── Hã? Acampamento? Não... Como sempre, sou o último a saber das coisas. ── Bocejo.

── Logo, logo você saberá exatamente o porquê do suspense que sua mãe e eu fazemos quando o assunto é seu futuro, você e seu... ── pai, era isso que ele iria falar. Segundo minha mãe, meu pai era um cara alto e loiro, com olhos de um tom negro tão intenso que fazia qualquer um se perder nas profundesas daqueles olhos. Ela dizia ser exatamente como os meus olhos. Ela dizia que ele era exatamente como eu. Alto, corpo levemente magro, olhos escuros intensos, loiro, pele pálida. Mas claro. Ele é um adulto. Bem maior e mais desenvolvido que eu. Porém... É isso que eu acho que ele era. Minha mãe me contou que meu pai era um jovem artista plástico, que pintava quadros e esculpia estátuas realistas. Uma vez, esculpindo uma estátua de Palas Atena — uma réplica da que se encontrava no Partenon -, meu pai cometeu um erro fatal e a estátua caiu em cima dele, esmagando-o. Além dessas informações, não sei mais nada sobre meu pai. Nem sei nome, já que minha mãe se recusa à dizer.

Após alguns segundos de silêncio, o Sr. Miller se retira da sala. É a minha hora de ir, também. Arrumo minhas coisas e pego minha mochila e vou embora da ANEED.

A ANEED é um internato, porém eu tenho permissão para sair toda a sexta-feira do colégio e ir para a casa de minha mãe, e depois voltar no domingo à noite. Os finais de semana são os melhores dias para mim. Os únicos dias em que eu posso realmente ser quem eu sou. Dormir onde eu quiser. E acima de tudo, estar perto de minha mãe e de Somnia, meu gato preto de estimação.

Após pegar um táxi, chego no edifício onde o apartamento de minha mãe é localizado. É até um pouquinho grande, mas em comparação aos meus 'colegas' de turma, nós somos mendigos pedindo esmola.

Abro a porta cuidadosamente, evitando fazer barulho. Como sempre, minha mãe deve estar com dor-de-cabeça. Após estar completamente no apartamento e fechar a porta silenciosamente, jogo minhas coisas no sofá e vou correndo até o quarto de minha mãe.

Não. Não era para eu ter feito isso. Não era para eu ter saído do colégio! Não hoje! Não nesta noite! Eu deveria impedi-la, mas não consigo. Parece que algo está me impedindo de adentrar ao quarto, me forçando a observar as últimas ações de minha mãe e ouvir uma última vez a sua voz.

── Dan... Querido Dan... Agora eu posso ficar um pouco mais perto de seu pai! Perdoe-me... ── grita ela, com um brilho doentio nos olhos.

Tentei gritar, mas minha voz não saía. Tentei correr para longe, mas minhas pernas travaram. Tudo estava me forçando a olhar para Alice Zimmerman, a maluca que estava dentro do quarto, tomando o lugar de minha mãe.

Minha mãe então deixou um coquetel molotov cair bem debaixo de seus pés, estourando e explodindo em uma circunferência de 50m de diâmetro. E claro, a explosão me levou também. Mas não, eu não morri. Eu estava vivo, e disso tenho certeza. A última coisa que me lembro é de olhar para o meu apartamento, agora em chamas, e soltar uma única lágrima por minha perda recente.

continua no próximo capítulo ;D

Notas finais
Bem, espero que gostem!! :D
Críticas, sugestões ou congratulações? Por favor, deixem review *--*' QN