Diário dos pesadelos
1 DIA 1 - Um amigavel passeio de van
Notas iniciais
—Acorde
Uma voz sussurrava em minha cabeça. Uma não, várias. Vozes e mais vozes sussurrando a mesma coisa:
Acorde.
Então elas silenciaram e uma única voz começou a rir, uma risada loucamente histérica que penetrava fundo em meus ouvidos. Com certeza o pior som que eu já ouvira em toda a minha vida.
—Ela precisa de você Nathan. Você sabe muito bem de quem eu estou falando.
A voz silenciou e lentamente voltou a rir.
—Mas... Você sabe que não tem a menor chance aqui...
E eu acordei.
Eu estava em uma van junto com mais quatro homens, todos vestiam máscaras que eu não conseguia identificar. Era como se as máscaras mudassem a cada instante, cada milésimo de segundo um rosto diferente. Eu apenas fiquei parado, quieto, perplexo.
Eu não sabia onde eu estava, porque estava ali, minha idade, quem eu era... Nada. A única coisa que eu me lembrava, estranhamente, era um caminhão. Um gigantesco caminhão vermelho que buzinava enquanto uma luz se aproximava de meus olhos.
Então a van freou. Os homens se levantaram e um deles, o mais alto, disse:
—Vamos lá, ainda faltam mais algumas.
Eu sem entender nada perguntei:
—Mais umas o quê?
—Ah, você acordou. Então quer dizer que você não lembra.
Um dos homens, o mais baixo deles, segurando o riso disse de maneira relaxada como se estivesse me zoando:
—O mestre deve ter pegado pesado dessa vez. Ele odeia rebeldes, e você não faz o tipo dele.
—M-mestre? O que ele fez comigo, quem é ele?
Eu dizia tremulo e com medo.
—Se você não lembra é melhor manter a mente limpa – dizia o mais alto deles – Se acha que estamos fazendo isso por queremos, está muito, muito enganado.
—Isso o quê?
Meu senso de curiosidade começou a tinir.
—Só fica aí dentro e cala a boca.
E eles saíram.
Por uma meia hora fiquei parado, olhando o nada e tentando me lembrar de alguma coisa. Até que eles voltaram.
O mais alto deles, carregava nos ombros um corpo, sua cabeça estava coberta por um saco de pano velho amarrado por uma corda desfiada. A mesma corda prendia em seus tornozelos e pulsos.
Eu fiquei apenas observando, sem dizer uma palavra. Em minha perplexidade, não percebi que os outros tinham saído novamente, me deixando sozinho com a "carga" que eles jogaram na van como se fosse um grande saco de batatas. Eu estava nervoso e perplexo, nunca havia visto um corpo morto tão nitidamente em minha vida. Havia um furo de queimado em sua camisa, a mesma toda empapada de sangue, que aparentava ainda estar quente. Eu me aproximei do corpo e ouvi um gemido, um resmungo agudo demais para ser de um homem.
Prestei mais atenção e vi que não se tratava de um homem mais sim de uma garota. As roupas largas e folgadas não revelavam muito sobre o seu corpo mas ao prestar atenção se via claramente que se tratava de uma jovem garota. Pelo que conseguia notar no corpo, calculei algo próximo de 17 anos, talvez um pouco mais nova que eu, que tinha 19. Minha idade foi uma das únicas coisas que consegui lembrar durante minha reflexão.
Comecei a levar minha mão lentamente ao saco na cabeça da garota. Os homens já haviam saído, não teria problema só dar uma espiada no rosto dela por alguns instantes.
Quando eu estava prestes a retirar o saco uma voz sussurrou:
—Não faça isso...
Eu me virei e quase cai fora da van com as portas abertas com o pulo que dei tentando recuar.
Uma figura humana, sentada no chão da van. Ele usava um moletom cinza, quase preto, com um capuz que tampava todo o seu rosto.
Eu sentei novamente e fiquei encarando a pessoa que estava ali. Ele não falava nada, mão mexia um músculo, parecia não estar respirando. Estava praticamente morto. Ele só reclamava quando eu tentava fazer algo relacionado à garota. Sua maneira de agir me lembrava um robô, algo mecânico, artificial, meticulosamente programado. Mas aquilo não podia ser um robô. Com certeza não parecia algo humano, mas parecia muito orgânico para ser qualquer tipo de coisa que surgiu da mente humana.
Após alguns minutos de silêncio na van com uma garota baleada e o encapuzado que não gostava de falar eu decidi fazer algo. Ela não estava bem, mesmo. Imagino que os homens imaginaram que ela estaria desacordada, mas pelo jeito ela só decidiu ficar quieta mesmo. Talvez por uma questão de segurança, ou talvez ela estivesse tão confusa quanto eu.
Lentamente eu levantei e fui até a garota.
—Não faça isso...
Ele resmungou.
Levei minha mão até o saco que cobria sua cabeça.
—Não.
Nesse ponto eu simplesmente estava ignorando ele. E nessa ignorância eu arranquei o que cobria o rosto da garota.
—NÃO!!!
Antes que eu pudesse ter sequer um breve vislumbre do rosto que o saco escondia o homem gritou enquanto se levantava.
—Nós não precisamos dela Nathan, acorde.
—N-Nós?
Eu perguntei. Eu estava soando frio e meu coração batia tão forte que tinha quase certeza que era audível para o homem.
—Sim Nathan, Preste atenção, olhe direito...
Observando com cuidado a face do homem, eu vi algo surpreendente e perturbador ao mesmo tempo.
Eu.
O homem com quem eu conversava, não era nada mais nada menos que eu mesmo.
Eu olhei para sua, ou minha, pele, ela começava a acinzentar e lentamente descascava, dando lugar a uma pele completamente negra, que exalava uma fumaça espessa pelas frestas que ficavam por entre a pele. Seus olhos começaram a ficar tão negros quanto a pele, como se os olhos fossem um copo da mais cristalina água, e alguém lentamente derramasse tinta sobre eles.
—Vamos Nathan, ajudar essa aí não vai dar em nada. — Disse ele indicando a garota com a cabeça — A vida real não é tão boazinha quanto você está tentando ser... Eu sei que tudo é confuso, eu sei que você não tá entendendo nada, mas você deveria ouvir o que tenho a dizer.
—Q-quem... Quem é você?
Completamente apavorado eu perguntei, com a voz tão tremura e baixa que eu mesmo duvidei se ele realmente tinha entendido uma palavra do que eu havia dito:
—Quem sou eu? Você sabe muito bem a resposta...
Ele ficou me encarando, como se esperasse que eu dissesse algo. Algo que durou cerca de dois minutos, os dois minutos mais longos da minha vida. Até que ele levantou as sobrancelhas em um movimento sútil, provavelmente percebeu algo que não havia notado até o momento. Um sorriso surgiu no canto de sua boca e, lentamente e em uma velocidade perturbadoramente constante se tornou um sorriso estridente.
Um leve riso escapou.
—Então não sabe que sou eu?
O leve riso escalou até se tornar uma risada histérica que alcançava o fundo de minhas orelhas e apertava meu coração como os dedos gelados da morte.
—EU SOU A DOLOROSA VERDADE QUE VOCÊ NÃO QUER ACREDITAR!!
Gritava ele enquanto seu corpo se dissipava em uma fumaça negra e seu riso ecoava no local. Mesmo depois de desaparecer sua voz disse pelo ar.
—Pode brincar de herói agora, sua dama em apuros lhe espera.
Eu, trêmulo e incrédulo, olhei para a garota e minha mente sentiu uma agulhada, como se alguém pegasse um martelo e pregasse uma estaca gélida de metal em meu cérebro.
Eu não sabia quem ela era ou o que um dia ela havia sido para mim, mas eu sabia que ela não era qualquer uma, e não podia deixa-la ali. Ela choramingava e tremia, seus olhos clamavam por ajuda mas não exalavam o minimo brilho. Algo muito errado estava acontecendo. Peguei-a em meu colo e corri. Sim, logo após falar com o meu clone maligno eu simplesmente levantei e decidi salvar a razão das minhas dores de cabeça. Alguns chamariam de loucura, e eu também acho que foi. Talvez um surto de adrenalina ou algo do tipo.
Assim que pus os pés no lado de fora da van, os quatro homens voltavam. Claro que minhas ações conseguiram causar um tanto de estranhamento da parte deles, mas de alguma forma eles agiam como se fosse um acontecimento corriqueiro, eles não pareciam de fato surpresos.
—Calma ai, amigo, deixa ela no chão e tudo vai ficar bem.
Disse o maior deles que aparentava ser o líder.
Em um impulso de coragem, burrice e teimosia eu gritei:
—Me obrigue!
E Disparei em meio ao nada.
Ao virar para trás, eu vi os homens puxando pistolas e submetralhadoras e atirando em minha direção. As balas passavam zunindo por meus ouvidos, tão próximas que o ar gelado das balas cortavam minha pele. Em um frenesi eu consegui correr por uns 10 segundos de puro desespero, mas minha sorte não durou muito contra uma saraivada de tiros. Minha panturrilha sangrava por um largo buraco que havia sido feito pela única bala certeira que conseguiu me acertar. Antes que a dor atingisse meus sentidos eu corri maus rápido do que jamais corri na vida e consegui entrar em um beco. Estávamos seguros por enquanto. Assim que alcançamos o beco minha perna sentiu o peso da imprudência e eu caí ao chão úmido e gelado. Tremulo e sentindo a bala na perna eu levantei, retirei as amarras da garota e a ajudei a levantar. Ela conseguiu se manter calada o tempo todo. Eu a segurei nos braços e disse:
—Sinceramente, eu não sei quem você é, ou que você já foi pra mim, mas você não pode morrer aqui.
Eu estava tomado por um sentimento estranhamente familiar enquanto via seus olhos marejados de lágrimas. Com a mão direita, tirei os cabelos que caiam sobre seu rosto delicado, meus dedos tocaram o canto de sua face e minha mente começou a se debater, tentando mais uma vez lembrar por que aquele rosto me acalmava tanto. Eu me sentia seguro com ela, e ela parecia sentir o mesmo. Aproximei meu rosto do dela, até que nossas testas se encontraram e nossos olhares se entrelaçaram. Algo me dizia que este seria meu ultimo momento de calma e conforto, e o rosto dela me dizia que ela também sabia disso. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela avançou e logo nossos lábios se encontraram. Por um momento eu tive a impressão de que tudo havia congelado só para aquele momento, por mais curto que tenha sido de fato, parecia durar uma eternidade. E foi durante essa eternidade que meus olhos se encheram de lágrimas ao lembrar dela.
—Por favor, Fuja... Por favor, corra o mais rápido possível e não olhe pra trás. Eu vou dar um jeito nas coisas e vou atrás de você assim que puder...
—Você está mentindo... Você sempre mentiu muito mal, e você sabe que amo isso...
Suas palavram doeram como uma espada perfurando o centro do meu peito.
—Por favor... Eu prometo que vou te encontrar de novo algum dia...
Ela não questionou, mesmo chorando e relutante, de seus lábios nem mesmo um murmúrio de hesitação. Ela sabia que aquilo era um adeus.
—Nathan...
—Por favor Sophie...
O som dos homens à nossa busca se tornaram tão nítidos que estava obvio que em menos de um minuto eles estariam ali.
Com os olhos cheios de lagrimas, deixei a linda garota de olhos verdes e cabelos tão castanhos que contrastavam com todo o ambiente cinzento à nossa volta. Ela corria e desaparecia em meio aos prédios da deserta cidade onde nos encontrávamos. Fiquei um pouco mais aliviado ao ver que ela decidiu cumprir meu pedido e não se virou para trás em nem mesmo um momento. Virei aos homens, fechei meus olhos e abri meus braços. Assim eu apenas aceitei o meu destino.
Logo que os homens notaram minha presença a revoada de balas que me perseguiu a menos de 5 minutos decidiu dar as caras novamente e me acertou em diversas partes do corpo. Eu cai de costas ao gélido chão de asfalto.
Lentamente senti o sangue quente e fresco que subia pela minha garganta. Eu sabia que aquele era o meu fim... Mas... Eu estava feliz. Eu nunca teria me perdoado se tivesse morrido antes de lembrar o nome dela. Com um sorriso no rosto eu senti o frio cano da arma recostando em minha testa.
—Você não deveria ter feito isso. Você parecia um cara legal... desculpa cara.
Eu nem me preocupei em saber quem era que estava falando ou sequer ouvi o som do tiro, apenas olhei para o céu estrelado acima de mim. E o cenário foi lentamente perdendo a cor até a escuridão tomar conta dos meus olhos.
Foi assim que eu dei adeus ao mundo...
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