Diário de uma paranormal
13 Me traga de volta ao começo - Parte I
Notas iniciais
Minhas mãos ainda estavam fechadas aonde Harry deveria estar antes de virar fumaça. Becky tocou no meu ombro e disse:
-Katherine, vamos entrar. Estamos muito expostas aqui na rua.
Becky repetiu o que disse para mim a Amber. Ela estava ajoelhada ao corpo de Liester o olhando fixamente, como se esperasse o garoto abrir os olhos. A cena era de partir o coração.
-Acho que deveríamos os levar para dentro. –Amber disse subitamente.
Todas concordamos. Iriamos leva-los um de cada vez. Descobri como pessoas mortas eram pesadas.
Mal consegui olhar para Maria quando a colocamos em cima do sofá de sua casa. Ela tinha o pescoço torcido em uma posição grotesca ,seus braços e pernas flácidos caiam da beirada do sofá em cada estante e seus olhos estavam virados como alguma criatura maligna. Fechei seus olhos, agora ela estava dormindo.
Depois dela carregamos Liester para dentro da casa. Felizmente ele não tinha o tamanho de Harry senão teríamos que arrasta-lo. Liester diferente de Maria parecia estar em um sono profundo, profundo até demais. Ele não se mexia nem um pouco, observei mentalmente. Mas logo tive que me lembrar de que ele estava morto assim como os meus pais e a tia de Harry.
-Já é bem tarde, nós devíamos descansar as horas que faltam para amanhecer. –Amber disse sem vida em sua voz. Ops, má escolha de palavras.
Com tudo isso acontecendo eu não queria nenhum pouco dormir sozinha, mas era orgulhosa demais para admitir. Talvez até sugerisse algo, mas elas subiram para os quartos que estavam vazios rápido demais.
A casa tinha quatro quartos. Becky e Amber escolheram os de hospedes. Façam as contas quantos sobraram? Isso mesmo dois. O de Maria e o de Harry. O quarto de Harry parecia ter sombras demais por causa das coisas bagunçadas, o que me fazia ficar imaginando algo que pudesse segurar o meu pé. Provavelmente eu não conseguiria dormir. Agora o de Maria por outro lado, era bem pior. Ela tinha acabado de morrer, quer argumento mais assustador?
Subi as escadas com as unhas cravadas na minha mochila quase vazia e entrei no primeiro quarto. Sai correndo para a cama. Correndo literalmente. Forcei os meus olhos a ficarem fechados e quando menos percebi caí no sono.
Claramente isso era uma visão, para começar eu estava flutuando e não conseguia interagir com ninguém.
Mostrava um apartamento pequeno e imundo. A única iluminação que havia no lugar era luz que vinha da janela. Sabia que esse lugar deveria ser útil em algum momento então tentei absorver ao máximo os detalhes do espaço. As paredes acinzentadas e cheias de mofo, os poucos móveis, rastros de sangue pelo piso de madeira e algo mais. Havia algo na sombra que se mexia. Tentei focar no que deveria ser. E quando a imagem clareou eu soltei um som de espanto, porém ele nem me ouviu.
Era Josh.
O meu primo estava encolhido no canto da parede como se sentisse muito frio. Seu rosto estava alternado entre vermelho e roxo, suava muito e seus pulsos estavam amarrados com algo. Ficava difícil dizer com o sangue dele cobrindo o objeto.
A porta abriu e nós dois nos encolhemos com o susto. Não havia ninguém. Voltei a minha atenção a Josh, imaginando de quando deveria ser essa visão. Talvez se eu tentasse calcular o tempo de acordo com a cicatrização das suas feridas. Percebi que formava uma imagem de alguém aos poucos como o do gato risonho de Alice no País Das Maravilhas ao lado de Josh. Antes de terminar de aparecer totalmente eu reconheci quem era. Harry se inclinava tentando acordar o amigo que quase ficava inconsciente. Josh quando ouviu a voz dele, pareceu receber uma injeção de cafeína.
-Harry? Harry? É você? – ele disse com os olhos arregalados sem poder acreditar e deu umas tapinhas na cara de Harry para saber se não era um sonho.
O loiro trabalhava rapidamente desfazendo as amarras. Mesmo recebendo uns tapas na cara, sorriu satisfeito.
-Pensei que nunca mais o veria. Estou tão feliz. –então pensou bem na ultima frase. –cara, aconteceu tanta coisa que você não iria acreditar.
Distraídos, os dois não perceberam os passos que vinham do corredor. Tentei avisa-los mas não pareciam ter escutado.
A partir dessa fase da visão tudo ficou acelerado e com nenhum som.
Uns caras apareceram no quarto e gritaram algo para Harry. Os maiores o seguraram pelo braço. Com um golpe ele os derrubou e socou os outros dois depois por reflexo correu porta a fora. O garoto se lembrou de que Josh não tinha condições de acompanhá-lo. E voltou até a porta do apartamento dando de cara com aqueles homens que tentaram o segurar. Virou para o corredor e viu vários homens impedindo sua passagem. Eles não pareciam nenhum pouco amigáveis.
Harry estava com problemas.
Caí da cama com as minhas tentativas de tentar salvar alguém que estava num sonho. Levantei-me do chão esfregando a cabeça e comecei a lembrar da noite passada, mais especificamente de quando estávamos conversando com a minha mãe. Meu subconsciente tentava desesperadamente me avisar que havia algo de importante nessa lembrança. Bem que ela podia me dar uma ajudinha porque eu sou um pouco lerda.
Ouvindo o meu pedido ela mostrou através das minhas pálpebras a tabua ouija escrevendo A FACA DE ROMA.
Bem, isso é de muita ajuda. Quem teria A faca? O único romano que conheço é...
Bati ruidosamente nas portas onde Becky e Amber ainda dormiam e corri escada abaixo deixando um rastro de irritação.
-Vocês precisam me ajudar!– falei enquanto cruzava a sala.
No centro do cômodo estavam Maria e Liester. Eu me ajoelhei e vasculhei os bolsos de Liester.
-O.Que.Você.Está.Fazendo? – uma voz raivosa disse atrás de mim. Pulei com o susto mesmo sabendo que era Amber.
-Liester tem a faca de Roma – falei mesmo sem certeza de que isso era verdade – Me ajudem a procurar.
Os bolsos do casaco estavam vazios, os de fora e de dentro. Os do jeans que ele usava também.
-Ele não trouxe nenhuma mochila ou algo do tipo quando veio para cá? –Becky perguntou.
-Não – Deixei Amber responder
-Um minuto – Becky disse pensando em algo. Espero que seja útil.
Ela olhou para a janela. Através do vidro vi alguém onde estávamos na noite passada se inclinando para pegar um objeto que reluzia em suas mãos. Becky correu porta a fora, Amber e eu a seguimos.
Era uma mulher que estava no outro lado da rua e ela segurava A faca. Amber tocou no braço da mulher e ela se virou para olha-la.
-Você vai me entregar essa faca. – Amber disse com a voz hipnótica. Consegui sentir o poder irradiando do seu corpo, provavelmente qualquer pessoa que estivesse perto de alguma faca no raio de 5 metros entregaria a ela.
Porém a mulher estava muito determinada.
Becky chegou perto dela e moveu as mãos fazendo aquela desconhecida voar batendo em um poste. A faca fugiu de sua mão.
-Porque você fez isso ? – perguntei.
-Ela não é humana – Amber disse. Em resposta a mulher tornou seus olhos completamente brancos e se pôs de pé em um salto. Nós esperávamos que ela ficaria pelo menos alguns instantes caída mas a mulher já estava na metade do caminho da faca.
Becky foi a primeira a notar e saiu correndo, esquecendo-se que podia usar o seu poder para atrasa-la. Amber e eu a seguimos deixando as outras duas com um bom tempo de dianteira. Os poderes de Becky às vezes funcionavam sem que ela pedisse tipo agora.
Sua mão se moveu como um tique que não podia ser evitado e a não-humana dessa vez não voou para longe mas só saiu do seu caminho. E vitoriosa Becky apontou A faca para ela, esperando que evaporasse ou algo do tipo.
A mulher levantou as mãos em sinal de rendição e disse sorrindo de um jeito cínico.
-Tá rindo do que, idiota? – falei com uma estranha vontade de socar a cara dela.
-Nada, nada. – ela deu uma pausa. – Tenho uma entrega para vocês. Posso pegar? Está no meu bolso.
Amber, Becky e eu nos entreolhamos nervosas. Empunhamos nossas facas.
-Agora você pode pegar. –Becky disse.
Ela lentamente puxou um envelope de dentro de seu casaco e jogou para uma de nós já que estávamos juntas. O envelope escorregou pelo os meus dedos quando tive a oportunidade de pega-lo. Mas eu não olhei para baixo esperando o papel chegar ao chão,só continuei a encarando. A forma dela se tornou tremula e desapareceu.
Abaixei-me pegando o envelope.
-O que tem aí? –As duas perguntaram curiosas, enquanto guardavam suas facas. Elas ainda usavam pijamas, notei, da onde vinha a faca de Amber?
-É um convite – disse e mostrei a elas o cartão ricamente enfeitado com letras bonitas nos chamando para uma festa.
-Festa, de que? Quem nos chamaria para uma festa? –Amber perguntou racionalmente. Uma vozinha na minha mente completou a frase: Quem nos chamaria para uma festa... se todos que conhecemos então mortos?
Li o convite por inteiro e expliquei meio enjoada com a ideia, que festa era essa.
-Bygron vai dar uma festa formal hoje a noite de dia das bruxas. E ele quer que a gente vá.
-Porque ele acha que nós iriamos? –Amber perguntou o desdenhando.
Eu não queria explicar o que ele havia proposto, então mostrei o verso do convite. Havia escrito com algo parecido com sangue seco, mas podia ser tinta também.
-Uma troca. Liester por Josh. –Amber leu. Não quis nem ver sua reação.
***
31 de outubro.
Não consigo acreditar como o tempo passou, já é dia das bruxas! Não que isso seja bom. Na verdade é péssimo, hoje o véu da vida e da morte fica mais fino. Provavelmente varias criaturas que já morreram vão voltar. Só sinto pelos meus pais que não vão voltar por seus corpos terem virado cinza. E também por Maria, já que ela está longe daqui. É uma pena, Harry podia se despedir dela. Agora me pergunto sobre Liester. Ele vai voltar? Seu corpo está no porta malas do carro que viemos.
Falando (falando não, escrevendo) sobre Liester. Becky e eu tentamos deixar a cabeça de Amber ocupada e demos para ela varias tarefas como conseguir um quarto em algum hotel que seja próximo, mas não tão próximo do lugar da festa, conseguir roupas adequadas para a festa, isso realmente atrapalha os meus planos. Como vamos guardar adagas em um vestido longo de gala? Ainda estou trabalhando nisso.
Os vestidos acabaram de chegar. Ah, e Amber também.
Becky ajudou a amiga com os vestidos e eu fechei o caderno de couro que uso como diário. Andei até Amber, fingindo olhar os vestidos, querendo saber como ela se sentia.
-Conseguiram pensar em algum plano? –perguntei. –Nós ainda temos que resgatar Harry.
Elas balançaram as cabeças negativamente.
-Katherine, já conseguiu descobrir onde Harry está preso?
-Não ,só sei que é perto da praia. Mas aqui é uma cidade litorânea, pode ser em qualquer lugar.
Nossos planos estavam péssimos, em compensação nós estávamos estranhamente animadas para esta festa. Becky e eu estávamos felizes porque Josh iria voltar, se Bygron não estivesse mentindo (o que é bem possível). Amber estava feliz porque ela sabia o que acontecia hoje, talvez ela esperasse que a qualquer momento Liester aparecesse, porém ela não se lembrava de que ele estava trancado no porta-malas.
A festa começava a meia noite (nossa, que original), entretanto já estávamos devidamente vestidas e maquiadas as onze. Tentei faze-las se concentrarem no nosso plano que não existia até agora.
-Já sei! –falei bem alto para que elas acordassem dos seus devaneios.
-O que?
-As facas. Venha cá, vocês duas.
Elas se aproximaram e dei a adaga do cabo turquesa a Amber, já que esse era a o que ela sempre usava.
-E? – Becky impacientemente perguntou.
-Abra uma fenda no vestido e use uma bainha de coxa. Eu sei que Becky tem uma.
Amber protestou dizendo que iria parecer uma... hmm deixa para lá. Becky olhou feio para ela.
-Você tem ideia melhor? –questionei.
-Não, mas...
-Então pronto.
-Tudo bem, eu posso usar, mas sem abrir um buraco no vestido.
Era injusto que Amber ficasse com o vestido mais bonito, só porque foi ela que comprou as roupas. Seu vestido era de um azul turquesa que combinava perfeitamente com a sua adaga, mesmo ela não ficando a mostra, tinha uma cinta rendada com algum tipo de fio brilhante que a fazia parecer uma princesa de filme da Disney.
O vestido de Becky também era fabuloso. Era um tomara-que-caia preto com glitter dourado espalhado parecendo um céu estrelado. Dei a faca que ela sempre usava e a prendeu em uma faixa imperceptível que existia em seu vestido.
Olhei insatisfeita no espelho. Eu vestia um vestido verde cristalino, a roupa era realmente simples comparada das minhas amigas, a única parte meio legal era a anágua que caia em volta do vestido. Toquei no meu pescoço sentindo falta do colar de Miguel, o que era estranho por eu não ter passado muito tempo com o usando. Acabei colocando uma pulseira que Amber havia trazido para que Becky usasse, no entanto ela ficou bem folgada no meu pulso e a usei no braço. E por ultimo usei a adaga vermelha para prender o topo do rabo-de cavalo que fiz no meu cabelo.
***
Meia noite e quinze chegamos à festa. Fomos guiadas por tochas que seguiam por todo o caminho final. Em volta da mansão havia dezenas de carros esporte do ano estacionados. Sinceramente, eu não queria nem pensar como eles arranjaram dinheiro para isso. Amber dirigia o carro por questões de formalidade ou da lei também, já que ela era a única que tinha a maioridade e essa mansão era no final de uma estrada.
Paramos juntas na porta da mansão.
-Porque ainda fazemos isso ? – Becky perguntou se lamentando.
-Vários motivos, não vou listar. — eu disse rapidamente me colocando no meu modo alerta — Ah, não se esqueçam de procurar o meu colar se puderem. Quer dizer, o colar de Miguel.
Elas fizeram alguns “Ah” , se lembrando que o colar existia.
Entramos logo porque o suspense pré-acontecimento estava me matando. O salão principal estava lotado, alguns dançavam e muitos conversavam. Becky soltou um arfar no meu lado.
-O que...- falei me girando para a direção que ela olhava.
Um homem passou ao nosso lado vestido em um smoking, não sei como alguém pode ficar brega em uma roupa dessas, incrivelmente ele conseguia. Mas o pior não era isso e sim algo que me faria ficar assustada algum tempo atrás. O homem tinha duas crateras na garganta, sangue translucido escorria pelo pescoço sem sujar suas roupas e pele.
Olhei em volta nervosa. O que foi isso? Parando um pouco para observar os convidados, comecei a ver a marca de cada um deles. Poucos não haviam feridas fatais que escorriam sangue diáfano. Senti a alteração de Becky quando ela chegou à mesma conclusão que eu. Sorte que Amber era bem lerda para essas deduções. Mas ela não era idiota.
-Meu Deus! – ela soltou cobrindo a boca. Provavelmente deve ter pensado em Liester.
Algumas pessoas que conversavam próximas a nós se incomodaram com o que Amber disse. Nos afastamos lentamente.
-O que faremos agora? Os “Planos-que-sempre-parecem-geniais -e-que-dão-errado-da-katherine” estão esgotados a muito tempo. –falei a Amber que parecia estar desesperançosa, talvez ela só quisesse vir a esta festa para poder se despedir de Liester. Sem querer jugar, mas eles mal se conhecem como podem (ou podiam) estar gostando um do outro assim? Tirando que ele tem uns mil anos, isso é nojento.
Becky me tirou dos meus pensamentos sugerindo que deveríamos procurar Bygron para fazer logo essa troca.
-Ótima ideia, eu quero sair logo daqui – falei.
-Ele deve estar por ali – Amber apontou para uma sala anexa.
Enquanto seguíamos vi alguém.
-Vão sem mim. Acho que vi algo. – disse a elas. Sem esperar a resposta abri espaço entre a multidão. No fundo ouvi protestos delas, mas não vieram atrás de mim.
De costas estava alguém que eu realmente não esperava ver nessa festa. Estava vestido de smoking como os outros convidados, não parecia nenhum pouco abatido. Toquei de leve em seu ombro, com medo que fosse outra pessoa ou uma alucinação.
-Katherine! – ele disse.
Resisti o impulso de abraça-lo, eu fiquei preocupada sem saber se estava bem depois que tudo isso aconteceu. Estava com a cabeça cheia de perguntas, mas só fiz uma.
-O que você está fazendo aqui?
O garoto sorriu e replicou:
-Eu poderia fazer a mesma pergunta a você. Becky e Amber vieram também?
Senti uma pequena insegurança em relação a Harry pelo modo que ele mudou de assunto.
-Sim. Você não sabe do acordo que Bygron nos propôs?
Harry fez cara de desentendido. Abri a boca para explicar, mas ele me interrompeu.
-Aqui não, tem gente demais. Aí você me conta tudo direitinho.
Fui guiada por Harry pelos corredores, parecendo bem habituado com o lugar. Ele puxou a porta e esperou que eu entrasse. Estávamos em uma cozinha vazia. Não havia nada de comida ou panelas só um balcão com uma pia embutida e uma geladeira.
-Caramba, eu só vim para comer. Como é que fica agora?
Harry riu bagunçando o cabelo loiro e disse:
-Acho que posso arranjar um rango para você. Vai me contando o que aconteceu por enquanto.
O acompanhei para uma portinha que destacava no meio de tantos azulejos brancos. Ele entrou na despensa e começou a vasculhar.
-Isso parece um hospital não é? Esse lugar me deixa tonto. – ouvi a voz de Harry no meio da escuridão dizendo.
Encostei-me na parede e comecei a falar.
-Falei que nós encontramos A Faca de Roma?
Harry deixou algo cair, surpreso.
-Serio?
-É. Na verdade, fazia um tempo que já tínhamos e não percebemos. Nós não percebemos que QUEM é romano?
-Liester! –ele disse. –Como ele ajudou?
-Não deu tempo, Liester morreu antes, lembra?
Harry não respondeu. A seguir saiu com um salgadinho e me entregou. Abri o salgadinho com calma e peguei um, com a outra mão ofereci a ele.
-To sem fome. –pausa -Amber sabe que se Liester voltar, o pescoço dele vai estar torcido para trás ?
Engoli em seco. Nem tão em seco estava mastigando um salgadinho e me engasguei. Tossi sem parar. Harry olhou desesperado para mim meu rosto passava de vermelho a roxo. Ele se aproximou de mim perguntando por que eu estava chorando. Toquei meu rosto que estava molhado. Estranho.
-Você está bem? – Harry perguntou preocupado. Senti sua respiração quente no meu rosto.
Mais cedo eu havia tido uma visão de minha morte. Abri a boca para explicar quando uma forte dor de cabeça me atingiu. Coloquei minhas mãos na minha testa, essa dor só estava piorando.
Uma serie de imagens começaram a aparecerem em minha mente. Era uma visão bem curta, um homem de meia-idade abria a porta da cozinha e perguntávamos o que estávamos fazendo. Harry e eu ficamos sem reação. O homem sai e vai contar a Bygron que estávamos tramando algo.
-Alguém está vindo espreitar. –falei. Logo depois ouvimos passos no fim do corredor.
Harry com medo que fosse ouvido se inclinou em minha direção e disse baixinho:
-O que vamos fazer?
-Não vai dar para fugir. A gente podia fingir que está cozinhando.
Fizemos uma careta. Era uma péssima ideia, não tinha nem comida para se cozinhar aqui.
-Não com essas roupas – ele disse – Nós podíamos... nos esconder na dispensa.
-Não. –eu disse rapidamente. –Ele vai nos encontrar do mesmo jeito.
-O que a visão mostrava? –Harry perguntou apressado.
Os passos estavam se aproximando.
-Um cara que é informante de Bygron está te procurando para saber se você tá armando alguma coisa. – resumi.
-Nós precisamos de uma desculpa por estarmos aqui.
Pensamos. Nada. Nossas cabeças estavam tão vazias quanto essa cozinha.
Ouvi claramente o barulho que os sapatos chiques faziam perto daqui. Harry abriu a boca para dizer algo, mas logo fechou. Ele tinha uma ideia.
-Qual é o plano? –perguntei.
Pés pararam na frente da porta.
-Qual é o plano? –repeti. – Rápido. Diga.
-Merda.
Harry me puxou pela cintura e me beijou. Empurrei-o, não muito longe.
-Que porr...?
A porta abriu. Voltamos ao beijo. Tentei não olhar para quem havia chegado. Harry me encostou na parede, querendo convencer quem estava olhando. Minha mente só gritava para que o espião de Bygron fosse embora. Eu quero sair daqui!
-Ei vocês! – o cara disse.
Harry permaneceu aparentemente parado e me entregou a faca que eu estava usando no meu cabelo. Como ele conseguiu pegar?
Seus olhos diziam “qualquer coisa, não tenha medo de usar”.
-Não pode ficar aqui — o homem continuou.
Nos viramos devagar, como tivéssemos acabado de perceber sua presença. O cara quando nos viu sua expressão mudou, ficando meio nervoso.
-Ah, desculpe, senhor. – ele disse.
Senhor?
- Nós já estávamos indo. –Harry disse calmamente.
-Não se incomodem — o cara disse de um jeito estranho. Meu rosto esquentou e me escondi atrás de Harry como uma criança. O cara saiu da cozinha.
-Nós estamos perdendo tempo– falei levantando a lateral do meu vestido. Peguei A Faca De Roma e toquei a ponta da adaga vendo se estava afiada o bastante – Temos que encontrar Bygron.
Harry observou hipnoticamente o meu movimento e quando eu cruzava a cozinha ele se pôs na minha frente fechando o meu caminho.
-O que foi? –perguntei.
Ele não se moveu inicialmente. Antes que eu repetisse a pergunta Harry disse mecanicamente:
-Você não vai matar Bygron.
-Quer fazer isso? Entendo. –entreguei a outra faca que estava em minha mão. –Agora saia da minha frente.
-Não.
-Tá brincando, né?
Seu olhar estava fixo em algo invisível acima de mim. Harry não parecia estar brincando, na verdade ele parecia meio assustador.
- Você não vai matar Bygron, ele é meu pai.
Rolei os olhos.
-Claro, claro. –o empurrei de leve, abrindo caminho para a porta.
-Ouviu, Katherine Smith? Eu não vou deixar que você mata-lo. –Harry sorriu de um modo maligno e hipnótico. Fiquei até um pouco tonta com isso.
Na realidade, mais do que um pouco. Suor escorria por todo meu corpo. Eu não podia ficar doente agora em momento tão decisivo, não agora que eu estava com A faca. Alisei o meu vestido, pronta para voltar para a festa. O surto de Harry teria que ficar para depois. Minha mão estava viscosa por causa do suor. Levantei a mão para secar a minha testa e ela estava tingida de vermelho. Estou sangrando! Tudo começou a girar, eu tinha pânico a sangue. Tirei a faca do meu abdômen. Ela caiu da minha mão.
-Harry! O que você fez? –falei em pânico.
Não olhei para o seu rosto, mas eu sabia que seus olhos estavam negros como da vez que estávamos no supermercado.
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