Diário de uma adolescente em crise
1 Capítulo 1
Passei minha adolescência guardando dores, palavras, amores, coisas que eu deveria ter aproveitado. Agora só me resta lembrar e vive-las enquanto a tempo.
Fernando Rocha — Pequeno Adão
As batidas incessantes de Emily na porta do meu quarto era um indicativo que já era hora de acordar.
Odiava quando ela fazia isso. Alias, eu odiava tudo nela.
Desde que ela se casara com papai há cerca de quatro anos, minha vida virou de cabeça para baixo de uma forma imaginável. Ganhei uma madrasta, uma irmã postiça, um quarto compartilhado e um poodle barulhento.
Eu nunca me conformaria com o fato de ela ter sido o ápice do divórcio de meus pais.
Está bem que o casamento dos dois já estava em crise há muito mais tempo, mas quando mamãe descobriu que meu pai estava sendo infiel a ela, debaixo do nosso teto e com uma garota quase oito anos mais jovem, ela surtou.
Eu não a culpo. Provavelmente eu agiria da mesma forma.
O fato é que mamãe arrumou as malas, enfiou tudo no banco detrás do carro e foi morar com a irmã mais nova no Leblon para esfriar a cabeça.
Eu não fui junto, obviamente.
Ela queria um tempo sozinha sem o ex-marido babaca para encher o saco, sem a maldita agência de propaganda que os dois haviam fundado juntos há doze anos, sem as amigas fofoqueiras que espalhavam a noticia do seu divórcio mais rápido do que chamas em incêndio e sem a filha que não conseguia comer macarrão sem sujar a camiseta de molho.
Ela precisava de espaço, e eu dei.
Talvez até demais, já que um ano e meio após o divórcio ela também se casou novamente e acabou ficando de vez no Rio de Janeiro.
Emily voltou a bater na porta e o Toc-Toc insistente na madeira me despertou de vez de meus devaneios. Observei Meredith roncando com a boca aberta no travesseiro de ovelhinha e me questionei mentalmente como uma criança de dez anos podia roncar tão alto.
Caminhei até a porta do quarto e a destranquei para que Emily parasse com aquela luta de MMA com a madeira.
—Bom dia!- Ela disse de forma polida.
Eu apenas a ignorei e caminhei em direção ao banheiro, precisava de uma ducha bem quente para começar o dia.
~*~*~*
A manhã estava nublado e o céu escuro, mas mesmo assim parecia que não iria chover.
Papai dirigia com a atenção focada na rua, enquanto eu ouvia música no fone de ouvido no ultimo volume. Eu observava pela janela as pessoas em seus carros imaginando o que elas fariam durante o dia.
Mamãe e eu sempre brincávamos disso a caminho da escola para nos distrair do transito.
Ela me descrevia com detalhes como seria o dia do homem com o carro parado ao lado do nosso. Como era a esposa dele, como eram os filhos dele, como era o gato de estimação deles, como era a casa deles, e depois era a minha vez.
Era divertido apesar de um tanto louco, ou até mesmo invasivo.
Já com papai tudo era diferente, tudo muito mais sério.
Eu apenas me sentava no carro, apertava o cinto de segurança e me despedia quando o carro parasse na guia do colégio. Mas acho que era melhor assim.
Nosso relacionamento mudou muito após o divórcio e sinceramente acho que nada seria igual. Não se podem colar cacos de vidro que se quebraram em lasquinhas pequenas.
Eu o perdoei por tudo o que aconteceu, por toda a dor que ele ocasionou a minha mãe. Mas isso não significava que voltaríamos a ser aquelas duas pessoas que fomos antes de Emily aparecer em nossas vidas, aquele pai e filha que eram além de tudo amigos.
Alguns minutos depois, o carro já circulava por perto do colégio. Vários carros estavam parados na rua e buzinas ensurdecedoras perturbavam nossos ouvidos.
—Pode me deixar aqui. – Eu disse a ele- Não precisa me levar até aporta.
Ele não me respondeu. Apenas destravou o veículo e me observou descendo na calçada.
Papai acenou com a mão e deu um leve sorriso quando eu olhei em direção ao carro. Eu fingi não ver.
Também não havia visto ontem, nem antes de ontem, nem há três anos.
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