Diário de uma Paixão
3 Capítulo 02
Fiquei observando Niko tomar o café, suas mãos tremiam ao pegar a xícara, mas ele tentava ao máximo. O café caiu um pouco sobre a mesa.
_ Me desculpe por isso. – ele limpou a mesa com o guardanapo, e eu só balancei a cabeça.
_ Não é nada.
_ Vamos, você está me deixando curioso, o que aconteceu na festa?
Terminei de comer uma torrada e peguei o livro que estava no meu colo. Ele começou a comer um pedaço de bolo, poderia enfim, continuar.
Acabei chegando ao baile no carro de um dos amigos de Eron, cada rapaz tinha uma moça ao seu lado, menos eu e meu colega de quarto. O som da banda tocando uma música animada invadiu os meus ouvidos, o grupo se sentou em uma mesa e os acompanhei.
Félix pediu uma garrafa de uísque e se sentou na última cadeira vazia, que era ao meu lado. Sua namorada sentou em seu colo e lhe roubou um beijo. Alguns casais começaram a sair para a pista de dança.
_ Amor, vamos dançar comigo, vamos? – a loira pediu para Félix.
_ Não, Edith, eu não to afim.
_ Ah, amor, por favor, a gente não veio aqui pra ficarmos sentados, não é?
_ Eu não quero dançar, criatura! Pede pra outra pessoa dançar com você. Não me importo. – ela bufou de raiva e saiu batendo os saltos no chão.
Uma moça loira de cabelos longos e loiros parou de frente com a mesa e sorria diretamente pra mim.
_ Não quer dançar?
Os rapazes começaram a dividir a garrafa de uísque entre si, e fiquei observando a moça.
_ Não, eu não... danço. – respondi.
_ Ah, eu te ensino. – ela respondeu. E eu quis sair correndo.
_ Não, obrigado, mas...
_ Você não dança? – Eron me perguntou.
_ Não, eu nem sei como... – respondi baixo.
Ouvi um clique ao meu lado, Félix tinha aberto o isqueiro de prata e tinha acendido um cigarro. Encarou a moça a nossa frente.
_ Criatura, ele já disse que não vai dançar com você! Pelas contas do Rosário! Você quer que ele desenhe? – a moça saiu constrangida da mesa e eu fiquei sem o que dizer.
Félix pegou um dos copos de uísque com gelo e tomou um gole, todos pegaram, restando um copo pra mim. Eu peguei e tomei um gole, a bebida era forte e desceu rasgando pela minha garganta. Eu acabei engasgando, é claro.
_ Calma, Niko... – Eron disse com um tom engraçado, eu lhe sorri sem graça.
A noite foi passando e eu desisti do copo logo, o deixando sobre a mesa. A mesa foi ficando vazia, Eron tinha se engraçado com uma moça e eu ficava perdido quando uma se aproximava de mim. Fiquei a maior parte do tempo observando o jeito elegante de Félix, ele observava a pista de dança, o cigarro sempre ao seu lado e tinha tomado, no mínimo, três copos de uísque.
A música alta começou a me incomodar, estava com saudade do silêncio e já estava pensando em sair quando uma morena, claramente bêbada, se jogou sobre mim. Me chamando por apelidos carinhosos e me enchendo de beijos pelo rosto e pelo pescoço, me livrei dela e procurei a saída. Eu realmente não devia ter ido.
A rua estava vazia e tinha esfriado, eu não conhecia nada, como voltaria para o Campus? Caminhei até o estacionamento e me encostei a um dos carros que tinha vindo. Iria esperar, era o jeito.
_ Não gostou do baile? – me assustei ao ouvir sua voz.
Lá estava Félix, ele tinha me seguido, me encarava de um jeito que fazia minhas pernas tremerem. Nunca tinha me sentido assim. Ele expeliu a fumaça do cigarro pela boca de um jeito charmoso e sorriu de forma afetada. Trazia a garrafa em uma das mãos.
_ Eu gostei, eu só... Não estou acostumado com o barulho, aquelas moças me agarrando... – eu ri, sem graça.
_ É verdade?
_ O quê?
_ Que você não sabe dançar.
_ É. – assenti. — Eu nunca fui pra essas festas, essas coisas não é...
_ Ah, eu entendo. – ele jogou o cigarro ainda aceso no chão e pisou em cima.
Me encostei no carro novamente, minhas pernas ainda tremiam e meu coração estava disparado, não sei se era por causa do susto ou de ter ouvido a voz dele.
_ Quer um pouco mais? – ele me ofereceu a garrafa. – Anda, carneirinho. A bebida vai ajudar a superar esse fiasco de primeiro baile. – eu ri e peguei a garrafa.
_ Carneirinho?
_ Você é tão inocente quanto um, criatura. – ele riu e encostou-se ao carro ao meu lado, virei um gole da bebida e fiz uma careta. – Pronto para o sacrifício.
_ É muito forte. – ele riu de novo.
_ Com o tempo, você se acostuma.
O tempo pareceu se arrastar, dividimos a garrafa e só não cai no chão por causa do carro. Estávamos bêbados e rindo muito sobre tudo, qualquer coisa.
_ E aquela loira, Edith, né? Sua namorada?
_ Minha noiva. – Félix riu, totalmente bêbado. – Papai quer que eu me case com ela, ela é filha do bancário da cidade.
_ E você, filho do prefeito. – ergui a garrafa como um brinde e ele riu.
_ O casamento mais aguardado dessa cidadezinha de merda. Eu devo ter salgado a Santa Ceia para merecer isso. – eu acabei rindo de seu jeito, de uma forma descontrolada.
Lá de fora podíamos ouvir que a banda tocava músicas lentas agora, uma voz doce e linda de uma mulher invadia as ruas, Félix cantarolava baixinho a música. Ele se desencostou do carro e parou na minha frente estendendo a mão.
_ Quer dançar comigo?
_ O quê? – respondi, surpreso. E ele riu.
_ Dançar comigo... Não quer, carneirinho? – ele sorria de forma sedutora.
Eu nunca tinha visto dois homens dançando juntos, nem duas mulheres, por mais amigos que fossem. Como eu ia dançar com um rapaz? Eu nem o conhecia direito.
_ Prometo não pisar nos seus pés. Anda, ninguém vai ver. – ele reparou a minha ansiedade. — Quero fazer seu primeiro baile valer a pena.
Me abaixei e deixei a garrafa no chão, ao ficar de pé de novo senti o mundo rodar e segurei na mão de Félix. Ele puxou o meu corpo perto do seu e começamos a dançar, escondidos por entre os carros, parecia que eu estava flutuando. E ele continuou cantarolando a música que vinha do salão no meu ouvido. Meu corpo estava mole e eu estava entregue aquele momento.
Seu cheiro era uma mistura de uísque, perfume caro e cigarro. E pra mim, naquele momento era o melhor cheiro do mundo. A música estava quase no final quando ele me encarou, seus olhos negros brilhavam e ele sorriu. Parecia genuinamente feliz.
Eu estava muito bêbado para notar e lembrar que éramos dois rapazes dançando feito um casal no meio de um estacionamento. Só me lembrei disso quando ele passou as pontas dos dedos no meu rosto, me afastei bruscamente, tonto pela bebida e toque inesperado. Comecei a andar depressa de volta para o baile, reprimindo os sentimentos que tinham vindo a tona naquele momento.
_ Niko! Nicolas! – ele gritou, mas não veio atrás de mim.
Eu permaneci olhando as páginas na minha frente, toda vez que lia me lembrava das emoções que senti naquele momento. Ergui os olhos e Niko sorria pra mim.
_ Eles se apaixonaram, não foi? – eu sorri.
_ Sim.
_ Mas... – o sorriso dele se perdeu. – Eles jamais poderiam ficar juntos.
_ Será?
_ Pode continuar? Eu estou amando essa história. Mas, acho que eles ainda vão sofrer muito. Ele é filho do prefeito, por Deus. – eu assenti.
_ Vou continuar.
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