Diário de uma Mochileira
2 Laketown
Laketown, Inglaterra. 04:56 AM
Acordei impetuosamente com a voz afetada de Kelsey enquanto ela me sacolejava na poltrona. Revirei os olhos assim que os fixei na loira me indicando as pessoas que já se agrupavam nas saídas do avião.
–Helena, é hora de sair. -Ela repetia, a testa franzida sob camadas e mais camadas de pó compacto.
Apenas naquele intervalo de segundos eu já havia matado Kelsey cinco vezes mentalmente.
–Tá, tanto faz. -Mumurei no meu habitual tom matinal de "Eu não ligo, me deixe dormir".
Foi quando lembrei que estávamos em Laketown. Me ergui subitamente, puxando a enorme mochila que era a única bagagem que eu havia trazido.
Kelsey se ergueu assim que eu me levantei e agora passava as mãos sobre o tecido brilhante de sua blusa bege. Os cabelos loiros desciam em curvas longas e impecáveis sendo que apenas o rosto denunciava parte de sua sonolência.
–Então... -Ela começou, um sorriso forçado nos lábios. — Nos vemos por aí.
"Por favor, não"
–Claro. -Falo, indiferente.
Assim que saímos do avião, deixei que o denso e frio ar inglês tomasse meu corpo e beijasse meu rosto, esvoaçando os cabelos que insistiam em me cobrir os olhos.
Deixei que o primeiro sorriso sincero do dia aflorasse e segui em direção ao aeroporto, ignorando o descarrego de bagagens: Eu já tinha tudo o que precisava.
Apenas parei de andar quando cheguei ao banheiro na intenção de trocar as roupas. Eu não pretendia causar minha primeira impressão aos britânicos vestindo um pijama branco com os dizeres "Me leve pra Cama" destacados.
O banheiro do aeroporto era azul-claro e estava vazio. Joguei a mochila sobre a pia de mármore e iniciei a procura por alguma roupa decente.
Assim, em poucos minutos já me encontrava dentro de um blusa de frio listrada e uma calça preta de cintura alta. Meu reflexo exausto me encarou de volta do espelho do banheiro, bolsas negras embaixo dos olhos. Os cabelos castanho-claro que eu herdara do meu pai caiam em cascata sobre as costas, emoldurando o rosto de traços fortes que eu sempre reconhecera como meu embora algo em meu semblante houvesse mudado.
Eu sempre ficava radiante com viagens, o que era uma grande novidade na seriedade com que eu levava a vida quando confinada no meu pequeno apartamento na avenida Tompkins de New York. Esses passeios pelo vasto e lindo mundo que eu pretendia conhecer como a palma de minha mão me enchiam de uma felicidade infantil e tornavam de mim uma garota completamente distinta da cética Helena Wilde.
Saindo do aeroporto, tive de esperar por catorze minutos em um banco de frente à auto-estrada por um táxi, já que todos haviam deixado essa área algum tempo após o pouso do meu avião. Os motoristas não tem o costume de esperar pelos retardatários que precisam ficar apresentáveis à sociedade britânica, pensei enquanto bufava e checava o relógio pela quinta vez. Ainda era manhã, 05:30 para ser mais exata, e isso me deixava feliz por ter tempo de conhecer a cidade ainda naquele dia.
Foi quando uma caminhonete que passava deslizou habilmente sobre a película de gelo que cobria a estrada e estacionou em frente ao banco. O Sol batia contra a tintura púrpura do veículo, fazendo com que a neve ao redor da pista parecesse levemente roxa.
O vidro baixou até a metade, não permitindo que eu tivesse visão do motorista.
–Passa a carteira e estamos resolvidos. -Uma voz masculina grave cortou o silêncio.
"Oh, droga. Droga, droga..."
Iniciei uma busca frenética dentro da enorme mochila por algum dinheiro, mas eu tinha quase certeza que a carteira estava no fundo da bolsa, embaixo de uma tonelada de roupas.
Quando eu havia retirado a quinta muda de roupa e a jogado no chão, uma risada rouca partiu do carro e a janela deslizou mais, tornando possível que eu visse o rosto de um jovem que desfalecia em risos com um amigo magrela.
–Estávamos brincando com você. -O motorista sorriu exibindo fileiras de dentes brancos como a neve que já se alojava sobre o carro.
–Vão à merda. -Falei, mal contendo o alívio e a raiva.
O magrela riu mais exageradamente enquanto o outro tornou o semblante sério.
–Perdão, de verdade. Não pensei que fosse ficar assustada de verdade. -Ele ergueu as sobrancelhas. -Na verdade, iríamos oferecer uma carona.
"Não quero a merda da sua carona", pensei. Contudo, eu não sabia quanto tempo a mais ficaria esperando naquela estrada e nem se passaria por ali algum outro assaltante, real dessa vez. Suspirei enquanto acenava com a cabeça em concordância.
–Tá. Tudo bem, obrigada.
O motorista sorriu e indicou o banco de trás com o polegar.
–Não tem muito espaço, mas é o que temos pra hoje. -Ele deu de ombros.
Me enfiei no automóvel e um cheiro almiscarado me atingiu imediatamente. Empurrei a mochila com os pés e me acomodei no banco de couro, puxando o cinto-de-segurança. O motorista não estava brincando quando comentou o espaço: Mal dava para colocar as pernas no vão a frente e meus pés não conseguiam tocar o chão por estarem travados nas costas do banco do passageiro.
–Eu sou Leo, trabalho no aeroporto. -O motorista me encarava pelo retrovisor, os olhos claros castanhos recortados pelo espelho.
–Imagino que o aeroporto não pague bem se você tem que assaltar nas horas vagas. -Soltei, irônica.
O magrela riu. Leo deu um sorriso torto e anuiu com a cabeça.
–Certo, eu mereci essa.
O silêncio se instalou no carro por alguns segundos até eu falar:
–Sou Helena. Mochileira. -Eu encarava a janela enquanto falava.
–Esse lance de mochileiros é bem legal. -O magrela falou pela primeira vez. -Sou o Teddy.
–Onde está ficando, Helena? -Leo indagou.
–Marquei uma reserva em um hotel no centro, Geller's Spot.
–Ah, o Geller's! É de um colega, você vai gostar do lugar. -Ele se animou.
–É o que espero.
Leo colocou um jazz antigo para tocar no carro, tirando a atmosfera pesada do automóvel. Sorri enquanto balançava a cabeça ao som do saxofone e, aos poucos, arriscando alguns movimentos com o tronco.
–Eu posso te levar à uns clubes de Jazz se quiser. -Leo comentou, me encarando pelo retrovisor enquanto sorria.
Corei subitamente e parei de me mexer. Arrisquei um sorriso forçado e anui com a cabeça.
–Tá. Claro, certo.
Ele expandiu o sorriso, satisfeito.
–Ok. Você me passa seu número depois, então. -Leo disse de maneira confiante.
O outro soltou um risinho baixo.
–Claro. -Murmurei em resposta, constrangida.
–Eu comentei sobre meu apelido, Helena? -Teddy falou após algum tempo.
–Não. -Respondi, ansiosa por iniciar uma conversa menos desconfortável.
–Teddy, a vela. Faz muito sentido, né?
Comecei a rir incontrolavelmente enquanto Leo o dava um murro leve no ombro.
–Babaca. -O motorista murmurou.
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