Diário de uma Judia
2 Página 2 - Encontro Indesejável
Notas iniciais
Januar
Só há uma pessoa nessa cidade com quem posso conversar e quase confiar. Seu nome é Klaus. Um senhor excepcionalmente simpático de 80 anos, sem cabelos, sem barba, sem gordura, sem a maioria dos dentes. Difícil mesmo é descrever algo que ele realmente tenha, pois até sua sanidade muitas vezes não funciona tão bem. O fato é que o acho muito esperto, tirando algumas vezes em que ele fala coisas sem sentido.
– Quer saber sobre a batalha? – respondeu-me quando perguntei sobre a guerra – Tem a ver com armas, tanques, aviões, infantarias, cavalarias e carrocerias...
– Carrocerias? – levantei uma sobrancelha, confusa.
– Só que elas são aprimoradas com quatro rodas, luzes na frente e não há cavalos carregando-as.
– Espera um segundo, o senhor está falando dos carros?
– Carros? O que são carros?
Revirei os olhos. Ele sempre conseguia se esquecer de tudo. Logo resolvi mudar de assunto.
– O senhor sabe o porquê dessa guerra?
Ele fez uma careta com o esforço para finalmente responder minha pergunta – Combater o inimigo e reconquistar o que é nosso por direito.
– E onde os judeus entram nessa história?
Mais uma pausa.
– Higiene racial.
Higiene racial. Essa frase ficou ecoando no meu subconsciente até me revelar que eu já havia escutado. No rádio, eles adoram essa frase. Os superiores a usam para nomear o que fazem com os inferiores. Esses abutres realmente conseguem nos diminuir a meros excrementos indesejáveis.
Apesar de ouvir coisas indesejáveis no rádio, gosto muito das músicas e da programação. Por isso planejei para esse ano novo algo grande, muito grande. Quase tão grande quanto a guerra. Sim, eu decidi furtar um rádio, eu sei, é loucura. Mas eu preciso fazê-lo. Ele é uma das invenções mais incríveis da humanidade. Não sei quem o inventou, mas, sou muito agradecida a essa pessoa. Antes que se preocupe, vou avisá-lo que já furtei e não fui pega. Claro, eu furtei panos, comida e um dos mais importantes: vinho. Contudo, nada tão extraordinário quanto um rádio.
O aparelho que vou roubar é do senhor Gal, dono da loja de alimentos. Estou indo a um bom tempo ao lanterna e observando a loja. Lá está sempre cheio de pessoas de um lado para o outro comprando aqueles alimentos de má qualidade. A loja não é muito grande, nem muito agradável, não entendo como ela pode ser tão popular. Quer dizer, eu entendo, sim. Ele também é bom com os verbos.
– Estou achando essas batatas muito murchas e mal cuidadas – reclamou certo dia uma cliente.
– Oh, você não está reconhecendo? Essas são batatas do sul, vindas do maior produtor da região, parecem murchas, mas quem tem o gosto refinado sabe muito bem o quão boas são por dentro.
A senhora o olhou desconfiada.
– Dou minha palavra. Só vendo produtos de boa qualidade e a senhora é minha cliente desde sempre. Eu já lhe decepcionei algum dia? – disse com um sorriso cafajeste.
Rolei os olhos. Sim, ele sempre faz isso.
Todas as noites o rádio está lá na janela lateral tocando sagazmente, consigo vê-lo pelo telhado de onde também vejo seu dono, sentado logo ao lado enquanto eu permaneço deitada logo acima, apreciando as canções. Mas a melhor sempre foi essa:
Os dias de vinho e rosas,
rir e fugir,
Como uma criança a brincar.
Entre os prados
Rumo a uma porta fechando,
Uma porta indicando o nunca mais
Que não estava ali antes
A melodia calma e envolvente dessa canção sempre faz com que eu me sinta no céu. Flutuando entre as estrelas. Ela me faz esquecer todo o mal que me cerca. Lembra que eu falei que furtei vinho? Pois é, foi por causa dela.
A noite solitária divulga,
Apenas uma brisa passageira
Cheia de memórias
de sorrisos dourados
aos quais me apresentou
Os dias de vinho e rosas,
E você!
Certa noite, eu trouxe a garrafa comigo para escutar a música e prova-lo. No começo meu paladar renegou o gosto. Mas, logo a música me envolveu e contemplei o sabor.
A noite solitária divulga,
Apenas uma brisa passageira
Cheia de memórias
de sorrisos dourados
aos quais me apresentou
Os dias de vinho e rosas,
E você!
No final, foi difícil conseguir me equilibrar entre os telhados. Me senti meio zonza. Acho que o vinho alterou meus reflexos. No dia seguinte, acordei com uma dor de cabeça insuportável. Foi horrível.
Ele nunca percebeu minha presença. Vigiando-o descobri que ele tem problema de audição, sempre falou forte e pedia para que seus clientes fizessem o mesmo. Perfeito, pois as chances dele me escutar eram bem baixas.
Só que há um porém. O inverno está ficando mais rigoroso. Todas as casas logo estarão cobertas pelo manto branco gelado e escorregadio, não terei mais a chance de ouvi-lo nas minhas noites lúgubres. A não ser que eu o tome para mim. É mais que um mero capricho meu, é uma necessidade e o risco vale a pena.
Continuo pedindo para não me julgar, não sou uma pessoa má. Sou uma pessoa solitária no meio de uma guerra que fui obrigada a entrar e minha vida está praticamente só começando, não que eu ache que eu vá durar muito. Enfim, ainda não o furtei, pois um incidente atrapalhou meus planos.
Noite retrasada já estava tudo planejado. Todas as noites o senhor Gal liga o rádio e o escuta até cair no sono em sua poltrona, que fica rente a janela. Em um de seus cochilos eu planejei toma-lo para mim. Coloquei minhas botas, calça, camisa e capuz. Encaixei uma faca na cintura, caso necessário. Eu estava prepara, era a hora.
Só que enquanto eu fazia meu caminho até o lanterna algo quase me arruinou.
A noite estava fria, já sentindo os resquícios do inverno austero que não custará muito a chegar. As pessoas aqui costumam se recolher cedo para suas casas e é praticamente impossível alguém sair por aí por esse breu. Não era uma noite muito escura, pois a lua fizera questão de aparecer. Estava linda, seus raios iluminavam meu caminho. E eu sabia que seria perigoso andar pelas ruas principais. Mesmo assim, eu sou teimosa o suficiente para ignorar meus próprios cuidados e então resolver flanar pelas ruas sem fazer barulho algum, me encaixando no cenário funesto.
Eu já faço parte disso, da escuridão, do escondido, do que ninguém vê. Inclusive já me acostumei a não ser vista, por isso quando percebi um par de olhos, no meio do caminho, assustei-me abruptamente. Prendi a respiração instintivamente. Estagnei. A pessoa que me observava também paralisou.
Não sei quanto tempo ficamos nos olhando sem nos mover, com medo de que qualquer movimento pudesse desencadear acontecimentos indesejáveis. O mundo pareceu parar junto conosco. Éramos olharmo-nos intacta retina, os olhos inexpressíveis. E eu sentindo o sangue largar minhas veias e artérias e meu corpo fraquejar. Não! Não era hora para desmaiar, eu tinha de ser forte, senão poderia morrer com mais facilidade e eu não cheguei até aqui para nada. Soltei o ar dos meus pulmões e meu organismo pareceu querer funcionar novamente.
Tentei me concentrar em respirar ociosamente e analisar a pessoa a minha frente. Usava calças, botas, blusa e cobria a cabeça com um capuz. Estava toda de preto. Não dava para distinguir se era homem ou mulher. Mas, pelas vestimentas, parecia homem. Não me contive e soltei um pequeno riso de nervosismo. Aquela cena parecia um tanto quanto absurda.
– Está rindo de que? – a voz rouca e sussurrada me fez acordar de minhas análises internas.
Instintivamente pus minha mão sobre minha cintura onde se localizava a faca.
Era uma mulher.
– Pretende me atacar? – perguntou-me acompanhando o movimento de minha mão até a cintura.
Percebi que minha respiração estava começando a ficar ofegante, parecia que eu iria ter um ataque cardíaco. Tentei me conter.
– Cada uma segue seu caminho e nada precisa acontecer – sugeri tentando parecer firme.
Dessa vez ela quem soltou um pequeno riso. Aumentei a pressão sobre a faca. Qualquer movimento brusco e eu a tiraria.
– Você é uma ladra? – inquiri, tentando descobrir com que tipo de raça falava.
– Não. Mas você é. – respondeu friamente.
Engoli em seco. Quem era ela afinal?
– Suponho que seja familiarizada com o local, já que anda por aí sem medo algum. Então, provavelmente, já passou por aqui várias vezes sem ser pega — ela deu um passo em minha direção e eu um para trás — Mas, a pergunta certa é: De que lado você está?
Droga. Droga. Droga. Ela era uma deles. Dos superiores. Respirei fundo tentando recuperar o controle de mim mesma. O que uma deles fazia uma hora dessas no lanterna?
– Você é uma deles – sussurrei, sem intenção. Não era para eu ter dito aquilo.
– Deles? – questionou-me dando mais um passo para frente.
Sua silhueta ficara mais nítida.
– Fique longe de mim – ordenei assustada.
Ignorando-me deu mais um passo para frente e foi suficiente para que eu desembainhasse minha faca e a apontasse em sua direção. Ela levantou as mãos em sinônimo de paz.
– Ninguém aqui quer brigar – murmurou, temerosa.
– Eu falei pra ficar longe de mim – tentei ser mais firme.
– Você é muito esquiva – cochichou, presunçosa.
Começou a recuar.
– Ainda vamos nos ver de novo.
Girou nos calcanhares e saiu correndo. Logo, não havia mais resquícios de sua presença ali. Senti meus joelhos fraquejarem assim que a descarga de adrenalina se foi. Quase cai no chão. Me contive. Voltei a respirar abertamente.
– Tenho que sair daqui.
Não tive coragem de voltar lá desde o acontecimento. Contudo, sinto que já está na hora de eu voltar lá e pegar o rádio. Hoje de manhã, flocos de neve começaram a cair do céu. Tenho pouco tempo. Não posso desperdiçá-lo com um medo bobo. Vou tomar cuidado dessa vez e ninguém me verá. O problema do inverno é que dificulta na hora deu caçar. Vou ter que voltar a furtar com mais frequência e isso é bem perigoso. Tenho que ser extremamente cuidadosa daqui em diante.
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