Diário de um assassino
2 Capítulo 2
Dia 16/11/1990 — Apartamento Guariri, 412, Andar 9, São Paulo.
Depois de ontem, Ângela andou mais sorridente, acordou e me trouxe o café da manhã na cama, me beijou inúmeras vezes... Nunca a vi tão radiante. Eu não costumo sorrir tanto também, porém hoje eu não parecia o Raphael. O Raphael que matava, cortava, espancava, esfaqueava... Eu era um homem totalmente diferente daquele moleque de 16 anos...
16 anos...
...Meu pai. Aquele cara nojento...
...Por que o enterrei mesmo...?
...Ah,sim. Ele abusava de mim.
Era época do colegial, meus pais eram separados e meu pai abusava de mim todos os dias... Eu não sei se era por que ele não possuía mais nenhuma mulher, ou tinha algum tipo de fetiche. Eu era uma prostituta pra ele.
...não consigo nem mais lembrar o nome daquele miserável.
Eu gostava muito da Ângela, eu roubei a foto da turma do mural e recortei apenas o rostinho dela, para eu ver todas as noites depois das longas horas de abuso, chorava, tentava me machucar de qualquer forma, socava as paredes, rasgava o colchão...Tudo para aliviar a dor. Mas eu sabia que era momentâneo. Sabia que uma hora essa dor iria voltar. Eu não suportaria mais e acabaria me matando. E, ah! Ângela! Se tivesse ideia de como você me manteve vivo nessa época, iria me amar o triplo.
...época do colégio...
"Raphael?" -escutei a voz dela.
Voltei ao normal.
"Uh? Perdão querida, entrei em meus pensamentos profundos de novo!" — cocei a cabeça e tentei disfarçar com um sorriso torto.
"Está tudo bem?" — ela se sentou na beira da cama e olhou preocupada.
"N-não, estou bem! Era só um pensamento!" — passei a mão sobre meu rosto e cocei os olhos. Tudo estava coçando, o meu formigamento esquisito tinha voltado.
"Rapha...?"
"...?" — a coceira passou para a palma da mão.
"Eu te amo, querido." — Ângela sorriu.
De repente o formigamento aumentou, e comecei a chorar. Aquela merda toda hora voltava de alguma forma. Ela pulou do meu lado e tentou me acalmar. Minha mente ficou perturbada de novo. MALDITO!
O enterrei!
Dei remédio da bebida do desgraçado e o enterrei!
Joguei seu corpo dentro do guarda-roupa...
MALDITO!
...ouvi seus gritos depois que ele acordou...
MISERÁVEL!
Por que abandonou a mamãe? Estávamos tão bem!
DESGRAÇADO!
Por que abusava de mim? Eu tenho culpa de alguma coisa?
QUEIME NO INFERNO!
Minha alma apodreceu.
"Sai de perto de mim, Ângela!" — a empurrei da cama, ela caiu com violência no chão do quarto, me encarou assustada.
"Rapha?!" — ela se encolheu.
Merda!
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