Diário de um Felino
27 Especial de Natal
Notas iniciais
A única coisa que não saía da minha mente era o fato de Alice ter se esquecido do Natal. Poxa, Natal é muita coisa importante: tem comida, doces… Algumas coisas estragam, tipo uva passa no arroz ㅡ ainda me lembro da vez em que Alice colocou as que ela tinha tirado do arroz num pires e colocou no chão. E eu, besta, fui lá e comi, achando que era bom. Quase vomitei, foi horrível.
ㅡ Ei, Ali.
ㅡFala.
ㅡ Como você esqueceu do Natal? ㅡ perguntei.
ㅡ Ah, bem… Depois que a gente cresce vai perdendo toda a magia, sabe? Depois que descobrimos a verdade, que Papai Noel não existe, que são nossos pais que colocam o brinquedo lá. ㅡrespondeu ela, cruzando os braços.
ㅡ Ah… ㅡ murmurei ㅡ Mas sendo assim a gente devia ir em algum restaurante, até porque não vamos ter tempo de preparar muita coisa.
ㅡ Sim, isso mesmo que eu estava olhando aqui na internet ㅡ exclamou ela, indo até o notebook e virando a tela dele pra mim ㅡ Que tal comida japonesa? Parece que faz séculos que não como essas coisas deliciosas.
ㅡ E faz mesmo, a última vez eu ainda era um gato, não se lembra?
ㅡ Ah, é… ㅡ respondeu, e ficou quieta por alguns minutos, vasculhando o menu. ㅡ Ei, faz quanto tempo que você é um humano? ㅡ perguntou ela, repentinamente.
ㅡ Não sei ao certo, parece que faz tanto tempo.
ㅡ Me parecem séculos. ㅡexclamou ela, rindo.
ㅡ Verdade. ㅡ concordei, encarando o cabelo dela. Assim que ela percebeu, se virou e perguntou:
ㅡ Tem algum bicho no meu cabelo?
ㅡ Ahn? Ah, não. É que cabelos curtos são tão adoráveis. ㅡcomentei, brincando com os fios azuis.
ㅡ Obrigada. Eu acho. ㅡ agradeceu ela, rindo.
[...]
ㅡ Moto de novo? ㅡ perguntei assim que passei pelo portão e Ali me entregou o capacete.
ㅡ É…
ㅡ É capaz que eu ainda caio daqui de cima ㅡ reclamei, montando na moto azul e preta.
ㅡ Vai dizer que não gosta de ficar aí atrás, grudado em mim? ㅡ perguntou ela, maliciosamente, enquanto ria.
ㅡ Meu Deus do céu, Ali! ㅡ respondi, corando, o que fez ela rir ainda mais.
Seguimos o resto do caminho até o restaurante de comida japonesa rapidamente, e Alice não conseguia parar de rir da minha cara durante todo o trajeto, me fazendo ficar mais envergonhado ainda.
[...]
Escolhemos uma mesa perto das grandes janelas de vidro ㅡ ‘’Muito calor, parece que vou derreter que nem picolé no fogo’’, segundo Alice.
ㅡ Já sabe o que vai pedir? ㅡ perguntou Ali, me encarando com aqueles olhos castanho-claros, como se estivesse planejando meu assassinato.
ㅡ Para de me encarar assim! ㅡ exclamei, apontando pra ela.
ㅡ Já escolheu ou não? ㅡ falou, continuando a me encarar, se divertindo com meu incomodo.
ㅡ Ah, sei lá. Nunca me dou bem com decisões.
ㅡ Depois eu que sou de Libra, um saco viu. ㅡ reclamou, cruzando os braços.
ㅡ E eu sou de que?
ㅡ Leão.
ㅡ Ah… E o que é um Libra?
ㅡ Caramba, Tom ㅡ exclamou ela, rindo ㅡ São signos.
ㅡ Ah… E o que são signos?
ㅡ Eu tinha a resposta na cabeça há um segundo, mas agora não me lembro. ㅡ disse, frustrada.
ㅡ Eu com certeza saberia a resposta se não tivesse nascido um gato, tu sabe, eu sou demais!
ㅡ Leonino é fogo, viu.
ㅡ Se tu quiser…
ㅡ Eita, Tom ㅡ exclamou, rindo.
Ri também e passei mais uma vez os olhos pelo cardápio. Nomes estranhos, só conheço uns três…
ㅡ Ei, eu não conheço nada disso aqui! ㅡ reclamei, virando o cardápio pra Ali e batendo com o dedo nele.
ㅡ Fazemos assim: compramos uma dessas barquinhas de sushi e comemos. Pode ser assim, vossa realeza? ㅡ propôs, fazendo uma voz engraçada.
ㅡ Ah, mas claro que pode, Súdita. ㅡ respondi, imitando seu tom de voz.
Alice chamou um dos garçons e fez o pedido, e antes que ele se fosse falei:
ㅡ E uma lata de Coca-Cola, por favor.
Ali riu da minha adoração por Coca continuar firme e forte, e aguardamos pela chegada do pedido.
[...]
ㅡ Aqui, uma barca e uma lata de Coca-Cola, certo? ㅡ perguntou o garçom, colocando tudo na mesa.
ㅡ Isso mesmo, obrigada ㅡ agradeceu Ali.
ㅡ Tó, experimenta esse ㅡ falou ela, pegando um dos sushis com os hashis e estendendo o braço na minha direção. Me aproximei e peguei com a boca, voltando a me sentar normalmente assim que comecei a mastigar.
ㅡ Tem o que no meio disso aqui? É bom.
ㅡ Cocô de minhoca. ㅡ falou Ali, séria. Arregalei os olhos e quando fui cuspir na mesa ela me impediu, rindo feito louca ㅡ Era brincadeira, seu tonto. Tinha morango nesse aí!
ㅡ Ah… Não brinca assim com a realeza, olha que eu mando cortarem-lhe a cabeça!
ㅡ Uia, rimou ㅡ exclamou ela, rindo ainda mais ㅡ E eu sei que você não faria isso.
ㅡ Por que duvida?
ㅡ Porque tu me ama.ㅡ exclamou, convencida.
ㅡ Amar eu amo eu mesmo, quanto a você tenho pena.
ㅡ Ui, magoei ㅡ disse ela,abaixando a cabeça. Depois de alguns minutos com a cabeça abaixada, quase me fazendo me desculpar, ela levantou a cabeça e começou a rir feito uma maníaca, parecia que estava morrendo.
ㅡ Louca, isso que tu é. L-O-U-C-A!
ㅡ Ah, se eu ganhasse um real por cada vez que ouvisse isso… Estaria lá em Londres, num apartamento na cobertura, isso sim. ㅡ exclamou, voltando a comer. Segui o exemplo e comecei a comer também.
Foi meu primeiro Natal como humano e, bem, digamos que eu espero que os próximos sejam assim também.
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