Diário de um Assassinato
6 Eric, o mordomo
Notas iniciais
CAPÍTULO 5
1h50
O mordomo, Eric, entrou no escritório com as mesmas roupas formais que vestia há algumas horas. Ele era, ou aparentava ser, a pessoa mais parcimoniosa naquela casa, após a morte do senhor Pemberton. Estava calmo – calmo até demais. Sentou-se cuidadosamente e, por alguns segundos, Lucchesi apenas o observou.
– Ande logo com isso, cavalheiro... Eu que eu posso lhe ser útil?
– Há quanto tempo trabalha para o senhor Pemberton? – Lucchesi perguntou, abruptamente.
– Bom, agora eu não trabalho mais, não é mesmo? – não sabia se tinha sido uma piada de humor negro, mas, de qualquer forma, ele estava muito sério. – Trabalhei para ele por vinte e nove anos! Emmie nem mesmo era nascida e Dewey era bebê quando cheguei aqui.
– O senhor Pemberton era um bom patrão?
– Isso depende muito. O salário, esse sempre foi muito satisfatório. Mas, pudera, ele e a falecida senhora Pemberton sempre foram muito ricos. – disse, calmamente. – O senhor Pemberton era muito fechado, mas essa característica se agravou com o tempo. Especialmente, após a morte da senhora Pemberton.
– Ele era de difícil convivência?
– Eu não diria isso, em especial sobre os últimos anos. A idade o tornou um homem ranzinza Ele continuou a ser a mesma pessoa de antes, mas não parecia ter tanto interesse em viver. Era um homem sedentário e todos os dias dele se tornaram uma repetição exata do outro. Não havia tempo para convivência, é isso que eu estou dizendo. O senhor Pemberton tornou-se cada vez mais dado à solidão e, quando havia companhia, ele raramente murmurava mais que algumas palavras. Bom, a única exceção era quando estava com o senhor Rupert, o rapaz que foi adotado logo após a morte da senhora Pemberton.
– Ele era afável com o senhor Rupert?
– Não chegava a tanto. Eles costumavam caçar nos bosques, algumas vezes nos Everglades. Eu acho que isso acabava por fazer bem ao senhor Pemberton. Ele não costumava sair muito nos últimos anos – disse o mordomo, com a mesma calma de sempre.
– O senhor Pemberton já, alguma vez, falou sobre a morte ou mencionou suicídio?
– Está suspeitando de suicídio sem uma arma por perto, num quarto trancado por dentro?
– Estamos também suspeitando de assassinato sem um assassino por perto, num quarto trancado por dentro, não é? Apenas responda as perguntas.
– O senhor Pemberton levava uma vida tediosa. Era mesmo como se ele esperasse pelo fim. Nada jamais era do seu agrado, ele costumava criticar os filhos. Os verdadeiros filhos, eu quero dizer. Principalmente Dewey, por nunca ter lhe dado um neto. Acredito que ele estivesse mesmo farto de sua própria existência. Mas, falar sobre morte? Não, não que eu saiba.
– Ele via com bons olhos o noivado da senhora Pemberton?
– Não, ele não simpatizava com o senhor Green e proibiu que ele viesse aqui.
– Ao mesmo tempo, Emily não deixava de recebê-lo.
– Se o senhor está afirmando. – o mordomo disse, sem piscar um olho.
– E é verdade, não é?
– Eu acho que não cabe a mim comentar a respeito da vida pessoal da senhorita Pemberton.
Lucchesi não insistiu.
– Diga-me, Eric, o que você realmente pensava do senhor Pemberton.
Eric suspirou e então, respondeu:
– O patrão não era a melhor pessoa do mundo. Sempre achei que essa sua amargura toda não tenha sido causada apenas pela idade, mas por uma crise de consciência. Certas pessoas vivem muito presas ao passado, senhor detetive. São pessoas apáticas, introspectivas, assim como o senhor Pemberton. Ele era muito rude. Não mais que o senhor Rupert, que veio a se tornar um rapaz muito grosseiro. O que eu posso dizer é que a virtude não compensa. Trabalho há tantos anos aqui e, ainda assim, há pouca gratidão, pouco respeito.
Lucchesi o olhou, como se esperasse que o mordomo continuasse.
– O que eu posso dizer é que o patrão não merecia o fim que teve, mas, talvez, tenha sido melhor assim. – concluiu o mordomo.
– Vamos voltar nossa atenção para os acontecimentos desta noite. – disse Lucchesi, em voz grave. – Quando o senhor havia visto o patrão pela última vez?
– Foi durante o jantar. Todos ceiaram juntos, sentados à mesa da sala de jantar, como de costume. – o mordomo disse, com a tranqüilidade que lhe era peculiar.
– O senhor Pemberton parecia estranho durante a refeição?
– Nada extraordinário. Estava lacônico, como sempre.
– Ele se retirou logo em seguida? – Lucchesi perguntou.
– Não. – o mordomo refletiu, por um segundo. – Na realidade, eu me lembro de que ele ficou lendo um livro qualquer na sala de estar. Todos os demais já haviam se retirado.
– Quando o senhor Pemberton foi se deitar?
– Eu não sei precisar. Eu estava lavando as louças, na cozinha. Acredito que às dez horas da noite, assim que terminei meus afazeres, o senhor Pemberton já havia se retirado.
– O senhor estava lavando as louças? – Lucchesi perguntou, com estranheza.
– Não há criado algum na casa após o horário do jantar e, portanto, eu sirvo de criado pessoal à noite. – o mordomo explicou.
– Muito bem. O senhor também se retirou nesse horário?
– Isso mesmo. Retirei-me pouco depois das dez horas. Já que nada deve ser escondido, pois a polícia certamente irá trazer os podres da família Pemberton à luz do dia, eu logo digo que acabei dormindo num horário, supostamente, de serviço. – Eric pausou, respirando fundo e acariciando o rosto enrugado. – O senhor Pemberton sofria de hipertensão. Ele tomava um daqueles novos comprimidos para tratar em horários fixos. É uma droga aparentemente muito tóxica, mas ele se recusou a fazer qualquer outro tratamento, como uma dieta mais restrita. Então, eu devia levar os comprimidos para ele, todos os dias, às onze horas da noite.
– E isso não aconteceu hoje, não é mesmo? – Lucchesi perguntou.
– Exatamente, não aconteceu. – admitiu o mordomo. – Eu acabei cochilando, no meu próprio quarto. Eu acordei ao som dos trovões e, logo, me apercebi da falha que eu havia cometido.
– A que horas isso aconteceu?
– Eram 23 horas e 38 minutos, senhor. Eu sei precisar exatamente porque logo observei o horário ao acordar, para saber qual havia sido o tempo do meu atraso. – o mordomo disse. Eu me lembrei de que o relógio encontrado no quarto do senhor Pemberton marcava 23 horas e 44 minutos.
– Foi levar os comprimidos, então?
– Sim. Já estava com eles do meu lado, de modo que fui até lá o mais rápido que pude.
– Por acaso, encontrou a senhorita Pemberton no caminho?
– Eu podia jurar ter ouvido a porta principal se bater, mas não houve tempo para vê-la. Presumi que não fosse nada.
– E, então, o que aconteceu no segundo andar?
– Bom, assim que eu subi a escada e olhei para o lado, eu vi a senhorita Vivian Romero, com as mãos na maçaneta da porta do senhor Pemberton, fechando-a.
– A porta estava aberta?
– Isso é crucial, não é mesmo? – ele perguntou, mas a expressão de Lucchesi não mudou nem um pouco. Ele esperava pela resposta. – Deve ser crucial, sim, porque encontraram a porta trancada por dentro, afinal. Mas eu me lembro distintamente que havia, sim, uma fresta aberta logo que eu olhei e, em seguida, eu ouvi a batida da porta.
– E o que aconteceu, em seguida?
– A senhorita Romero me olhou com o rosto mais assustado do mundo, como quem estivesse sido pega feito algo de errado. E, então, como uma idiota, ela me perguntou "Eric?". Estava mais desorientada que o normal. Eu nada respondi, apenas fiquei observando-a. Ela não estava, é lógico, com nenhuma pistola em mãos. Isso nem faria sentido, afinal, pois, pelo que parece, o tiro foi somente depois. Depois de alguns segundos, ela finalmente começou a se explicar.
– E o que a senhorita Romero lhe disse?
– Ela disse: "Você não deve entrar. O senhor Pemberton pediu para não ser incomodado!". Eu retruquei, dizendo que ele precisava ter tomado sua medicação há quase 40 minutos, mas ela disse que "o senhor Pemberton não irá gostar de ser contrariado". E, com isso, ela me desencorajou, pois o pouco que o patrão fala deve ser sempre acatado. Eu, então, desci e voltei direto para o meu quarto.
– Novamente, viu a senhorita Pemberton?
– Novamente, eu não vi, mas ouvi. A porta principal se bateu de novo. E, a bem da verdade, eu fiquei ouvindo pela porta do corredor o que se passava. Uma voz masculina, claramente a do senhor Reed, dizendo "É melhor que eu fique aqui", ou algo desse tipo. E a senhorita Pemberton respondeu, em seguida respondeu-lhe dizendo algo sobre desatolar o carro na trovoada. Voltei para meu quarto depois disso. – o mordomo explicou. – Ouviu o grito do senhor Pemberton?
– Eu ouvi, mas minha primeira reação foi a de pensar de que era um grito de terror, de surpresa. Cheguei a pensar que era alguém se assustando com a presença de um estranho, do senhor Reed. Jamais imaginei que o senhor Pemberton estava sendo baleado. Só fui constatar que algo de grave havia acontecido quando o senhor Rupert me chamou, alterado, e eu percebi a senhorita Pemberton estava desmaiada, no sofá.
– Vou tomar seu tempo com apenas mais algumas perguntas que eu considero pertinentes a serem feitas ao senhor. – Lucchesi iniciou, inclinando-se para frente. Minha mão já doía de tanto escrever e, sinceramente, eu só podia odiá-lo. Contudo, eu esquecia de tudo aquilo conforme as perguntas dele iam sendo feitas. Eu ouvia os interrogatórios com a maior atenção possível. – O senhor Pemberton guardava alguma arma em seu quarto, nas gavetas da cômoda, por exemplo?
– Não havia qualquer coisa do tipo, uma arma de uso pessoal, entende? Mas o patrão gostava de caçar. E, assim, naturalmente, há carabinas e rifles, todos guardados muito cuidadosamente na sala de bilhar, ao final do corredor. Acho que é o único lugar dessa casa que fica trancado. Além de mim, somente o senhor Rupert tem a chave.
– O senhor Pemberton costumava trancar o próprio quarto?
– Ele era um homem reservado. Mantinha sempre a chave de seu quarto por perto, mas apenas trancava o cômodo quando saía para algum passeio, o que já era raro. Jamais ele se trancou no próprio quarto. – Eric explicou.
– Eu notei que há uma enorme suíte, logo ao lado do quarto do senhor Rupert e da senhorita Romero. Este é um quarto de hóspedes?
– É, sim, um quarto de hóspedes.
– Estranho... Há um terraço com vista para o mar. Por que ninguém ocupa aquele quarto?
– Era o quarto do senhor Pemberton e da esposa, Aino Pemberton. Após a morte dela, o senhor Pemberton preferiu não continuar mais dormindo ali e nenhum dos filhos pediu uma troca de quartos, por respeito.
– O quarto do senhor Rupert, antes de ele ser adotado, era usado por quem?
– Era o quarto de Emily Pemberton. Na realidade, tivemos que fazer a troca assim que o senhor Rupert se tornou noivo da senhorita Romero. Isso foi há cerca de um ano.
– A senhorita Pemberton não deve ter gostado disso, não é mesmo?
– Acho que ela jamais ralhou tanto com o pai, dizendo que não deixaria aquele quarto e que faria da vida do irmão "um pequeno inferno". A senhorita Pemberton é muito raivosa e impaciente, mas eu acredito que aquela decisão do senhor Pemberton foi mesmo muito injusta. Emmie acabou se acostumando após certo tempo. E por "se acostumando", eu quero dizer que ela não tocou mais no assunto. – disse Eric, com a mesma calma de sempre, ajustando seu terno.
– Essas perguntas são suficientes, no momento. Está dispensado. Por favor, chame a senhorita Vivian Pemberton imediatamente.
– Irei chamá-la, senhor.
Ele se levantou e saiu. Eu finalmente repousei a caneta tinteiro sobre a mesa.
Lucchesi suspirou e disse, numa voz muito baixa:
– Os mordomos costumam saber tudo sobre as pessoas com quem trabalham. Eu me pergunto o que Eric esteja escondendo.
Fale com o autor