Diário de alguém
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Essa é minha história, sou um garoto, ou melhor eu era um garoto. Hoje sou um homem de 36 anos. Carrego comigo um profundo abismo escuro em meu peito. Não posso negar, tenho amigos, pessoas a quem amo. Só que a felicidade se resume a um limite de euforia momentânea.
A vontade de chorar é imensa, só que chorar é para fracos e tolos. Por isso me escondo quando lágrimas querem fluir de meus olhos castanhos escuros. Muitas vezes deixei a fraqueza tomar conta, disfarço com sorrisos em meio a lágrimas. Sou bobo, um tremendo idiota. Porque tenho é que agradecer a Deus sobre a proteção e saúde de minha família. E agradeço de todo o coração.
Hoje é natal, estou em casa. Digitando essas palavras que ninguém irá ler. Se por alguma eventualidade o lerem, peço perdão em abordar esse sentimento tão intimo meu. E minhas lamúrias que por ventura os deixarem fatigados. Vou começar desde o início, da minha infância, do meu passado. Passado esse que ainda me atormenta. Não sofri abusos, não passei fome, não fui vitima de nenhum tipo de violência ou testemunha de algum assassinato.
A vida simplesmente me mostrou o outro lado da moeda, um lado mais sombrio em relação ao amor, aos sentimentos. Ainda hoje estou sozinho, meu irmão adotivo caçoa de mim. Um homem de 36 anos, que nunca namorou. Uma vergonha? Talvez para muitos eu o seja, porque não me enquadro na sociedade. Não sou gay, e mesmo que fosse não seria nenhum problema, desde que a felicidade fosse plena. Como posso falar dela, da felicidade, se a compreendo tão pouco. Seria sensato dizer que não compreendo o amor. Ah, o amor!
Que mistério se esconde por detrás dessa palavra? O que é amar alguém? Sentir o que os personagens de filmes, desenhos, seriados nos passam. Neles o amor vem sem acompanhado de muito sofrimento. Uma dor tão excruciante que parece que querem arrancar de seu peito os batimentos acelerados e descompassados do nosso coração. O meu é dolorido também, é uma dor estranha no peito e não é ataque cardíaco não. É a dor de um vazio, a falta de alguém que lhe complete.
Será que minha vocação seria a batina? Duvido muito, sorrio nesse momento lembrando dessa minha mente muito maliciosa. Por isso jamais poderia trilhar o caminho em que os padres fazem votos.
Quando eu tinha meus 7 anos, não lembro bem a idade, só que lembro muito bem do meu peito segurando meu pai, impedindo mais uma das brigas diversas que tinha com minha mãe. Naquele momento eu senti meus próprios batimentos acelerados, minha boca encostando nas costas dele, sufocando meu pedido. Um pedido mudo de “Não faça isso papai”.
Pode até ser que a religião salve muitas almas, só que essa religião só deixou meus velhos um pouco desequilibrados mentalmente. E até mesmo eu. Porque eu acreditava, e talvez ainda acredite. Coisas estranhas presenciei, se alguém o fez, até hoje não sei.
Na escola era rodeado de amigos e amigas, só na hora de formar grupo de trabalho. Porque eu era um bom CDF, e nessa hora eu adorava ser procurado e ver todas aquelas crianças se debaterem para ficarem em meu grupo. Mas era apenas nesse momento, depois o vazio novamente tomava conta de mim.
Isso não foi diferente no antigo segundo grau. E nem mesmo no emprego.
Só que no segundo grau comecei a cobrar os trabalhos que fazia, mesmo por uma caixa de bombom ou por um dinheiro.
Não sou um cara estranho, pelo contrário, sou falante, comunicativo, adoro rock n’ roll, clássicas, e algumas bandas brasileiras. Só que não consigo me enturmar. Se fico em um lugar com os amigos por mais de 2 horas, fico entediado. Morto de vontade de voltar para casa, de deitar e relaxar em minha cama. Só que aí, bate a solidão. Então procuro sempre fazer alguma coisa, jogar no play 3 resolve, mas tudo tem limite, e o mundo virtual acaba, deixando aquele ar de derrota.
Nunca pude levar um amigo(a) para casa, já que ainda moro com meus pais. Seria stress na certa. Talvez a felicidade também dependa de me desvincular dos laços materno e paterno. Sempre pensei nisso, e por que não o fiz? Acredito que se o fizesse meus velhos ficariam malucos, mais do que já são, tenho que rir. Talvez eu seja o louco!
A verdade é que quando eu era mais jovem, sempre tomava as decisões. Aos 20 anos sustentava a casa com 4 pessoas incluindo eu mesmo. Passei a tomar providencias que antes era meu pai quem as tomava. Ele era o meu herói, me ídolo. Hoje depois de tantos percalços, não é mais.
Não fugi das minhas emoções ao contrário procurei ajuda profissional quando rompi essa barreira. Se foi fácil falar? Nem um pouco, ainda mais para alguém que nunca vi. Só que pelo mesmo motivo de nunca o ter visto, a conversa começou a fluir e junto a ela a reflexão dos meus atos, de minhas falhas. E descobri que nem tudo era minha culpa, foi relaxante.
Dois anos de terapia, se a sensação passou depois disso? Não nem pensar, mas consegui trabalhar com ela, e essa escuridão faz parte de quem sou, eu a criei e alimentei e talvez se ela sumir... um pedaço de mim também se perderá.
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