Diário de Uma Semideusa
4 A Seleção
Ao chegarmos do outro lado do lago, seguimos por uma espécie de túnel que adentrava o penhasco no qual o castelo estava localizado. Paramos para desembarcar num cais ali. Subimos por uma passagem aberta na rocha, Log me puxando pelo braço, até chegarmos no gramado próximo ao castelo.
Hagrid nos guiou até as grandes portas de carvalho logo à frente, onde uma bruxa alta e de ar imponente nos aguardava.
– Boa noite, bruxos e bruxas, semideuses e semideusas. Sou a professora Minerva McGonagall. Sigam-me. — A bruxa guiou-nos portas adentro, passando por um grande saguão de entrada, até pararmos numa sala vazia ao lado. A professora retomou a palavra. — Bem-vindos à Hogwarts! O banquete de início de ano letivo começará em instantes, mas antes vocês serão selecionados para suas casas, que são Corvinal, Grifinória, Sonserina e Lufa-Lufa. — Logan havia me falado um pouco sobre isso, durante a viagem. — Enquanto ficarem em Hogwarts, ela será uma espécie de família. Vocês assistirão às aulas com os outros alunos de sua casa, dividirão o dormitório e passarão o tempo livre na sala comunal com eles. Seus acertos renderão pontos para sua casa, enquanto os erros a farão perder. No fim do ano, a casa com mais pontos ganha a Taça das Casas. A Cerimônia de Seleção começará em minutos, e voltarei para buscá-los quando estivermos prontos.
A professora, então, se retirou da sala.
– Qual o critério dessa seleção? — Perguntei à Logan.
– Cada casa tem suas características. A Grifinória, por exemplo, é a coragem; Corvinal, a inteligência, e por aí vai.
Assenti, mas fiquei temerosa. Como eles iriam nos separar, então? Era algum tipo de teste? Borboletas pareciam fazer festa no meu estômago. Logan, ao meu lado, permanecia inexpressivo, como se nada de diferente estivesse acontecendo.
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Poucos minutos depois, felizmente, a professora McGonagall reapareceu.
– Estão prontos? — Alguns murmúrios de concordância. — Ótimo. Façam uma fila e venham comigo.
Enquanto a festa das borboletas na minha barriga continuava, seguimos a bruxa de volta ao saguão de entrada e através das portas duplas do Salão Principal. E que lugar incrível era aquele tal Salão. Passamos por quatro mesas compridas, onde os bruxos — ou semideuses que ainda não sabiam quem era seu pai ou mãe — se sentavam de acordo com suas casas. Um pouco à frente, haviam doze mesas menores — as dos semideuses reconhecidos por seus pais olimpianos. Os alunos batiam palmas enquanto passávamos por eles.
Paramos no outro extremo do salão, de costas para a mesa dos professores. O mar de capas pretas nas mesas à frente se acalmou assim que a professora trouxe um banquinho de quatro pernas, e pousou sobre ele um velho chapéu pontudo.
– A medida em que eu chamar seus nomes, vocês deverão sentar-se aqui e colocar o chapéu. — Ela desenrolou um pergaminho e leu: — Becky Brooks.
Uma garota alta saiu da fila balançando seus cabelos castanho-claros, e colocou o chapéu na cabeça enquanto se sentava. Logan se agitou um pouco, com ar impaciente e a testa franzida. O Chapéu Seletor abriu um rasgo e começou a falar, baixinho, através dele. Logo em seguida, porém, falou “Corvinal!” em alto e bom som.
– Logan Dempsey — chamou a professora. Logan deu de ombros e foi até o banquinho. Mais uma vez, o chapéu murmurou um pouco antes de anunciar “Sonserina!”
Log levantou-se, ainda inexpressivo, e foi em direção ao mar de capas pretas à nossa frente. Não vi onde ele se sentou, pois o próximo nome acabara de ser chamado. E era o meu.
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Engoli em seco, sentindo que meu rosto ficava ainda mais pálido, e fui até o banquinho. No momento em que coloquei o chapéu, seu rasgo/boca abriu-se e começou a murmurar.
– Vejamos… Hmm… Interessante… Talvez… Não, melhor não. Você vai para… Grifinória!
“Tá legal, não foi tão ruim assim” foi a única coisa na qual consegui pensar. Os alunos aplaudiam, principalmente os da Grifinória. Coloquei o Chapéu Seletor de volta no banquinho e fui sentar-me à mesa de minha Casa.
As atenções agora voltavam para o próximo novato a ser selecionado, o que me fez suspirar de alívio. Foi só então, quando alcancei a mesa da Grifinória, que percebi o céu acima de mim.
– Não pode ser o céu de verdade… — Pensei em voz alta.
– Claro que não é — respondeu o rapaz sentado ao meu lado, rindo. — O teto foi enfeitiçado.
– Claro, feitiços. Por que não pensei nisso antes?
– Só te perdôo por ser uma semideusa.
– É assim tão óbvio? — Senti minhas bochechas corarem sob as sardas quando ele piscou para mim. Era um rapaz bonito de olhos verde-claros, seu cabelo loiro ondulado brilhava contra as luzes do salão. — Oi, sou Cecília.
– John Reed — respondeu ele, apertando minha mão e sorrindo.
Olhei em direção às mesas dos semideuses, à procura de Logan. Algumas delas estavam cheias de alunos, outras com apenas dois ou três, outras sem ninguém. Logan sentava-se sozinho.
– Por que Logan está sozinho naquela mesa?
John seguiu meu olhar antes de responder.
– Ué, ele é filho único.
Aquilo não era assim tão óbvio para mim quanto parecia ser pra ele. Algo, então, me ocorreu.
– Filho de quem?
– De Zeus.
Engasguei. Zeus?
– Zeus?
– Sim — mais uma vez, ele riu. — Não sabia? Você é a semideusa aqui, eu sou só um bruxo.
Tive que rir também.
– Você é um semideus melhor que eu.
***
Após o jantar, o monitor-chefe de minha nova Casa nos levou até a sala comunal, na Torre da Grifinória. Dali, subi as escadas em espiral que levavam aos dormitórios. Qual será o meu?, pensei, enquanto passava em frente aos quartos à medida em que avançava. Escolhi um ao acaso, e abri a porta. Era um belo cômodo decorado em vermelho e dourado, com quatro camas circundadas por cortinas rubras. As malas, pelo visto, já tinham sido trazidas; sob uma das camas, estava minha pequena e rasgada mala azul.
Adentrei o quarto, sorrindo. Já havia uma garota ali, sentada em uma das camas.
– Olá! — Eu disse. Ela se exaltou um pouco, mas se recompôs e sorriu. Tinha os cabelos pretos chanel.
– Oi! Desculpa, não vi você entrar aqui…
– Tudo bem. Me chamo Cecília Guérisser.
– Elizabeth Park, prazer! — Respondeu a garota, apertando minha mão. — Você é uma bruxa também?
– Não não, sou semideusa. Só não sei ainda quem é meu pai.
– Verdade? — Seus olhos verde-folha brilharam de excitação. — É a primeira vez que divido o dormitório com uma semideusa!
Ri daquilo. E senti que Elizabeth e eu seríamos boas amigas.
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