Nunca me imaginei matando um zumbi. Sério, eu pensava que esse era o tipo de coisa que nós víamos apenas nos jogos de videogame ou em filmes. Aquele tipo de cena tosca na qual você sente mais graça do que repulsa. Aqui estava eu, correndo por becos, me esgueirando entre carros nas ruas e correndo de alguns zumbis. Não haviam muitos zumbis nas ruas como eu tinha visto mais cedo no noticiário, isso era bom, afinal, eu mal conseguia abrir uma lata quanto mais, matar um zumbi. Mas então, eu fui surpreendido. Enquanto corria em direção à zona de quarentena, me vi preso num pequeno beco sem saída e para melhorar a situação, ouvi sons de zumbis vindos na minha direção. Olhei para trás, e vi dois zumbis vindo na minha direção. Meu coração quase parou de bater no momento, eles estavam vindo lentamente enquanto soltavam grunhidos ou sei lá o que aquilo era. Pensei "Willian, é agora ou nunca" e saquei a faca inglesa do meu avô, e fui em direção ao meu primeiro zumbi. Na boa, meses assistindo séries de zumbi me ajudaram muito. Eu sabia que deveria acabar com a cabeça do zumbi para que assim ele moresse e sabia que tentativas em outras partes do corpo seriam em vão.
Tudo bem, isso não saiu da maneira que eu esperava. Eu tropecei na metade do caminho e a faca voou na direção oposta na qual eu estava indo. Tentei me levantar, mas não consegui, por algum motivo meu corpo se recusava a levantar talvez devido ao medo. O segundo zumbi começou a andar mais rapido a medida que se aproximava de mim, e eu pensei em sacar a outra faca. Quando eu estava pegando a outra faca para contra-atacar, ouvi sons de tiros e logo menos os zumbis estavam mortos. Levantei rapidamente, ofegante e com o coração à mil.
– Você sabe que não deveria estar aqui, não é mesmo garoto? — disse uma voz atrás de mim. E logo menos, revelou ser de um homem. Ele era loiro, olhos azuis claros, usava Jeans, All-Stars, um óculos, e uma jaqueta dos lakers. — Há um apocalipse aqui fora, não se pode ficar brincando de pega-pega com zumbis famintos, sabia?
– Quem é você? — perguntei. — O que está acontecendo? De onde surgiram esses zumbis?
– Meu nome é Guilherme Santos e assim como você, estou tentando sobreviver. — respondeu ele. — Venha comigo, não juntei muito suprimentos, mas tenho uma quantia que poderá durar por umas semanas. — Então ele entrou no prédio, e eu o segui.
Adentramos num corredor estreito e escuro e no final havia uma escada. Parecia que o prédio era uma espécie de escola, com a diferença de que não havia salas nem armários. Eu fui seguindo-o em direção às escadas.
– É aqui que eu estou me abrigando por algum tempo. É uma espécie de lavanderia no andar superior, aqui em baixo temos apenas o gerador que com sorte, eu estou quase ativando novamente. — afirmou ele. Subimos até o andar superior no qual se revelou uma lavanderia grande e toda barricada: janelas e portas fechadas com madeiras e máquinas de lavar. Uma placa indicava que o local estava fechado para reformas, o que explicava a grande quantidade de latas de tinta e papel no chão.
– Parece que você está meio tenso, não é mesmo? Onde está a sua famíia? — perguntou ele.
– Eles fugiram hoje mais cedo, quando tudo virou esse caos e estou indo atrás deles na zona de quarentena 13. — respondi. Ele apenas riu. — Qual é a graça? Algo de errado? — perguntei. Ele sentou numa lata de tinta amarelo-ouro.
– E como você pretende chegar até lá? A ponte Porter que dá aceso à Zona Sul está totalmente bloqueada. Ninguém consegue passar por lá porquê o governo considera parte da Zona Sul.... "segura" digamos.
– Eu não sei. Se isso que você disse é verdade, e se a Zona Sul estiver lacrada, deve haver um jeito de entrar lá. Não é possível que só haja a ponte como entrada principal. — eu disse com certeza na voz.
– Claro que deve haver outro jeito, meu querido. Porém, não é apenas a ponte Porter que está fechada. Todas as outras vias de acesso para aquele lugar estão fechadas com força máxima do exército. Mas como parece que você precisa da sua família então, tente ir pela vigésima quarta avenida. — ele levantou e caminhou até um mapa preso na parede. — Hum... É, a vigésima terceira não é boa escolha, muitos zumbis.... Hum... Sim, tente pela vigésima quarta avenida , lá há uma pequena ponte desativada que cruza o rio Pinheiros e leva até lá.
Me levantei e fui em direção ao mapa.
– Parece mesmo a minha melhor opção. — observei o mapa. — Mas por quê você está me ajudando? Nem ao menos nos conhecemos direito.
– Ah, não se preocupe. Sou uma boa pessoa... até certo ponto, claro.
Guilherme mal terminou sua frase, quando subitamente uma janela sem proteção foi quebrada. Mãos invadiram a sala pela janela, e logo percebemos que os zumbis haviam chegado.
– Droga! Droga! Olha, Willian escute, preciso fechar aquela Janela antes que mais zumbis apareçam, ou pior, eles entrem aqui e nos comam vivos. Atrás de você há munição para revolver, pegue o que precisar, a situação requer isso. — disse ele enquanto me sacudia. Corri até as munições na máquina peguei o equivalente a 2 pentes e carreguei meu revólver. Guilherme correu para a Janela para tentar eliminar os zumbis, mas antes que eu pudesse ir ajudá-lo a porta foi derrubada por dois zumbis famintos. Eles foram rapidamente em direção a Guilherme, e ele foi pego de surpresa. Sua arma estava sem balas, e os zumbis pularam em cima dele. E antes que eu pudesse atirar nos zumbis, Guilherme disse "corra...agora..."
Eu sabia como manusear uma arma, meu pai havia me ensinado quando eu tinha nove anos e íamos caçar fora da cidade. Então aquilo, certamente, não era novidade para mim. Destravei a arma, e atirei na cabeça do primeiro zumbi que caiu morto à esquerda. Atirei na cabeça do segundo zumbi que caiu morto em cima do outro. Corri para Guilherme, mas era tarde, ele já estava morto e não havia nada que eu pudesse fazer.
– Não! Não, não, não! — gritei. — Porém, no momento muitos zumbis invadiram o local e então fui em direção às escadas até o andar inferior e corri até a saída.
As ruas não eram mais seguras. Para onde quer que eu olhasse, haviam zumbis. Eu tinha certo medo de ser devorado por eles, mas não podia parar, eu tinha que chegar até a Zona Sul, tinha que encontrar meus pais. Sai correndo pelo beco entre as avenidas Lacerda e Peixoto e continuei sentido sul até chegar no rio Pinheiros. Andei alguns metros pela margem direita do rio, até finalmente chegar numa pequena ponte que cruzava o rio. A ponte era pequena e feita de pedra, a correnteza lá em baixo estava mais forte e me assustava. Cruzei a ponte cuidadosamente até o outro lado e entrei na rua Tavares, e advinha, a rua estava vazia por incrível que pareça. Fui caminhando devagar pela rua, o sol já estava quase se pondo e deveria faltar apenas alguns minutos para o anoitecer. Quando de repente, um grupo de motos virou a esquina da rua à minha frente me fazendo parar e recuar um passo para trás. As motos formavam uma espécie de linha composta por 5 motos pretas do tipo Harley Davidson. O motoqueiro do meio parou e os outros fizeram o mesmo, supostamente eles seguiam o líder.
– Quem é você? — perguntou o motoqueiro do meio. Ele usava uma jaqueta de couro preta na qual lia-se "Team 99", um óculos escuro redondo, Jeans, uma bota preta de couro, uma pulseira de espinhos, acessórios e tinha um piercing no canto direito da boca. — Eu fiz uma pergunta, quem é você?
– Wi...Willian senhor... — hesitei.
– Por acaso você está querendo cometer suicídio?
– N-Não senhor. Eu estou apenas tentando chegar à Zona de Quarentena 13.
– Ah, tentando ir até aquele lugar estúpido. — disse ele enquanto tirava da jaqueta um cantíl de uísque e bebia um gole — ah, bem melhor assim.
– O senhor já foi lá? Por quê seria... "estúpido?"
– Ah, não fui e nem quero. Pelo o que eu sei, aquele lugar não aceita mais ninguém. Questão de "poucos suprimentos". — disse ele em tom de braveza. — desde então prefiro viver sozinho com o meu grupo, buscando suprimentos e sobrevivendo juntos. Não precisamos deles, pode ter certeza.
– Ah... Entendo. Mas... você não me disse o seu nome? — eu disse, um pouco nervoso.
– Juan, Canni Juan. Pode me chamar de Canni. E estes são, Gustavo, Leonardo — ele apontou para os dois motoqueiros da esquerda. — e estes Éverthon e Eduardo. — ele apontou para os outros dois da direita.
– Hey! — disse Gustavo.
– Tudo bom? — perguntou Leonardo.
– Eae maninho. — falou Everthon.
– Oi! Tudo certo???? — perguntou calourosamente Eduardo, que tinha cara de ser gente boa.
– Estamos saindo de São Paulo, vamos rumo à Bertioga procurar por uma amiga nossa. — disse Canni.
– Sim, infelizmente perdemos contato com ela após tudo isso começar ontem. — disse Eduardo em tom triste.
– Espera, mas isso não começou hoje? -perguntei confuso.
– Na verdade, começou ontem mas as forças do governo só tiveram conhecimento esta manhã. É questão de tempo para que isso se espalhe pelo globo. — disse Leonardo.
– Exato Lelo, isso não vai demorar muito para atingir outras partes do globo. É questão de tempo para que isso se torne uma guerra. 3ª Guerra Mundial talvez? — disse Canni. — Enfim garoto, nós temos que nos apressar, a noite vem aí e temos que chegar na rodovia antes do pôr do sol. Queria poder te ajudar, mas temos que ir. E eu não iria naquela Zona nem que me pagassem!
Os outros fizeram que sim com a cabeça.
– Ok. Obrigado... Eu vou... Vou indo, então... hã... Obrigado pelas informações. — eu disse.
– Que nada. E ah, se eu fosse você buscaria abrigo até o amanhacer. As coisas ficam complicadas durante a noite, o exército vai as ruas e digamos que... Bem, eles atiram em tudo que se move. Estamos indo nessa, garoto! — disse Canni enquanto jogava o cantíl de uísque fora.
– Okay, obrigado. Farei isso. Até... hã.. a próxima, talvez.
– É, quem sabe. — disse Canni enquanto acelerava a sua moto. E então, partiu com os outros rua abaixo. Eu os observei até onde a minha vista alcançava. Depois disso, sai em busca de um abrigo para passar a noite.
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