Diário de Rosalya
2 Recepção calorosa
Pensei em possíveis nomes para você, afinal, iniciar sempre com "querido diário" é chato e cansativo, na verdade chega a ser um pouco infantil. Por isso, te batizo agora como ''QR''. É bonitinho.
Mas então, tô no avião agora. Sinto o ar diferente. Talvez seja por causa da pessoa maldita que está comendo aqueles salgadinhos fedidos de queijo. Ai que ódio.
Não sei em que pedaço do céu nos situamos agora, mas cada vez mais distante, coração tá apertando. Tenho a sensação de que é apenas uma viagem, de que logo vamos voltar para a Rússia. Porém é definitivo.
Aaaaaaah
É estranho como a situação parece com aquelas comemorações de final de ano, quando vamos visitar meus avós franceses, e e eu te levo para rabiscar durante o caminho. No entanto, não é a mesma coisa.
Não vamos morar tão perto deles — avós. Outro ponto negativo. É longe do trabalho do papai.
(...)
— É bonita. — disse sem ânimo.
— Só bonita? — minha mãe indagou.
— Tá, ela é muito muito bonita. — cruzei os braços.
A casa era maior do que a nossa antiga, e estava parcialmente mobiliada. A bancada da cozinha estilo americana era o que separava a mesma da sala de jantar, que continha uma mesa de oito lugares. Exagero. Sem contar com o lustre em cima dela. A outra sala também era enorme, não tinha tevê, somente sofá e um tapete que cobria quase o chão todo.
No segundo andar ficavam os quartos. Não havia nada de espetacular lá, apenas quartos brancos, crus.
— Filha, faça um esforço, por favor. — meu pai encarou. Dava para ver uma pontinha de decepção em seu rosto. Com certeza era por minha causa, por não estar aceitando aqui. Droga, Rosalya, droga! Não seja mimada! Não seja mimada! — Só queremos o melhor para você. — tocou em meu braço.
— Ah, tá bom! — me rendi — vou conhecer o bairro, tá bom? — ele sorriu.
— Você vai adorar! — minha mãe sorriu.
— É questão de tempo até você se acostumar.
— Vai lá, depois conta como foi. Se cuida, filha. — ela mandou beijinhos.
(...)
Saí ainda com os braços cruzados. Vestia um casaco, mas na cidade não fazia tanto frio.
Vou derreter com essa roupa.
Retirei o traje e amarrei na cintura. O colar que meus amigos haviam me dado estava radiante, era o que mais chamava atenção em mim. A luz do Sol contribuiu para deixá-lo mais cintilante.
Sorri lembrando das circunstâncias que o recebi, porém logo reparei que precisava andar.
Casas, casas, casas e mais casas. O caminho para as lojas deve ficar do outro lado. Droga.
Parei de caminhar na tentativa de me localizar mentalmente. Pra que lado eu tenho de ir mesmo? Como volto para casa?
Em uma fração de segundo, vi um vulto preto e senti uma leve pressão no pescoço. O toquei desesperada.
Droga, o colar. Ele pegou meu colar.
— Ei! Volta aqui! — corri atrás dele. Filho da mãe. Não acredito. — FILHO DA MÃE, VOCÊ NÃO ESCAPA!
O garoto era rápido, mas eu estava quase o alcançando antes dele atravessar a rua. Um carro maldito passou entre nós, aumentando a distância.
Droga.
Corri o mais rápido que pude, sem me importar de atropelar as pessoas que passavam.
Faltava pouco para pegá-lo. Somente um pouquinho mais. Quando fiquei perto, quase o encostando, tropecei.
Droga. Droga. Droga. Tentei levantar o mais rápido possível e me recompor. Ele estava muito longe agora. Merda.
— ALGUÉM SEGURA ELE! ELE ME ROUBOU! — gritei despertada, na esperança de alguma ajuda. Mas nada. Ninguém fez nada. Eu já não podia mais alcançá-lo.
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