Diário de Alphonse Wilborn, 1948
2 Capítulo II
Por algum motivo, o escritório do meu pai sempre me perturbou. Sim, era um cômodo escuro, um tanto macabro com aquela cabeça de cervo na parede, e alguns pequenos pássaros empalhados e posicionados sobre o console da lareira, mas por algum motivo, não era aquilo que me incomodava. Havia algo sombrio naquelas prateleiras atulhadas de livros velhos, naquele cheiro persistente de mofo misturado a naftalina, naquelas lombadas de centenas de livros, sorrindo para mim como uma imensa boca cheia de dentes escuros. Ainda assim, nunca me dei o trabalho de olhar os títulos presentes naquela prateleira um a um. Talvez já tenha retirado um livro ou outro e folheado rapidamente, mas nada que minha memória consiga resgatar. Apenas sei que aquela estante me perturbava de uma maneira inexplicável.
Após a morte do meu velho, ele deixou aquela casa para mim como herança, e, juntamente a cada quarto, sala e banheiro, herdei seu escritório. Maldito escritório. Quisessem os deuses que um incêndio consumisse todas aquelas páginas, em especial aquele livro maldito que ficava na prateleira mais alta, cujas páginas deram início a toda essa insanidade.
Deixei aquela casa, localizada próxima ao Bayou, abandonada por anos a fio, e construí minha carreira como gerente no Orleans State Bank, um banco em ascensão, que nasceu logo após a retomada da economia após a queda da bolsa, em 1929.
Era um jovem bem-sucedido, mas, apesar do meu desejo de constituir uma família, nunca cheguei a fazê-lo. E hoje, agradeço aos deuses por não ter conseguido. Imagino que os acontecimentos que se sucederam assim que resolvi retornar àquela casa teriam destruído também minha família, caso tivesse alguma.
Com um bom emprego e com a economia do país se recuperando, especialmente após o final da segunda grande guerra, resolvi mudar de ares e dar uma chance àquela casa. Já faziam anos que evitava aquele local, mas com uma boa reforma, certamente meu desconforto desapareceria por completo.
Vendi o pequeno, mas simpático apartamento onde eu residia, que ficava a alguns quarteirões do banco, e fui para a velha casa que herdara de meu pai. Amaldiçoo o dia em que fiz essa infeliz escolha! Como queria que a casa apenas desabasse de velha, que aquele escritório ardesse em chamas e nada mais sobrasse dele além de pó! Mas, infelizmente, as coisas não acontecem da forma que queremos. Não há mais espaço para lamentações, o que aconteceu, aconteceu.
Lembro-me bem do dia que estacionei diante dos muros daquele casarão. Os portões de ferro, cerrados com a mesma corrente e os mesmos dois grandes cadeados que pus ao sair daquela casa, logo após a morte do meu pai, ainda estavam de pé, mesmo que enferrujados e gastos pela ação do tempo. Aparentemente, o sr. Cleveland não havia visitado muito o local, para cuidar e mantê-lo minimamente habitável durante minha longa ausência. Há de culpar também a mim mesmo, que nunca sequer fiscalizei suas vindas ao local, que estava ainda mais soturno do que anos atrás.
Com certa dificuldade, consegui abrir os cadeados, que não possuíam lubrificação alguma. Um estalo metálico, semelhante ao de um cartucho saltando de um rifle ao ser disparado, marcou o momento em que as duas peças de um dos cadeados se desfizeram, uma delas caindo pesadamente no chão, enquanto outra saltara passando a centímetros da minha orelha esquerda. Tirei a pesada corrente do entorno dos dois lados do portão, coloquei-a pendurada num gancho que ficava próximo ao ferrolho, que já não se movia devido à ferrugem, e empurrei os pesados portões. De lá, observei aquela escura janela no andar superior da casa. Uma janela quadrada, cujos vidros estavam enegrecidos pelo breu do interior. Aquela janela, como um olho que brotara do tijolo, me observava com a malícia de um predador prestes a atacar sua presa indefesa.
Após alguns segundos encarando aquela janela, respirei fundo e andei, resoluto, em direção à porta. A aldrava em forma de gárgula, com seus dentes prendendo um grosso anel de ferro, curiosamente, estava nova, intacta, da forma que havia deixado anos atrás, se não mais nova. Estava estranhamente brilhante, mesmo naquela luz velada pelas nuvens pesadas de chuva que despontavam no céu. Bati a aldrava na madeira firme da porta uma ou duas vezes, para verificar se o sr. Cleveland estava por lá. Ninguém respondeu, então peguei o molho de chaves que guardara para caso retornasse, escolhi uma chave e girei no mecanismo da porta que, acompanhado de um estalo metálico, abriu. Empurrei-a enquanto minha garganta apertava. Nunca me senti bem naquele lugar, sabe-se lá o porquê, e não seria naquele reencontro que as coisas mudariam.
Ao abrir a porta, o cheiro de mofo e de algo podre imediatamente invadiram minhas narinas, e comecei a espirrar. A luz que entrava pela porta delineava uma linha perfeita até o relógio que ficava do outro lado do hall..
Devagar, entrei e acionei o interruptor que ficava ao lado da porta, e, para minha completa surpresa, as luzes amareladas presas por suportes de cobre no teto acenderam sem dificuldade alguma. Era como se fossem novas, recentemente trocadas. Apesar do descuido com a parte externa da casa, especialmente os portões e o jardim, que não mais exibia as belas rosas e margaridas que minha saudosa mãe cultivava, o zelador manteve o interior da casa praticamente intacto.
O relógio de pêndulo tiquetaqueava do outro lado da sala. Um tiquetaque fantasmagórico como passos de um espírito agourento. Todos os móveis estavam descobertos, e o piso, apesar de alguma poeira acumulada, estava bem conservado, na mesma tonalidade de carvalho que lembrava quando brincava com meus carrinhos de metal naquele mesmo hall, quando criança.
Após olhar de relance a sala de jantar e a cozinha, subi um dos dois lances de escada que ladeavam o hall. A cada passo, a madeira rangia suavemente. Finalmente estava no piso superior. Logo, e poderia dizer, caso fosse humanamente possível, contra minha vontade, meu olhar logo dirigiu-se para uma porta que ficava à minha esquerda. Uma porta no fundo do corredor ladeado por quartos. Uma porta que me trazia um arrepio na espinha. Uma porta negra, cuja maçaneta dourada era ornada pela misteriosa figura de uma cabeça de polvo com asas de morcego, destoando de todo o resto das maçanetas da casa. O escritório do meu pai. O cômodo que deu início a toda esta loucura, e que, em pouco tempo, selaria meu destino.
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