Diário de 83

4 Um Amigo Para Chamar de Meu


Notas iniciais
Ooi gente, mais um capítulo pra vcs ♥ Vamos ver a interação do Morten com novos amiguinhos u3u Boa leitura! ;)

Los Angeles, Califórnia – 13:46 hrs

1 de janeiro, 1983

Depois das festas de fim de ano, meu corpo estava inteiramente fatigado.

Um dia antes, eu estava mandando presentes e cartas para os meus parentes em Kongsberg. Branca era um assessor incrível e pagava todas essas despesas pra mim, ao menos até eu começar a ganhar meu próprio dinheiro! Depois de tentar aproveitar a minha maravilhosa “reclusão” em um dos melhores hotéis na cidade dos anjos (tomando champanhe e dançando sozinho no quarto que nem um velho solteiro), eu apaguei num sono profundo e agora estou aqui, com uma ressaca fodida e sem ideia do que fazer nesse resto de feriado.

Sei que o John não vai querer saber de trabalho hoje, eu acho, mas eu estou fervilhando de ansiedade, mesmo que meu corpo ainda esteja dormindo. Me levantei com todo o mau gosto do mundo e fui tomar um banho frio pra me despertar.

— Ah! F-frio… demais…

Puxei a toalha e enrolei na cintura. Pedi pra entregarem o café da manhã no quarto e fui preparar minhas coisas pra sair. Vesti uma calça, as minhas botas e estava escolhendo a camisa quente quando ouvi o sinal tocar.

Jeg er på vei!

Ah, meu costume de achar que ainda estou em casa… Já imagino a cara que ela deve ter feito. Fui assim mesmo. Abri a porta e torci pra ser a atendente bonitinha do térreo.

E era mesmo ela.

— Oi…

Sorri. Ela sorriu de volta e passou os olhos em mim, de cima a baixo. Eu pensei que ela tivesse gostado de alguma coisa que viu em mim, mas aquela sobrancelha arqueada seguida do sorrisinho lindo de anjinho só podia significar uma coisa: “você bebeu?”

— Você bebeu?

— O quê? Por quê?

— Porque você está sem camisa, com o zíper aberto e tem sorte de ter se lembrado de pôr a cueca, porque, se estivesse sem, iria ser preso por importunação sexual.

Ela respondeu, mantendo aquele sorriso diabolicamente angelical que me fazia questionar como as mulheres conseguiam ser tão… tão… assim! Eu fiquei tão atordoado com a resposta que precisei de um estalo pra me lembrar de que eu quase parecia um maltrapilho.

— Ah, er… desculpa!

Me virei e fechei o zíper. Ela riu e adentrou o lugar, a gente já tava conversando desde que eu cheguei, então eu sentia que ela parecia um pouco mais à vontade comigo.

— Aqui o seu café. Eu espero que goste de brioches polvilhados.

— Se foi feito por você, benzinho…

— Na verdade, foi feito pela tia Lucy. E eu espero que você coma tudo, porque ela vai ficar bem chateada se não comer.

Ao ouvir o nome daquela mulher, senti um arrepio subir a espinha. Eu discretamente balancei a cabeça.

— Ahr, aquela mulher me odeia.

— Ela acha que você é mais um desses baderneiros do rock.

— Eu ia adorar ser, mas nem roupa de rockeiro eu tenho. Uma jaqueta preta de couro me faria bem — murmurei, enquanto mordia um daqueles pãezinhos.

— Quando começar a ficar famoso, quem sabe você compre uma.

Ela saiu depois de deixar as coisas. Assim que pôs o primeiro pé para fora, eu senti um impulso nas minhas pernas, meu corpo estava agindo antes dos meus pensamentos. E era uma coisa que eu queria fazer há um tempo já…

Eu precisava chamar ela pra sair.

— Judy! Eu… er, Judy, não é? — passei a mão na nuca enquanto ela se virava pra mim, parecia já estar esperando o convite, as mulheres são muito espertas — Você tá livre hoje à noite?

Percebi o sorriso dela se alargar.

— Hoje, Morten? Hoje eu tenho que trabalhar até tarde, infelizmente vai ser assim durante todo o período de férias. É o que acontece quando se trabalha em hotel, os feriados dos outros são os seus dias de trabalho.

Suspirei. Que vacilo.

Drittsekk…

— Olha… eu tô livre no outro sábado. A gente pode sair pra dançar, o que acha?

Dançar? Putz, não é minha praia… mas eu não recusaria.

— Feito. Te pego às oito?

Fiz a pergunta clássica norte-americana, e acho que ela percebeu a brincadeira, porque eu não consigo esconder a minha sobrancelha arqueada e o meu olhar de cínico quando tento segurar uma risada.

— Como se você fosse sair desse lugar… Um dia eu vou descobrir um estereótipo norueguês e vou tirar sua paz.

Ela brincou, rindo em seguida, e foi assim que nos despedimos, com aquele lindo sorriso desaparecendo pelos corredores vazios daquele hotel. Eu suspirei, ainda é cedo pra falar em amor, mas ela é bem legal. Fechei a porta, fui me vestir e saí apenas com a minha Canon envolta do pescoço. Eu sei lá o que eu ia fazer por ali, estava esperando o Branca resolver a burocracia maior, então aproveitei para turistar.

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14:01 hrs

"Click!"

Tirei mais uma foto dos brotinhos na vitrina da floricultura do shopping. A vendedora deve pensar que eu sou doido, mas naquele país até as plantas são artificiais, sinto falta de algum jardim ou alguma flor que não fossem as mal cuidadas da rua.

Saí meio cabisbaixo. Fora as lojas de flores e as de disco, não tinha ali outra coisa que me interessasse. Pensei em dar uma volta pela orla da praia, mas, antes que eu realmente fosse embora, vi um burburinho se formando na Mini Epic Records, a lojinha de discos de vinil. Sendo bem sincero… isso não me importaria muito se não fosse 1° de janeiro. O que diabos tinha ali que foi capaz de chamar tanta gente em pleno resto de feriado? Liquidação?

— Ei, moça, o que tá acontecendo ali?

— Não sei.

Ela saiu logo em seguida. Credo, que seca (depois dizem que os nórdicos são frios). Dei uma olhada nela, se vestia de forma engraçada: usava um vestido até os joelhos, um chapéu e um lenço sobre ele, enrolado até o queixo, além de óculos Ray-Ban (essa marca de novo… bem suspeito). Sei que ela sabia de algo, mas isso não importava, preparei minha máquina e me aproximei pra ver se conseguia tirar algumas fotos, naquele momento eu não tinha critérios, fotografaria qualquer coisa naquela cidade sem graça.

Quer dizer… sem graça era o que eu achava, não é? Pelo menos até ouvir uma voz bastante familiar…

— Morton!!

Fui puxado para aquela multidão.

— Ei!!

Tentei proteger minha câmera a todo custo, até conseguir entrar naquela loja. Um cara de terno cinza e óculos escuros se recompôs enquanto os seguranças faziam o papel deles. Do lado dele, tentando soar discreto, aquele mesmo moreno do Ray-Ban de algumas semanas atrás.

Ah, claro. Eu devia ter adivinhado…

— Michael, Morton. Morton, Michael. Já se conhecem, não é?

— Hurum.

Murmurei. O tal do Michael nem se mexeu.

— Ótimo. Morton, quero que dê uma olhada nisso. Estamos cercados por todos os lados, há fãs por praticamente todos os andares, eu terei que criar uma estratégia para levar o Michael para o veículo lá fora. Observe, um dia poderá ser você no lugar dele.

Segurei a vontade de revirar os olhos. Por que diabos esse cara tá falando como se fosse o líder de algum exército? O Michael parecia um pouco contrariado, pois virou o rosto e coçou o nariz.

— John, eu não quero ir embora. Ainda não olhei os brinquedos… — ele murmurou, quase sussurrando. Eu nem sei como consegui ouvir aquilo.

— Michael, não tem seguranças o suficiente para cobrir o seu passeio. Aproveite esse tempo enquanto eu chamo reforços, mas não posso deixar você aqui por mais que isso.

Ele bufou e levou as mãos aos bolsos, em seguida saiu pra um daqueles corredores. Branca ficou por ali, com aquele telefone portátil horroroso, andando de um lado pro outro. Eu puxei um bloco de notas pra anotar aquela loucura (é nele que eu faço um rascunho antes de passar pro diário), em seguida saí pra tirar umas fotos do lado de dentro da loja.

Era incrível! Parecia um apocalipse zumbi. Um monte de zumbis lá fora, loucos pra devorar as nossas carnes, enquanto haviam pouquíssimas pessoas dentro da loja. Alguns clientes ainda estavam por aqui, haviam funcionários e um pessoal engravatado, isso sem falar da bagunça na entrada. É tudo tão esquisito que acho que se eu abrisse um daqueles pacotes de balas, ninguém ia se importar.

Passei pelo corredor das lembrancinhas e acabei me deparando com aquele cara. Olhei de soslaio e enquanto isso comecei a calibrar o foco da minha câmera, em seguida apontei pra ele, que não parecia muito animado.

— Ei, sem fotos…

— Você é chato assim com os paparazzi também?

Provoquei, mas mordi o lábio na hora pra não falar outra besteira. Às vezes eu sou muito impulsivo e eu jurava que isso ia dar merda naquele momento, porém ele continuou pouco instigado. Voltou a mexer nos produtos, a explorar aqueles brinquedinhos coloridos. Eu tirei uma foto daquela cena.

— Agora você já tem o que quer.

— O que foi, hein? Que bicho te mordeu?

Ele suspirou.

— Me desculpe. É que… você não entende. Hoje é feriado, era pra todos estarem dormindo… não era pra essa situação acontecer.

Eu abaixei a lente e o olhei novamente.

— Pensei que já estivesse acostumado. Você estourou nas paradas de todas as rádios…

— Eu sei. Eu não preciso ouvir coisas que eu já sei…

Eu ponderei sobre aquelas palavras. Meu pensamento era de retrucar, mas ele estava tão desanimado que estava até mesmo me tirando a vontade de fazê-lo.

— Escuta… o que você veio fazer aqui?

— Sair. Só vim ver as bugigangas que estavam na promoção. Eu pensei que seria um passeio pacato…

Psst… é estranho como ele ainda é apegado a costumes antigos. É óbvio que ele não precisa comprar coisas na promoção. Ah, Morten, deixa de ser idiota. Ele nem devia estar andando por aí nas lojas como se fosse um anônimo. Ele devia vir com seguranças, com reforços, com…

E então eu percebi…

— O que foi…?

Que vida de merda.

Suspirei e deixei a câmera relaxar no meu pescoço. Se os caras não chegassem a tempo, eu enfrentaria tudo aquilo sozinho. Enfrentar aquele sufoco com alguém talvez não seja ruim, mas sozinho…?

— Ei… — ele me encarou de novo — er… você quer… dar uma volta?

Ele arqueou a sobrancelha, como se eu precisasse repetir aquilo. Revirei os olhos.

— Sair, passear, andar…

— Eu sei. Mas como? Que ideia você tem?

Dei duas batidas no meu próprio casaco e sorri.

— Duvida de mim? Vem, vamos te tirar daqui. Te garanto que é mais provável de sucesso que o "método Branca chatão".

Ele gargalhou, e então eu tive a certeza que o tinha convencido. Eu não sei o que eu estava buscando com isso, mas, naquele momento, eu não queria ganhar nada demais, apenas me divertir.

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14:37 hrs

— Pronto?

— Er… j-já vou!

Michael e eu estávamos num daqueles provadores que quase sempre ficam vazios. Só nós dois lá… eu dei meu casaco e troquei com o dele, o meu cobre bem mais e ele ainda teria ajuda do cachecol horroroso da mamãe.

Agora, era só dar o fora dali.

— Como eu tô?

Ele perguntou como se eu realmente fosse soltar algum elogio. Deixei uma risada escapar e dei uns tapinhas no ombro dele.

— Meu amigo… você tá brega. Que nem um viking no natal.

Acho que ele gostou das palavras, pois sorriu, meio desconcertado.

— Pra onde vamos?

— Sair, ué! Vai pela porta que os clientes tão saindo.

— Assim? Assim, sem mais nada? E você?

— Eu vou logo atrás, fica tranquilo.

Michael tremeu na base, e seria até cômico se não fosse trágico, pois ele estava realmente com medo. Não me parecia medo dos fãs, ele parecia bem acostumado com aquela vida, mas medo de não dar certo. Medo do Branca vir dar uma bronca na gente como se fossemos os filhos teimosos dele.

Bah… isso não vai rolar, baby.

— Desculpa aí, cara…

— O quê?

Segurei discretamente na cintura dele e o usei como escudo humano. Saímos em uma “fila indiana”, empurrando com cuidado os clientes na nossa frente, que saíam e tentavam se afastar da multidão barulhenta do lado de fora. Ninguém deu bola pro Michael, o meu casaco e o cachecol cobriram quase todo o rosto dele, e, talvez, se ele calasse aquela boca, poderiam não o reconhecer pela voz.

Saímos de fininho até a porta de vidro e, lá fora, ele se empolgou.

— Não acre…

— Não acredite mesmo, aqueles zumbis barulhentos ainda estão babando por você!

— Ei, não chame os meus fãs assim! Eles são agitados, mas são muito bem educados.

— Foi você que educou? Ah, que belo professor o Branca me arrumou, hein?

Eu provoquei, mais como uma brincadeira, porém ele não levou pra aquele lado, parecia surpreso com as minhas palavras.

— Como assim? O que tem o Branca?

— Ué, você não sabe?

Comecei a caminhar. Michael tentou me acompanhar, caminhava bem mais devagar que eu. As ruas estavam agitadas, era bizarro o conceito de “feriado” pra aquela galera, eles não paravam nunca! Confesso que aquela agitação me deixou receoso em estar andando com um cara famoso por aí, principalmente porque eu desobedeci às ordens do meu assessor.

— Branca não fala muito comigo, ele só trabalha nos meus assuntos jurídicos.

— Sério? Pensei que ele fosse do tipo seu produtor…

— Eu disse que ele não entendia nada de música, Branca é um homem de negócios burocráticos. O que ele disse pra você?

Aquela conversa estava estranha demais… Suspirei e levei as mãos aos bolsos, tentei apressar o passo, mas ele estava realmente afim de que eu acompanhasse a sua velocidade. Deve ser coisa de superstar…

— Ele me disse… bom, ele queria que você me educasse nesse mundo da música. Ele vai me assessorar…

— O quê?

Michael parou de caminhar, e por um segundo eu questionei se estava fazendo o certo em contar pra ele sem a permissão do Branca. Eu tava completamente fodido agora.

— O que exatamente você não entendeu?

— O Branca assessorando alguém por decisão própria… mas isso é muito bom, você conseguiu um investidor — ele sorriu na mesma hora. — E você tem muito talento, você sabe… bom, ele quer que eu te eduque?

Ele voltou a caminhar e eu o segui.

— Ele disse que queria alguém pra mim, alguém com quem trocar ideias. Alguém novo, que estivesse nesse caminho e que fosse uma boa companhia…

Eu fui falando, e, à medida que as palavras saíam, mais lento aquele cara parecia ficar. Chegou num ponto de eu ter que parar de andar pra ver o que é que tinha dado nele agora, mas Michael parecia completamente fora da Terra. Ele olhava para o chão, imerso nas minhas palavras, como se estivesse recordando alguma coisa.

— Ele… disse isso?

— É… por quê?

— Nada, é que… bom… — ele voltou a sorrir e a caminhar — vai ser divertido. Não tem muita galera da minha idade nesse meio artístico, acho que eu já te disse isso.

— O Branca disse.

— É, é o que eu repito muito a ele… Os caras geralmente estão…

— … fazendo faculdade, transando e curtindo a vida. É, é…

Ele me olhou de canto. Assim que eu o encarei, segundos depois, gargalhamos quase que em sintonia.

— Isso! Oh, boy… é tão diferente falar com alguém da minha idade. Quantos anos você tem?

— Vinte e três. E você?

— Vinte e quatro.

— Não brinca… você é um ano mais velho que eu?! Drittsekk… nem vou poder falar que são os mais velhos que mandam.

Michael gargalhou de novo, parecia que fazia tempo que ele não ria assim, genuinamente, por tantas vezes. Era louco como, em poucos instantes, ele tinha se transformado no super astro que vendia álbum que nem água pra um cara comum dos meus tempos de escola.

— Você é… de outro país, não é? Branca me falou um pouco… O que é “drit”… “drits”…?

Drittsekk… é tipo “puuuta merda”, desculpa as palavras.

— Tá tudo bem… se a minha mãe me ouvisse falando isso, ela me mataria.

Ele brincou, e eu soltei uma risada baixa.

— A minha também, cara. Sua mãe é religiosa?

— Testemunha de Jeová. Eu também sou, mas ultimamente não tenho conseguido conciliar trabalho e comunhão. E a sua?

— Evangélica. Eu era… hoje eu só acredito em Deus mesmo.

— Por que se afastou?

— Ah, eu… eu sei lá…

Levei as mãos aos bolsos e dei ombros. Soltei um suspiro e pude perceber o vapor da minha respiração sobrevoar o meu campo de visão. Estava frio, eu estava com frio, mas aquele não era o frio da minha casa, da minha rua na Noruega. Lembrar da minha mãe, da minha família, aquilo me cansou um pouco.

— Ou era uma coisa, ou outra, não é? Uma hora você vai ter que escolher também…

Michael ficou em silêncio. Acho que ele não gostou do que eu falei, mas minhas palavras pareciam tê-lo feito pensar. Eu não estava errado no fim das contas.

— É cruel isso… Ser obrigado a escolher entre Deus e o trabalho, sendo que ambos são de suma importância. Deus deu o trabalho ao homem… não era pra ser assim.

Eu mordi os lábios. Por um segundo, me vi nele. Nos meus tempos de colégio, quando eu tinha o cabelo comprido, era desengonçado e tentava converter meus amigos.

Suspirei, aquela conversa estava me trazendo lembranças depressivas.

— Quer tomar um sorvete?

— Estamos no inverno.

— No meu país, é normal.

Eu gargalhei e fui em direção a uma sorveteria. Michael ainda parecia muito preocupado em soar discreto, mas só por forçar já estava ficando ridículo. Eu levei as duas mãos aos ombros dele e o parei.

— Cara, anda que nem gente, não que nem maluco.

— Os meus fãs sabem como eu ando, eles sabem tudo! — ele sussurrou — Eu não posso me garantir só na roupa.

— Se você começar a andar assim, vão chamar a polícia pra gente — olhei pra um lado e pro outro, vi apenas um parque a céu aberto, uma pista de gelo com poucas crianças naquela hora do dia e muita gente andando pra lá e pra cá. Ninguém prestava atenção na gente. — Hum…

— Você não quer ir comprar o sorvete? Eu te espero aqui.

— Nem pensar, e perder a diversão? Você parece que não sai de casa há anos!

Ele suspirou.

— É que eu não saio mesmo… não pra essas coisas.

— Viu? Você vai ficar maluco de verdade… Vem.

Fiz um sinal com a cabeça e voltei a caminhar. Ele me acompanhou, ainda meio desconfiado. Atravessamos o parque e fomos até a sorveteria mais próxima, não a dos carrinhos ambulantes, mas a dos prédios, era mais seguro. Ao chegar lá, eu pedi um milkshake (porra de sorvete, sorvete é coisa de marica).

— Vai querer o quê?

— Hum… um sorvete… — porra, Michael — de chocolate!

O funcionário serviu a gente, pagamos e fomos embora antes que o velho associasse a voz dele ao “garoto propaganda” das rádios.

— Viu? Morreu?

— Eu fiquei nervoso… não gosto muito de chocolate.

— Ah, drittsekk…

Ele riu, e eu nem percebi que havia falado algo engraçado.

— “Dritse”… — ele tentou imitar, o que me fez soltar um riso curto.

— Qualquer dia desses, eu te ensino a xingar em norueguês… pra você fazer sem peso na consciência.

— Vai ser legal.

Saímos daquele ponto mais movimentado e fomos pro canto onde as famílias estavam. Tinham poucas naquele dia, o que era perfeito pra deixar aquele astro pop mais sossegado. Sentamos na neve e ficamos observando as crianças brincando.

Aquela cena parecia ter tocado nele de alguma forma.

— Saudades de fazer aquilo? — apontei pra as crianças.

— Não posso sentir saudade de uma coisa que não conheço — ele respondeu, com um sorriso no rosto. O que mais me assustou foi a serenidade das suas expressões diante de uma frase tão… não sei… pesada. O que será que ele quis dizer com isso?

De qualquer forma, senti que não devia insistir.

— Bom…

— Você é da Noruega, não é? — ele indagou sem me encarar, apenas olhando o horizonte — É verdade que, lá, a noite e o dia têm tempos diferentes do resto do mundo?

— Bom… é — eu dei ombros. Eu estava tão acostumado que nunca me importei em notar isso. — Se um dia você fizer show lá, é bom pensar nessas coisas. Não use os astros de relógio.

— Vou anotar isso — ele riu. — Eu ainda não viajei pra lá. Depois de Thriller, acho que isso vai se realizar logo.

— Você vai fazer turnê?

— Eu quero… mas não tenho certeza. É tudo tão diferente… Quer dizer, eu trabalho na música desde pequeno, mas isso é diferente… esse alcance…

Aquiesci.

— Sei… fama mundial, não é? Tem uma galera do outro lado do mundo que te conhece, e você nem faz ideia. Sabe, eu ainda não tirei o meu pé do lado dos fãs. Eu ainda não sou famoso. É muito estranho estar trabalhando pra fazer essa transição, e ver de antemão tudo o que eu vou passar um dia.

— Você me passa a sensação de que a fama não vai atrapalhar sua vida — ele me encarou e sorriu. — Você toma as decisões sem pensar muito nas consequências. Às vezes eu sinto que preciso disso… às vezes eu sinto que preciso ser menos… pragmático. Eu precisava disso. Obrigado.

Eu pensei em dizer alguma coisa, mas acho que aquelas palavras já eram suficientes. Pela primeira vez naquela droga de viagem improvisada, eu senti que havia sido útil pra alguma coisa, e essa sensação, por si só, já valeu muito a pena.

Já estava perto do pôr do sol quando o meu milkshake acabou e o resto do sorvete dele estragou. Jogamos o lixo na cesta mais próxima e eu ensinei ele a limpar as mãos na neve mesmo, eu fazia muito isso com os meus irmãos em Kongsberg.

— Isso é nojento, as pessoas pisam aí! E algum bêbado pode ter urinado…

— As crianças colocam isso na boca e não morrem. Vai, deixa de frescura! É tudo água, cara.

— Não, eu prefiro lavar em casa, vamos…

— Alguém tem um lenço para vossa majestade…!

Eu elevei um pouco a voz, e ele rapidamente enfiou as mãos na neve.

— Pronto, pronto! Cala a boca, seu mané!

Gargalhei logo em seguida. Eu era o segundo de cinco filhos, eu tinha os meus truques pra fazer meus irmãos me obedecerem.

— Vamos, o Branca vai me matar por ter te tirado da loja.

— Vai mesmo. Mas não se eu não contar… posso dizer a ele que eu fui a mente maléfica por trás disso.

— Ah, e ficar sem os créditos? Acho que eu quero levar essa bronca também.

Voltamos pra onde quer que fosse, aos risos. Eu nem sabia mais como fazer pra voltar, fui sendo guiado pelo Michael, que parecia bem familiarizado com a rua. Levou as mãos aos bolsos e caminhou de forma tranquila, acho que àquela altura já não acreditava que podia ser pego.

— Olha… amanhã vai ser uma bagunça, acho que não vou poder te ver, mas podemos nos ver de novo dia oito? Cai em um sábado… é o dia perfeito pra te levar no estúdio.

— Show. Estou ansioso pra começar… sabe, todo esse processo de gravação, mixagem…

— Isso vai virar rotina pra você. Tá combinado, então. Dia oito, okay?

— Beleza! Num sábado…

Voltamos sem maiores problemas (na verdade, uma dúzia de fãs atrapalhou um pouco o percurso, mas deu tudo certo no final!). Chegamos quando já não havia mais uma multidão na loja, e o John, bastante preocupado, deixou o número dele com os funcionários quando percebeu que a gente tinha rapelado dali. Michael quis ficar para esperar ele, e eu peguei minha Canon, troquei os casacos e voltei pra o meu hotelzinho.

Quando cheguei no quarto e tirei os sapatos, suspirei de cansaço. Eu estava morto! Me joguei na cama e torci pra ninguém me chamar pelas próximas cinco horas!

Porém, é claro que vão chamar, não é? Claro que vão! E dessa vez foi a menina da voz de anjo. Ah, eu adoro aquela voz, mas precisava ser justo agora?

— Serviço de quarto!

— Ah, não, agora não…

— Quero só ver essa sua preguiça no dia que a gente for sair, hein?

Ela brincou e se afastou, porque eu ouvi as rodinhas do carrinho deslizando para longe. Queria ter me focado nelas, pois as palavras da garota acabaram por despertar todo o Morten destruído que havia dentro de mim.

Sair… num sábado… dia oito.

Drittsekk!!!!!

Notas finais
Curiosidades: — Na Noruega, o dia e a noite realmente têm tempos diferentes. Por estar situada no hemisfério norte, o país pode ficar dias ou meses sem o dia ou a noite, a depender da estação. x ----- x Próximo capítulo: O toque do meu despertador era sintonizado com o que tava tocando na rádio naquele momento, assim eu me mantinha informado nos lançamentos, e foi por causa dessa configuração que, naquela manhã, eu acordei com a voz daquele cara. — Eu vou dia oito, eu juro!! Despertei num pulo e então percebi que estava no hotel. Olhei pros lados, vi apenas o meu relógio marcando 9 da manhã. Logo meu corpo relaxou novamente e eu cedi ao cansaço. — Aaah… fy faen… Enfiei o rosto no travesseiro e murmurei para aquilo ser um sonho. A minha noite foi um inferno. Eu liguei pro Branca incontáveis vezes pra tentar acessar o Michael, eu precisava remarcar aquela data, mas não consegui de jeito nenhum. Desisti quando o relógio marcou 23 horas. Eu percebi, no fim das contas, que eu não podia me desviar da minha primeira missão, que era preparar o terreno pros caras. Michael era mais importante, o conhecimento dele é mais importante. Mas eu confesso que enfrentar uma garota frustrada é bem pior do que dizer “não” pra um superstar.