Diário de 83
13 Sentimentos Confusos - Parte II
Notas iniciais
Pasadena, Califórnia – 20:42 hrs
— Michael! Como está?
John Branca o cumprimentou com leves tapinhas nas costas. Michael lentamente virou o rosto em sua direção, com aqueles Ray-Ban sinistros, e ele finalmente entendeu que aquilo havia sido uma péssima ideia. Eu segurei um riso e catei um chiclete no meu bolso, eu ia precisar disso pra ter que aturar aquela noite.
Nós estávamos perfeitamente engravatados. Michael insistiu muito pra que eu não usasse a minha jaqueta jeans e os meus all star brancos, mas cara… tem um motivo pra eu seguir a moda new wave, eu simplesmente odeio essa roupa de pinguim! Eu pareço um pacote de presente de funeral! Michael, por outro lado, até que estava bem apresentado. Ele não usava nenhum casaco por cima, disse que colocaria mais tarde, mas sua roupa era um tanto cintilante, como um R&B elegante.
Estávamos no Auditório da Pasadena, ia rolar um evento comemorativo pelos 25 anos da Motown Records, uma gravadora que, pelo que eu entendi, teve um papel muito importante na vida do Michael. Muitas celebridades estavam lá, e, como era de se esperar, Branca veio dar sua "palavrinha" antes do moreno subir no palco (me imagine revirando os olhos de tédio nesse momento).
— E então, Morten, como você está? Aprendendo muito?
— Ô… demais. Não é como se você tivesse ido comprar cigarro e me abandonado nas mãos de outra pessoa.
Branca me olhou com certo espanto, mas, antes que comentasse qualquer coisa, Michael levou uma mão ao meu ombro.
— Estou ensinando tudo pra ele, John, e está sendo uma experiência incrível, não é?
Ele me olhou como se buscasse uma confirmação. Eu segurei um suspiro… Apesar das minhas frustrações, eu não conseguia contrariar as palavras dele, eu não precisava fazer mais do que olhar naqueles olhos escuros pra encontrar conforto.
— Sim…
Ele sorriu e voltou a encarar o homem.
— Foi o melhor "presente" que você me deu — ele riu. — É o meu melhor amigo.
— Ah, já chegou nesse ponto? Meus parabéns, Morten — ele me fitou com um olhar e sorrisos que escondiam toda a ironia do mundo. — Aproveite e não se deslumbre tanto, as coisas podem acabar num piscar de olhos.
— Está certo…
Murmurei, com certo desdém, enquanto o via se afastar. Assim que ficamos a sós, outros homens distantes já queriam disputar a atenção do moreno, mas Michael fez um sinal de que falaria com eles depois.
Ele se virou até mim.
— Morten…
— Me desculpe. Me desculpe, Michael… — eu suspirei — às vezes eu sinto que eu estou aqui de férias. Eu adorei te conhecer, conhecer sua família, mas…
— Eu sei… Você quer mostrar o que sabe fazer. Você quer uma chance.
Uma chance…
— É isso.
— Morten, eu não tenho poder pra interferir nos seus negócios com o Branca. Minha carreira não teve início ontem, porém o auge acabou de começar. Não posso dizer que sou tão influente quanto os outros pensam, mas o que eu puder fazer por você… eu vou fazer.
Ele levou as duas mãos aos meus ombros e eu tentei, mais uma vez, segurar os meus impulsos. Me perguntava se o Michael sentia o mesmo… se ele sentia os mesmos desejos que eu, como se aquele momento no jardim tivesse destravado algum comando desconhecido no meu coração.
— Sim…
Não tinha muito o que falar. Ele lentamente afastou as mãos dos meus ombros e umedeceu os lábios.
— Eu preciso te pedir uma coisa. Eu não queria chegar a isso, mas eu preciso… eu preciso de um tempo.
Eu não respondi, não entendi onde ele queria chegar com aquilo, mas eu temia essas incertezas.
Ele prosseguiu.
— Eu vou fazer uma coisa muito importante hoje, Morten, uma coisa que eu tenho planejado há algumas semanas… mas eu estou com medo.
Arqueei a sobrancelha.
— Com… medo? Medo de quê? De ficar ruim?
— Mais ou menos…
— Michael, acho que, a essa altura, não dá pra dizer que você não tem talento ou presença de palco suficientes…
— Eu sei, não é isso. Eu sei o que eu vou fazer hoje. Eu faço isso desde os cinco anos de idade.
— Então??
Ele hesitou por um instante, mas eu queria ouvir a verdade, ele precisava confiar em mim.
— Eu sei que você precisa estar do meu lado, mas eu… eu vou te pedir que troque de cadeira pra mim — fiquei em silêncio por alguns instantes. Ele prosseguiu, e eu senti, pela sua voz embargada, o quanto estava se contendo. — Não posso pensar em você hoje. Não posso pensar no que aconteceu hoje. Eu… eu não posso levar isso pro palco, eu não posso, e eu não vou. Você entende isso…?
Ouvir aquelas palavras foi pior que ouvir um sermão do Branca, mas eu não devia estar surpreso. Mesmo que o que quer que estivesse acontecendo entre a gente fosse uma brincadeira, era uma brincadeira muito perigosa. Eu engoli seco e segurei os meus piores sentimentos pra mim, mas o Michael era um cara muito expressivo, ele estava se esforçando para deixar isso guardado. Ele estava abalado por minha culpa.
— Entendi.
Ele aquiesceu. Ficamos em silêncio, nenhum de nós sabia como se despedir depois disso. Os velhos que secavam o Michael com o olhar perceberam que a nossa conversa havia acabado e foram pra cima dele como um bando de urubus. Levei as mãos aos bolsos e saí pela porta da frente, foda-se, eu não estava muito no clima pra falar com ninguém.
O evento custou um tempo pra começar, mas eu já estava decidido em perder a apresentação, Michael performaria melhor se não me visse em lugar algum. Segui até o lado externo do auditório e fiquei sob o teto, muito perto da porta. Tinham algumas pessoas do lado de fora, conversando e fumando, e eu realmente não entendia quem era o maluco que, em suas condições perfeitas, estava perdendo uma das melhores apresentações que ele veria na vida (eu estava quase me arrependendo de me juntar a eles, ali, naquele inferno frio e escuro da noite).
Encostei as costas em um pilar e masquei quase aquela droga de chiclete toda (que falta faz uma bebida bem forte ou uma pancada na cabeça…).
— Eu pergunto onde tá o banheiro e eles me mandam pra a puta que pariu…
Ouvi a voz inegável da Janet atravessando o portão. Ela arqueou a sobrancelha assim que me reconheceu.
— O que você tá fazendo aqui?
— Não é da sua conta, me deixa em paz.
Ela fechou a cara.
— Credo… babaca.
Ela fez como se fosse dar meia-volta, e eu só olhei pro céu e fiquei ouvindo de longe o espetáculo do palco. Era a voz do Michael, ali, entoando. Quando ele soubesse que eu não fiquei… não sei o que ele iria sentir. Eu estava tentando ajudá-lo, mas talvez eu estivesse piorando tudo.
— Tem certeza que não quer me contar?
— Arh! — eu virei o rosto e vi a baixinha lá mais uma vez, com as mãos por trás das costas — Não é da sua conta, já disse!
— Ah, eu não guardo rancor… — ela se aproximou e ficou no meu campo de visão. Janet apertou aqueles olhinhos pretos, inclinou a cabeça e deixou um sorriso sapeca bem evidente — hum… parece um caso de amor.
— Hunf, que nada…
— Então é sim.
— Homem não é que nem mulher. Quando ele diz "não", é "não" mesmo.
— Mas homem mente ruim pra chuchu. Agora, me fala. Eu posso te ajudar, sabia? Um pouco de persuasão feminina no seu problema masculino.
Sorri de canto ao ouvir a frase.
— Sabe o que é "persuasão"?
— Tá me chamando de burra?
— Não, não, tá bom, me convenceu… — suspirei, talvez ela realmente pudesse ajudar, afinal de contas ela é a irmã dele — me diz uma coisa, o Michael é muito mulherengo?
Ela esboçou um sorriso malicioso e me lançou um olhar desconfiado.
— Por que quer saber disso?
— Nada demais… Eu acho ele muito solitário. Se ele arrumasse uma namorada, talvez eu me sentisse menos culpado — contar metade do problema não é mesmo o meu forte, mas espero que ela não faça mais perguntas invasivas.
Janet deu ombros.
— Até onde eu sei, ele é super tímido. Teve uma ou outra namorada… e não gosta de saidinhas.
— Hum…
— Fala logo qual é o seu problema. Michael tem reclamado contigo sobre essas coisas?
— Eu só acho que ele precisa de alguém, só isso — suspirei. — Além disso, eu também tô gostando de uma pessoa…
O olhar dela iluminou.
— Sério? Quem?
Olhei pra ela por alguns instantes.
— Parece contigo… tem esses olhinhos pretos.
Janet pareceu meio contrariada. Ela piscou os olhos algumas vezes e levou uma mecha para atrás da orelha.
— Er… não sou eu não, né? Porque já vou avisando que você não faz meu tipo…
Na hora, eu gargalhei. Isso nem veio na minha cabeça, mas eu acabei de levar um belo de um fora.
— Não, não… eu… eu nem sei se eu gosto mesmo dessa pessoa, pode ter sido só no calor do momento… eu tô bem confuso.
— Ai, que complicado… ou gosta, ou não, né? Mas, olha… se você tem dúvidas, passa um tempo com essa garota e descobre. Se você se sente tão bem ao lado dela a ponto de não querer que o dia acabe… meu amigo, você tá amando — ela riu baixinho. — Se bem que você não parece ter muita dificuldade em conseguir garotas.
Mordi os lábios. Eu sou um cara, eu entendo a mente de um cara, não é bem assim que as coisas funcionam entre a gente, mas ela tinha sua parcela de razão. Michael era um pouco diferente… eu não podia tratá-lo como se fosse o Paul ou o Mags. Eu precisava arriscar as palavras dela.
— Valeu, tampinha.
— Depois eu quero saber quem é a menina, hein? — ela riu novamente — Vamo entrar? Michael tá com o Tito, o Marlon e os outros, e parece que vai ter um "gran finale", eu tô ansiosa pra saber o que vai ser!
Naquele momento, meu plano de não ficar pra a performance foi por água abaixo. Eu assenti em silêncio e a acompanhei para dentro do auditório, e perguntei se ela não queria trocar de cadeira comigo. Não teve maiores problemas no resto da noite, eu até tive sorte em ter sido convencido a voltar, pois Michael fez a melhor apresentação daquela festa — que, mais tarde, eu descobriria que estaria entre as melhores apresentações do mundo.
Voltamos pra Encino em silêncio. Eu escolhi deixar o Michael em paz pra que ele pudesse descansar, e passei a madrugada pensando nas palavras da Janet. Eu não podia me desconcentrar da minha primeira missão (que não tava rendendo fruto nenhum, aliás), mas outra coisa passou a permear os meus pensamentos…
Eu queria saber até que ponto aquele sentimento era genuíno, ou eu só estava ficando muito maluco por estar longe de casa.
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