Diário de 83
29 Que Dure o Máximo Que Puder
Notas iniciais
Los Olivos, Califórnia – 09:48 hrs
17 de setembro, 1983
Era uma manhã fria de outono. Michael, La Toya e eu fomos ao Sycamore Valley, o rancho onde ele gravaria seu próximo videoclipe; os caras só viriam mais tarde, o que me dava tempo pra ficar a sós com o Michael por algumas horas.
Eu sabia que ia me meter no meio do mato, então vesti uma camisa xadrez vermelha (pra eu ser encontrado se me perder), calças jeans, tênis pretos e ainda trouxe comigo minha Canon, eu não perderia de jeito nenhum a paisagem fascinante daquele vale. La Toya ficou na casa de campo (graças, aleluia), o único que me acompanhou até o recinto dos cavalos foi o Michael, fazendo par comigo com uma camisa xadrez tão extravagante quanto, e um chapéu de cowboy para a “cereja do bolo”. Eu tirei uma foto dele subindo o pequeno morro que havia ali; ele colocou os óculos escuros e sorriu.
— Vou exigir meus direitos autorais.
— Faz isso no dia que eu vender essa foto por quinhentas pratas.
Ele riu e deu um soquinho no meu braço.
— Vai cavalgar? — Michael fez um sinal com a cabeça para o cercado onde os cavalos estavam.
— Nem, não sei fazer isso, e não sei se estou disposto a levar umas quedas pra aprender.
— Não é tipo andar de bicicleta. Uma queda de cavalo pode ser, também, a última da sua vida.
Mordi os lábios. Ele começou a caminhar e fomos conversando com tranquilidade.
— Que sinistro.
— Esse lugar é incrível, não é?
Ele comentou, enquanto voltava ao topo do morrinho e observava a casa de campo ao longe. Michael abriu os braços e os esticou, eu fui ao seu lado e me contentei em apenas observar a paisagem.
— É muito… extenso.
— Eu me apaixonei por esse vale. Se eu tivesse um desse… seria o meu refúgio.
Refleti sobre aquelas palavras.
— Bom, dinheiro você tem. Por que não compra?
Dessa vez, Michael ficou em silêncio, era sua vez de tomar uma decisão.
— Talvez… — ele suspirou — Morten… já é setembro.
— Eu sei… — levei as mãos aos bolsos — há um ano, exatamente, eu estava saindo de casa pra viajar à Londres. Eu cheguei na capital britânica falando inglês que nem um recém formado, me virando como dava.
— Você passou por altos e baixos, não foi?
— Se foi. Dividi quitinete, passei fome, vivi perto de lixão… Eu só tomei no cu.
— Isso não vai acontecer mais.
— Ah, Michael, eu ainda não sou famoso. Eu não posso nem cogitar isso, tudo pode acontecer.
Senti, pouco antes de terminar minha frase, sua mão apertar a minha com carinho. Eu olhei pra ele, e ele olhou de volta.
— Isso não vai acontecer mais… eu prometo.
Eu assenti em silêncio. Michael era bom demais, não precisava se importar com essas coisas, e mesmo assim se importava. Ele amava demais. Às vezes isso me preocupava, eu tinha medo que ele se machucasse… o futuro era muito incerto.
— Michael… — iniciei — Você tem medo disso? Do tempo estar passando logo. Digo… amanhã irei fazer o show da minha vida, talvez assinarei contratos, talvez ficarei aqui… ou talvez eu volte às gravadoras de Londres, porque ficam mais perto da minha casa.
— Não tenho medo disso, porque isso não vai ser um “adeus”. Tenho dinheiro, você não vai fugir de mim, te acharei até em Marte — ele brincou, e eu ri com o comentário. — Mas, falando sério, acho que, mesmo que você escolha trabalhar com as gravadoras europeias, ainda sim nós poderemos nos ver de novo. Não é impossível.
— Sim… foi besteira pensar nisso.
Michael sorriu fraco e negou com um movimento de cabeça.
— Vai dar tudo certo. Agora vamos parar de falar sobre essas coisas, vamos falar sobre coisas boas. Como, por exemplo, eu sei que você é fã dos Beatles…
Dei ombros e sorri.
— É modo de falar, né? Eu sou doido pelos Beatles. Você me disse que esse próximo videoclipe será com o Paul McCartney. Vou poder conhecê-lo, não é?
— Droga… eu já tinha te dito? Eu pensei que ia conseguir te fazer uma surpresa.
Eu gargalhei.
— Você não se segura quando o lance é novidade, Michael. Mas, se quiser, eu finjo que não sei de nada!
Ele riu.
— Nah, tudo bem. Ele veio antes pra conhecer o rancho. Vamos nos encontrar daqui a alguns dias pra gravar as primeiras cenas. Você vai me acompanhar, quero apresentar vocês.
Michael voltou a caminhar. Andamos sobre um caminho aberto na mata alta de trigo, olhando o horizonte como se pudesse, um dia, chegar nele. Algumas aves voavam ao longe, o céu estava limpo e as árvores estavam em troca de folhagens para o inverno; tudo era muito frio e laranja.
— Já estou ansioso. Se bem que, a essa altura, vai ser difícil me impressionar depois de viver tantas coisas.
Havia percebido essa mudança em mim há algumas semanas. Comecei minha estadia nesse país com tanta ansiedade, e agora estou aqui, com o coração pulsando em ritmo ameno ao saber que vou conhecer o meu ídolo de infância. Acontece que Michael, com todo o poder e fama na palma da mão, conseguiu me mostrar como as pessoas famosas podem ser simples, como podem ser como a gente. Elas não são melhores, nem piores que nós, podem ser bem divertidas ou super chatas, elas são uma caixinha de surpresas como qualquer um — e como ele foi para mim —. Eu sinceramente espero ter uma boa impressão do McCartney.
Quando estávamos bem distantes da casa, do cercado, de tudo, eu segurei a sua mão e o puxei distraidamente para os meus braços. Michael sabia o que eu queria, ele foi objetivo quando entrelaçou os braços na minha cintura e levou os lábios aos meus. Nos beijamos por alguns instantes em profundo silêncio, porém eu não estava satisfeito; me inclinei o bastante para que, agora, ele estivesse em uma posição mais alta que a minha. Suas mãos passearam pelo meu corpo e roçaram, ansiosas, pela minha camisa; seus dedos buscaram qualquer abertura que tivesse para que ele pudesse tocar o meu abdome, o meu peitoral, os meus braços, até que seu toque terminou em meu rosto. Ele segurou cada canto do meu maxilar e devolveu o meu beijo com fome da minha boca, seus dentes mordiscavam meus lábios, sua respiração se chocava contra a minha, seus gemidos baixos e tímidos se misturavam aos meus. Ele cansou em um determinado momento, deixou que eu descesse minha boca ao seu pescoço, mas isso não perdurou, senti que foram míseros minutos naquele carinho, ele lentamente se afastou e soltou um suspiro.
— Por que isso acontece do nada…?
Ele sussurrou. Eu segurei um riso.
— Isso pode ser desejo… mas você não quer descobrir.
— Tenho coragem pra muitas coisas, mas não sei se tenho pra isso — Michael me puxou novamente e levou o rosto ao meu pescoço, porém, diferentemente do fogo que havia acendido anteriormente, ele estava mais calmo. Me abraçou em silêncio, sem me apertar, em seguida sussurrou: — Não tem risco de você ir embora antes do fim de ano, tem…?
Suspirei e retribuí o abraço. Minha mão afagou discretamente aqueles cachos escuros, e a outra permaneceu no meu bolso.
— Não sei, Michael… — merda, pensar sobre essas coisas me deixava aflito, mas eu não queria evitar, era um assunto que precisaríamos conversar um dia — Qual é o seu medo?
— De verdade…? Que, quando a gente se ver novamente, as coisas não sejam mais as mesmas.
— Você acha que isso pode acontecer? Mesmo depois de tudo o que houve? Mesmo depois de toda essa loucura?
Ele assentiu em silêncio.
— Nosso lance não é duradouro, você sabe. Mas eu quero que dure o máximo que puder.
Não é duradouro…
Doeu ouvir aquilo, mas ele tinha razão. Não que eu tenha pensado nessas coisas, eu era novo demais pra pôr a cabeça nesse tipo de pensamento, mas, se ficássemos 3 anos juntos, seria muita coisa. Casar, ter filhos, nem pensar, não daria certo entre a gente. Estávamos fadados a um relacionamento de verão.
Ele lentamente se afastou e sorriu.
— Tenho uma coisa pra te mostrar. Vamos voltar? Ficou lá no meu quarto.
Assenti e o segui de volta para a casa de campo. Atravessamos o caminho rapidamente, logo estávamos na varanda. Ele entrou, me puxando pelo pulso, e me levou até o quarto dele, em seguida me deixou sentado na beira da cama e fechou a porta.
— Fecha os olhos.
Eu fechei sem questionar. Ouvi alguns ruídos aqui, acolá, senti quando ele se sentou de frente pra mim. Seus lábios tocaram a ponta do meu nariz, ele me beijou carinhosamente e deixou algo repousando no meu colo. Toquei e notei que era um pacote retangular.
— Pode abrir.
Assim que abri os olhos, vi um pacote de presente de espessura fina, eu chutaria um livro, um disco ou um retrato. Era cinza, adornado com uma fita em azul metálico. Okay, eu sei que comentei que embrulhos eram frescura, mas eu me arrependo, Michael acertou as minhas cores preferidas.
— Abre, vai…
Eu sorri e olhei pra ele.
— Por que você fez isso?
— Eu preciso de motivos?
Mordi os lábios.
— Michael… você… Isso foi por causa do meu aniversário? Porque, se foi… não precisava… Sabe, eu não ficaria chateado se você não fizesse nada, eu respeito a sua religião.
— Morten, abre. Vai, vai.
Eu desisti e desatei o laço. Quando abri a caixa, notei que havia acertado nos meus palpites: era um retrato grande e retangular. Mas esse era diferente… era um desenho, um desenho meu. Preto e branco, parecia um sketch realista, com o respeito à luz e sombra, e o uso de diferentes esfumados para se chegar ao efeito desejado. Eu entendia um pouco de desenho, mas não desenhava muita coisa. Fiquei impressionado porque… eu não sabia que ele fazia isso…
— Você fez…?
Ele sorriu de canto a canto, como uma criança orgulhosa, e assentiu.
— Eu desenho um pouco.
— Um pouco? Michael, isso tá incrível! É a primeira vez que eu me acho bonito de verdade.
Ele revirou os olhos.
— Por que gente bonita tem mania de se achar feia?
— Tá aí uma coisa que você devia responder.
Ele riu e se aproximou novamente, me beijando no rosto.
— Feliz aniversário… atrasado. Eu queria ter te dado no dia quatorze, mas não terminei a tempo.
— Como você sabia do meu aniversário?
— Perguntei a um dos seus amigos. Não vou dizer quem foi, pra você não brigar com ele.
— Foi o Mags, já tô vendo.
Ele riu.
— Eu espero que tenha gostado.
— Não brinca. Eu vou pendurar na parede de todo quarto em que eu me hospedar, ele vai me acompanhar sempre! — me aproximei pra beijar sua bochecha — Obrigado, baby boy.
Michael sorriu, em seguida se levantou.
— De nada. Eu vou ver a Toya agora, vem comigo? Ela quer ver os bichinhos… está toda empolgada depois de ter pego um papel principal no videoclipe.
— Ela me traumatizou por causa desse papel no começo do ano. Mas eu te acompanho, pelo menos você vai estar lá pra me proteger da sua irmã.
— Pode deixar, eu te protejo.
Depois daquele momento, saímos em busca da La Toya. Levei o presente comigo, eu passaria no meu quarto antes pra deixá-lo lá. Michael tinha razão… naqueles pequenos momentos, apesar do nosso lance estar fadado ao curto prazo, que fosse duradouro enquanto pudesse.
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