Diário de 83

22 Jogo de Resistência


Notas iniciais
Finalmente Morten vai acertar as contas com o Branca! Mas e agora que esses dois meninos estão lá, como vai ficar o lance dele com o MJ? Logo logo vocês saberão -u- Boa leitura! ♥

Encino, Califórnia – 13:45 hrs

25 de junho, 1983

Depois de uma caralhada de exames particulares, o médico contratado pelo Michael preencheu alguns papéis e pôs em um envelope pardo. Ele estava me atendendo no meu próprio quarto, eu estava sentado à beira da cama. Olhou pra mim e fez um sinal positivo.

— Bem, o ciclo do vírus já se esvaiu, você está completamente recuperado agora.

— Quer dizer que, se eu beijar alguém, essa pessoa não vai ficar doente? — é, eu sei que eu fui bem específico, mas tenho minhas prioridades.

— Não, pode namorar — ele segurou uma risada, porém manteve o sorriso no rosto. — Evite brincar com o clima. Se proteja de vendavais e cuidado com a insolação.

— Certo.

Ele deixou os meus exames na cômoda e se retirou. Um funcionário o levou até a saída, e Michael entrou no meu quarto logo em seguida.

— Está melhor?

— Melhor é pouco. Me sinto uns cinco anos mais jovem.

Estiquei os braços enquanto dizia isso. Ele se aproximou, com aquele belo sorriso nos lábios, e beijou suavemente o meu maxilar sem encostar as mãos no meu corpo. Desviei os meus lábios para os dele e o beijei carinhosamente. Ficamos naquela pegada por poucos instantes, a porta estava fechada, mas não trancada, o que nos deixava um pouco receosos.

— Que saudade, hein? De beijar essa boca.

Comentei. Ele, já corado, sorriu de canto e fez um movimento negativo com a cabeça.

— Você vai se ocupar com o Branca hoje, e eu preciso sair com o Quincy. Talvez a gente se veja à noite.

— Vou torcer pra isso. Até mais tarde, baby boy.

— Até… — senti quando a mão dele tocou a minha, me passando um objeto gelado e barulhento, parecia um par de chaves. Seus olhos continuaram olhando pra mim. — Tome cuidado.

Ele me beijou na bochecha e se retirou. Dei uma olhada no objeto e era de fato um par de chaves: as chaves do carro dele. Enfiei aquele molho no bolso e, depois, tudo o que eu fiz foi apenas pegar minha Canon e ir ao encontro dos caras. Eu estava usando o meu conjunto favorito: calças jeans com rasgos, tênis esportivos de cano alto, camisa sem mangas, pulseiras e colar. Fui até a sala e vi o Paul acompanhado do case com a sua guitarra, e o Mags com o case do teclado eletrônico.

— Resume pra gente quem é o tal do Branca.

Seguimos caminhando pra fora do prédio.

— É o cara que tá financiando a nossa tour pela terra do Tio Sam. Ele gostou do meu desempenho no mês passado, por isso trouxe vocês pra fazermos o dobro de plateia no próximo show.

— Qual foi a sua setlist?

— O destaque foi "The Sun Always Shine on TV".

Paul parou de caminhar e arqueou a sobrancelha.

— Você alcançou as notas dela?

— Claro! E não foi difícil. Até parece que não confia em mim…

Ele desviou o olhar do meu, ainda parecia perplexo.

— Nesse caso… já dá pra irmos treinando "Take on me", o que acha?

Eu sorri ao ver que o nome realmente pegou.

— Eu só estava esperando você dar o sinal verde.

— Ei, gente, vamos de carro?

Magne indagou. Eu tirei o par de chaves do bolso e balancei.

— Michael me emprestou o carro dele. Digamos que… ahm… ele não é fã de dirigir.

— Cara, é melhor eu dirigir isso, eu sou o único que tem carteira.

— Que humilhação. Você é menor de idade, mais novo que a gente, e o único que pode dirigir.

Magne gargalhou e pegou as chaves. Fomos até o carro e seguimos rumo ao escritório do Branca, que ficava em Hollywood. Eu fui guiando a gente até lá, pelo menos não era o Michael dirigindo dessa vez.

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Hollywood, Califórnia – 13:20 hrs

Novamente eu estava no escritório do Branca. Os móveis em madeira marrom brilhante e o cheiro de lustra móveis me lembravam o dia em que eu estive aqui pela primeira vez. Fala sério, eu duvido que ele atenda a celebridades do nível do Michael nessa espelunca, mas foi ali mesmo que ele escolheu se apresentar para os meus amigos.

Nos sentamos. Ele foi até a cadeira principal e também se acomodou.

— Então, rapazes… vamos fazer uma apresentação formal. Eu sou o John Branca, advogado, acredito que o Morton deve ter falado de mim.

— Quem é Morton…? — Magne murmurou baixo, mas o Branca nem percebeu.

— Vocês querem se apresentar?

Paul levantou a mão.

— Paul Waaktaar.

— Magne Furuholmen.

— Perfeito. Vocês têm idades próximas à do Morton, não é?

— Eles são dois e três anos mais novos que eu, apenas.

— Ótimo. Mais rostos jovens para a América. Morton me disse que o show fica mais completo com vocês dois, e é isso que eu quero ver na próxima apresentação, em setembro.

— Teremos dois meses e alguns dias para nos prepararmos… — murmurou Paul.

— Isso mesmo. Nesse um mês, eu quero todas as composições de vocês na minha mesa. Vamos montar uma setlist completa.

— Mas nós vamos fazer um álbum também? — Magne fez a tão famigerada pergunta.

— Isso dependerá dos resultados de setembro.

Assim que ele "lançou a carta", eu suspirei e relaxei as costas na cadeira. Paul estava impassível, concentrado em cada palavra proferida pelo homem, e o Mags me olhou com uma preocupação velada.

— Você tá falando sério, não é? Não vai me enrolar como fez até agora.

Ele arqueou a sobrancelha. Vi quando os caras olharam pra mim com seus olhares confusos.

— Não estou enrolando você.

— Por favor, até a Madonna está mais adiantada que a gente! Prince acabou de lançar "1999", até a porra da Irene Cara…

— Quem é Irene?

— Exatamente.

— Morton, eu dou minha palavra.

— Paul não vai dar nenhuma das nossas músicas sem contrato.

Me levantei, ia me impor a partir de agora, ia jogar o jogo dele. Eu não sei se era um pouco da minha impaciência com o jeito genialmente estratégico do Michael resolver as coisas, mas eu aprendi muito com ele e estava na hora de colocar isso em prática.

Os caras estavam apreensivos, porém acreditaram em mim, porque não se opuseram às minhas palavras. Branca prosseguiu.

— Feito. Um contrato será redigido — olhei pra os meus amigos, que me devolveram expressões aliviadas e confiantes, contudo ele continuou a falar. — Se os resultados do show de setembro forem satisfatórios, faremos um álbum e um clipe de estreia. Se não conseguirem um público maior que a apresentação solo do Morton, os dois rapazinhos voltam para Londres. Mas, se o Morton quiser voltar com eles, toda a arrecadação dos dois shows será recolhida e o que restar dos gastos das suas despesas no país deverão ser pagos. A sua volta ficará por sua conta.

Ouvir aquela sentença foi como ser apunhalado. Sem Michael, sem Barron, sem ninguém pra intervir, era ele e eu em um jogo de resistência. Branca era um filho da puta muito mais experiente, ele sabia que tinha que me assustar com aquelas condições, mas um contrato ainda resguardava os meus direitos, era muito mais seguro que jogar no escuro. Além do mais, a princípio eu não consegui identificar cláusulas abusivas, mesmo que fossem condições assustadoras.

Todavia, nós ainda estávamos na frente. Eu confio neles, eu confio em mim, eu confio no A-ha.

— Falou. A gente assina aonde?

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14:10 hrs

Paul, Magne e eu fomos dar uma "turistada" a pé pelas ruas de Hollywood antes de pegar a estrada de volta pra Encino. Eles estavam nervosos, era a primeira vez que viam uma discussão com um cara teoricamente "intocável", mas eu já conhecia a figura, se não colocar esses caras nas rédeas, eles pintam e bordam com o seu nome e te fazem de idiota. Vai por mim… experiência própria.

— Paul… — chamei o mais perto de mim. Ele se aproximou enquanto o Mags ia na frente.

— O que é?

— Barron tinha me dito que contataria um amigo em Londres pra falar com vocês. Aconteceram tantas coisas nesse período, que eu nem perguntei… Alguém chegou a falar com vocês?

— Foi bom você falar nisso. Um tal de Slater ficou interessado na banda, ele conhecia o Barron de alguns carnavais por aí. O problema era… — ele suspirou — que você não tava. Sem uma voz de destaque, fica difícil trabalhar só com o que tem.

— Ficou por isso mesmo?

— Ele disse que ligássemos pra ele quando estivéssemos juntos novamente.

— Ótimo. Fica de olho nisso, vai ser o nosso plano B.

— Cara… — Paul ficou na minha frente, me obrigando a parar — o que droga foi aquela discussão? Como assim "não vai me enrolar novamente"?

Suspirei, uma hora eu teria que contar.

— Branca segurou o meu primeiro show mais do que o necessário. Era pra gente tá trabalhando desde o final de janeiro, mas… ele lá teve os motivos dele, me subestimou. Não o culpo tanto, não foi ele quem viu nossa apresentação no pub londrino — os raios de sol nos alcançaram, apertamos os olhos em resposta. Voltei a caminhar com ele, em busca de uma sombra. — O que importa é que eu fiz ele engolir a incredulidade dele com o meu primeiro show, e vamos fazer novamente, com o segundo.

— Ei! — Magne nos chamou — Dá uma olhada nisso.

De repente subiu um cheiro de pipoca e algodão doce, ouvimos os gritos das crianças, e uma melodia de caixinha de música tocava em loop. Fui até ele, em passos calmos, acompanhado pelo Paul, e consegui ver melhor do que se tratava: um parque de diversões a poucos metros daqui.

— Um parque? Quantos anos você acha que eu tenho? — indagou Paul.

— Deixa de ser careta, é só um pouco! Foi o último passeio que eu fiz com minha namorada em Oslo antes de topar a viagem de Londres.

Levei as mãos aos bolsos e refleti sobre aquela história. Lembrei das conversas que tive com o Michael, uma em específico na beira da piscina do The Lindbrook. Eu o levaria àquele parque, nem que eu tivesse que suportar ele dirigindo.

— Vamos! O último a chegar é o Loki grávido de um cavalo!

— Eu não acredito que você usou a lenda nórdica do Sleipnir pra isso — murmurou Paul.

— Vamos! — exclamei, gargalhando.

Seguimos até o parque de diversões e brincamos em alguns daqueles brinquedos. Magne foi em praticamente todos eles, Paul se conteve nas barraquinhas de tiro ao alvo. Já eu, não quis me divertir muito, eu queria ter aquele momento com outra pessoa.

Notas finais
Próximo capítulo: — “O a-mor é a ra-zão”… “tam tam tam”... — Tá fazendo o quê? Tive um mini infarto nesse momento. Suspirei e fiz um movimento negativo com a cabeça. — Nada… — É uma música. Foi você quem fez? Eu posso ver? — indagou Paul. Na verdade eu não queria que ele visse, era algo íntimo, mas não posso negar que uma ajuda do Paul seria interessante, ele compõe a mais tempo que eu. Cedi o papel com um pouco de mal gosto. Ele pegou e leu. — Uau… é boa. [...] Quem foi o brotinho que te inspirou? Eu soltei uma risada de canto. Não era uma risada de alegria, tinha um pouco de revolta… Queria poder dizer a verdade, eles são meus melhores amigos, mas tem certas coisas nessa vida que eu não quero pagar pra ver.