Notas iniciais
Parte 2 do dia! Aproveitem ♥

Encino, Califórnia – 14:10 hrs

17 de junho, 1983

"Minha respiração vem rápida

E enquanto eu tomo uma iniciativa

Você se vira para partir

oh, oh…"

Violão no colo, sol de um início de tarde veranil tocando tudo que alcança e uma sala marrom com janelas abertas; era essa a situação em que eu me encontrava naquele dia de junho.

É a primeira vez que eu escrevo nesse mês. Michael precisou sair a trabalho, viajou pra outro país e não me disse pra onde foi, simplesmente me confiou o condomínio e os funcionários. Nesse ínterim, adoeci, a coisa foi feia e a minha voz ficou uma merda, mas ainda tive ideias pra uma composição nova. Não posso negar… pensei completamente na situação em que eu me encontrei: ele vai embora e me deixa aqui, e eu fico sozinho, sem ninguém pra fazer barulho, pra me salvar dos meus pensamentos. Às vezes acordo apaixonado por ele, às vezes quero desistir de tudo. Porém, no fim das contas, o amor é a razão pra tudo isso.

"Farei o que você quiser que eu faça

Chorarei ao mero pensamento de perder seu coração

O amor é a razão

O amor é a razão

O amor é a razão… suficiente"

Pensei nele, e isso me cansou. Suspirei, deixei o violão de lado — forçar a voz nessas horas era terrível —, me levantei e fui me arrastando até a cozinha. Eu sei que Michael tinha alguns funcionários, mas dispensei todos, eu não queria que ninguém ficasse doente por minha causa (apenas pedi pra a dona Remy vir me ver uma vez no dia pra ter certeza de que eu não morri). Quando cheguei na geladeira, procurei os ingredientes pra fazer um chá, isso sempre aliviava a inflamação da minha garganta.

— "O amor é a…" cof, cof!! Ah, fy faen…

Suspirei e comecei a preparar o chá. Drittsekk… se eu não posso cantar, eu devia pelo menos pôr alguma música pra tocar, isso aliviaria um pouco a minha situação. Deixei a chaleira no fogão e calcei umas luvas pra mexer na coleção de discos do Michael — e fiquei longe dos do James Brown, ele me mataria se soubesse que eu remexi na coleção do ídolo dele.

— Hum… "Off The Wall".

Caramba, os anos 70 nos Estados Unidos deve ter sido uma loucura. Virei a capa pra escolher uma música das listadas naquele álbum e li o título de uma que me parecia familiar. Vai ser essa mesma!

Coloquei na vitrola que o Michael tinha e deixei fluir.

"Adorável!

É a sensação agora

Febre!

A temperatura está aumentando agora

Poder! (oh, poder)

É a força, o voto

Que faz isso acontecer!

E não pergunta o porquê, oh!"

Essa melodia, esse ritmo… Essa era a música da balada em que eu fui com a Judy! Eu nunca me esqueci dessa música, mas a correria me impediu de ir atrás do autor. Que coincidência, como eu não percebi que era ele?

— Hum… "Continue. Com força, não… Não pare até ficar satisfeita." "Tam tam, tararam tam…"

Comecei a estalar os dedos, tentando gravar o tempo de cada nota e entender a construção harmônica daquela música. Tinha algo nela que me agradava muito, talvez o algo que faltava na minha canção. Os estilos eram completamente diferentes, minha praia era synth pop, mas não custava tentar.

— "O a-mor é a ra-zão", "tam tam tam".

Ouvi o telefone tocar lá no fundo da canção. Interrompi o disco e fui atender ao terceiro toque, quase morrendo de cansaço.

— Hallo…

— Morten? É o Michael!

— Ei! Cof, cof!! Ahm… tá tudo bem aí?

— Ainda tá doente? Eu vou chegar aí amanhã. Remy está cuidando de você?

— Sim, tá sim… — nem vou dizer que dispensei a mulher, ele vai ficar puto — às vezes eu acho que fiquei doente porque você está longe.

Ele deixou uma risada tímida escapar.

— Nem pense em jogar a culpa em mim. O seu corpo pode não estar acostumado com a mudança de clima do país, talvez…

— Não é como se só existisse inverno na Noruega, okay? Mas vou acreditar na sua hipótese. Espero que o verão passe logo.

— O verão acabou de começar, Morten, você vai ter que se acostumar. Mas vai ficar tudo bem, logo eu vou chegar e…

Ele ficou em silêncio. Eu levantei as sobrancelhas.

— … e vai cuidar de mim?

— É. Bom… — ele parecia desconcertado.

Eu ri e dessa vez não provoquei.

— Você conversou com sua família recentemente? — disse ele.

— Sim, já contei minha situação. Também vou enviar uns presentes pra os meus pais assim que melhorar.

— Legal, eu vou querer ajudar nisso.

A chaleira começou a chiar alto e eu enfim me lembrei que a tinha deixado no fogo! Puta merda!!

— Michael, eu volto logo!

O telefone ficou lá, pendurado na parede. Corri que nem um puto até a cozinha e desliguei o fogão (legal, agora o meu chá só não é mais quente que a porra desse verão! Bebida perfeita pra eu foder o resto da minha garganta).

— Droga…

Pensei em preparar isso depois, voltei pra me despedir melhor do Michael.

— T-tá tudo bem?

— Oi! Tá sim, eu esqueci uma coisa no fogão.

— Morten, mas a dona Remy não está aí com você?!

— Claro que tá! Só… — ai, meu caralho. O que eu falo?? — Ah, Michael, eu não amputei as pernas, eu posso fazer algumas coisas sozinho!

— Okay… vê se sobrevive, eu tenho muita coisa pra te contar quando chegar. Até amanhã, Morten.

— Tchau, neném.

— M-Morten…

— Ah, não posso te chamar de "neném"?

— E-eu não sei, eu… Ah, você é um chato, só faz isso pra me provocar!

Eu ri.

— Sim, isso mesmo. Tchau, neném, até amanhã.

Assim que desliguei, todos aqueles sentimentos da manhã retornaram. A voz dele me lembrou de onde eu tirei forças pra escrever aquela canção, e de como era estranho o jeito como ele mexia com o meu coração. Ele não precisava fazer muito, eu até tentava esquecer um pouco o nosso lance, mas eu nunca tive sucesso nisso. Eu era um idiota emocionado e patético…

Dei um jeito de tomar o meu chá, eu queria dormir um pouco antes da noite chegar, pois eu sabia que ele me ligaria novamente, e eu estava incontrolavelmente ansioso por isso.

x ----- x

21:03 hrs

O telefone tocou pouco depois de eu ir pra cama. Não precisei sair pra atender, o aparelho estava do meu lado; me inclinei e puxei o fio.

— Alô.

— Ei, Morten. Te acordei?

— Eu não tinha ido dormir ainda. Que horas são aí?

— Umas cinco da manhã… logo estarei indo pro aeroporto. Como você está?

— Melhor. Por que você tá sussurrando?

— Porque é de manhã aqui, Morten — ele riu baixo. — Não sei, é costume falar baixo nessas horas.

Eu concordei em silêncio e não tive mais assunto nenhum. Ele pareceu estar no mesmo barco, pois até tentou iniciar algo, porém nada saiu.

— Eu…

— Michael… — murmurei. Na verdade, minha boca foi mais rápida que os meus pensamentos; eu não sabia muito bem como falar, mas sabia o que queria falar — pensei em você o dia todo. Estou com saudades.

— Eu sei… eu sei, eu vou estar aí logo. Prometo que não saio mais sem você.

— Eu posso te perguntar uma coisa? Seja sincero… — ele consentiu e eu prossegui — eu sou o único que está enlouquecendo com o nosso lance, ou você também? Eu sou o único que pensa em você, que lembra de você nas músicas, nos lugares, que fica ansioso pra ouvir sua voz de novo, ou você também passa por essas coisas comigo?

— Isso é paixão, é comum. Nos primeiros dias, nos primeiros meses, talvez nos primeiros anos… isso é bem comum.

— Mas você… também sente isso?

Ele suspirou depois de um longo tempo em silêncio.

— Sim. Eu… eu estou… eu sou apaixonado por você, pela sua voz. Eu gosto de te ouvir cantar pra mim.

Ouvir aquilo me surpreendeu. Eu sei que não devia, mas surpreendeu. Michael sempre foi muito tímido, às vezes eu me perguntava se ele gostava de mim de verdade, ou se sentia vergonha, e eu não o culpava por isso. Eu tinha medo de ser um fardo, um motivo de vexame. Talvez fosse neura minha, mas eu realmente cogitei estar confundindo as coisas entre a gente, vai ver ele nunca quis que isso avançasse. Mas agora… agora eu tinha certeza de que todo meu amor era recíproco, e que eu não estava ficando maluco.

— F-falando nisso, eu tenho… eu fiz uma música pra você.

— Pra mim? — pelo tom de voz dele, parecia surpreso, talvez ruborizado. Ah, eu daria tudo pra vê-lo agora — Você sabe que eu adoro música.

— É, eu sei, não tem presente melhor — ri baixo, mas fui seguido por umas tosses agressivas, minha garganta tava uma merda. — M-mas você vai ter que me esperar melhorar pra eu cantar.

— Eu vou adorar, você sabe. Obrigado, Morten…

— Não agradeça, você merece. Você… você sabe que o amor é a razão da gente estar insistindo tanto nisso, não é?

— Sim… é a única razão.

Sinto que dizer aquelas palavras pra ele foi como tirar uma faca do próprio peito. Michael não tinha motivo suficiente algum pra lutar contra as próprias crenças, a família, a mídia e a sociedade, não tinha nenhum motivo, exceto aquele. Eu tinha medo, não sei o quanto, mas tinha medo de perder aquele motivo. Eu choraria ao mero pensamento de perder o coração dele.

— Eu te amo.

Ele ficou em silêncio e não me respondeu.

— Morten…

— Não precisa devolver, se não estiver pronto. Eu só queria que você soubesse disso.

Ele custou a responder, mas eu pacientemente esperei por suas palavras.

— Não pense que eu não amo você. Só… ainda estou aprendendo a lidar com esses sentimentos. Eu nunca tive dificuldade em dizer "eu te amo" pra alguém, mas com você… é diferente — ouvi sua voz embargar e aquilo me fez engolir seco. — Acho que eu quero ter certeza absoluta.

— Você não tem?

Meu coração acelerou com aquele silêncio. O medo de perder aquele contato me dominou por alguns instantes.

— Não. Não tenho certeza… o que é isso…

— Isso se chama "amor", mas você ainda não aceita — murmurei. Não consegui disfarçar o meu tom entristecido, porém já conformado. — Eu ainda te amo. Isso não vai mudar. Eu quero te ver logo.

— Daqui a pouco estarei aí. Boa noite, Morten.

— Bom dia pra você.

Assim que ele desligou, eu soltei um suspiro e deixei a única lágrima que havia se acumulado nos meus olhos descer. Michael me deixava numa montanha-russa de sentimentos, e era louco como ele parecia não ter a mínima noção disso.

Notas finais
Próximo capítulo: O carro chegou. Era um Volkswagen Rabbit 83, preto, horroroso — sério… eu, com o dinheiro dele, compraria um Mustang ou uma Porsche vermelhinha. Olhei de longe antes de me aproximar e arqueei a sobrancelha quando vi 2 seguranças carregando malas extras. Lembro que o Michael não tinha levado muita coisa. — Mas… será possível…? Sussurrei, eu não estava acreditando. Michael foi o último a sair; antes dele, duas pessoas se retiraram do carro, dois caras que eu conheço bem.