Diário de 83

27 Camaleão do Rock


Encino, Califórnia – 13:33 hrs

15 de agosto, 1983

— Um, dois, três, quatro!

Estávamos ensaiando "Take on me" novamente. Já havíamos repetido essa música tantas vezes que o refrão impregnou na minha mente. Eu ouvia "Take on me", eu suava "Take on me", eu não estou suportando mais!

"Me dê uma chance…

Me aceite…

Eu irei embora!

Em um dia!"

Puxei o agudo o máximo que consegui. Paul sorriu quando terminei, finalizamos a música e demos 5 minutos de intervalo.

— Muito bom! E Mags, esse teclado tá show.

— Eu acho que esse teclado deveria vir acompanhado, sinto falta de uma segunda melodia de base, ou quem sabe uma alteração no campo harmônico… — murmurou Magne.

— Cara, se for mudar, muda logo, o show tá na porta — eu comentei.

— Não vai dar tempo, vamos com essa.

— Eu preciso mudar, esse show é decisivo!

— Porra, deixa ele mudar, Paul…

— Não, a gente passou um mês e pouco treinando em cima dessa! Se mudar, vai dar merda, tô te falando.

Eu suspirei. Bom… já deu pra ver que, às vezes, a gente diverge. Magne ficou mais cismado com os arranjos que fazia desde que o Paul praticamente tirou os créditos dele com o Michael. Acho que ele sentia que não parecia estar dando muito pela banda… Bom, eu não sei, eu nunca me importei em parecer fazer muita coisa, eu somente queria fazer o melhor nas minhas funções. Eu não escrevia, não compunha, não mexia com os instrumentos, mas uma coisa era certa: eu daria 200% de mim nos vocais.

— Se vocês não pararem, eu encerro esse ensaio, tô falando sério…

— Hoje já deu, eu tô fora.

Magne guardou o teclado na case, pegou o casaco e se retirou. Mal conseguimos pensar sobre o que houve, assim que ele abriu a porta, Michael adentrou à sala.

— Morten, gente… eu… — ele parou de caminhar e observou nós três distantes uns dos outros — atrapalhei alguma coisa?

— Não, fala aí.

— Bom, você sabe que eu tenho um compromisso hoje, e eu consegui, de última hora, encaixar vocês três. Vai ser uma experiência interessante.

— Espera… você conseguiu??

Ele aquiesceu, estampando aquele sorriso vitorioso.

— O que ele conseguiu? — Paul indagou.

Nenhum dos caras sabia, Michael contou apenas pra mim porque não tinha certeza se conseguiria garantir a vaga dos dois e não queria deixá-los chateados… sabe, coisa de Michael.

— Ingressos para simplesmente a melhor turnê musical do ano!

— A Serious Moonlight Tour do David Bowie — Michael anunciou.

— O quê?!

— Eu tô dentro — Magne retornou com os olhos brilhando.

Nós três fizemos uma roda ao redor do Michael, que exibiu três livretos com a setlist, fotos inéditas e outras informações importantes da turnê. Ele deu um a cada um de nós.

— É autografado?

— Se vocês quiserem, é só pedir a ele.

Quando ele disse aquelas palavras, meu coração quase saiu pela boca.

— E-espera aí… cara, você não tinha dito isso pra mim.

Ele riu.

— Não temos ingressos comuns. Vocês vão me acompanhar nos bastidores.

Quando ele confirmou as minhas suspeitas, eu olhei pros caras, completamente perplexo. Fizemos um “toca aqui” rápido, eles estavam ansiosos pra xeretar aquele livreto. Eu me contentei com as palavras do Michael, olhei pra ele e sorri de volta.

— Bom, eu tenho que dar algumas instruções a vocês. Eu ainda vou passar no estúdio, então irei de lá para o show. Vamos nos encontrar lá.

— O seu motorista tá ciente?

— Todos estão. Alguém vai vir aqui avisar a vocês a hora de partir.

— Beleza. Putz! — levei a mão à fronte — O show é à noite, não é?

— Claro. Por quê?

— Estou esperando um pacote dos meus pais, sabe como é. Estou ansioso pra abrir logo, tenho saudade deles.

— Acho que dá tempo de você receber seu pacote — Michael sorriu. — Vai dar tudo certo, Morten, fica tranquilo. Bem, agora eu vou deixar vocês ensaiando.

— Acho que ninguém aqui tá com cabeça pra isso agora — comentei. Paul e Mags riram em seguida.

— Olha só isso, minha mão tá tremendo…

— A gente não vai conseguir pensar em outra coisa — comentou Paul.

— É uma pena. Eu estava ouvindo dos corredores e gostei bastante! Eu faria uma alteração no campo harmônico para potencializar as notas, ou colocaria um segundo som de base para o teclado, embora ache mais complicado casar duas estruturas sonoras diferentes.

— Não disse? — Mags murmurou.

Eu segurei um riso.

— Valeu, Michael — me virei pros caras. — Vamos repetir pelo menos duas vezes, depois a gente encerra.

Michael saiu e nos deixou trabalhando, os caras realmente tentaram depois daquela novidade, mas os resultados foram medianos. Ninguém ali realmente se importou, não enquanto isso fosse apenas consequência da nossa ansiedade para o show.

x ----- x

19:12 hrs

— Deixa aí. Obrigado.

Dois homens carregaram os últimos espelhos para dentro do meu quarto. Àquela altura o Michael já tinha saído e era com isso que eu tinha contado. Paul estava em outro cômodo, apenas o Magne flagrou aquele momento; ele ficou olhando os homens irem embora e, assim que saíram, iniciou o interrogatório.

— Era esse o pacote dos teus pais? O Michael sabe disso?

Suspirei de cansaço.

— Vai embora, não tem nada pra ver aqui.

— Por que teus pais mandariam espelhos? Será que o narcisismo é de família?

— Cara, sai, sai…

Eu o empurrei pra fora do quarto. Magne riu e deu uma de "muralha", ele era mais alto que eu e tinha ombros mais largos… hunf, aproveitador.

— Vai, fala! Eu não vou contar, juro!

— Você já tá pronto? David Bowie, esqueceu? Vamos logo, não quero perder o "camaleão do rock"!

— Estamos bem adiantados até, o motorista só vem daqui a meia hora. Se não quer falar, é só dizer.

— Eu não quero mesmo. Vamos sair.

Fechei a porta do quarto. Magne levou as mãos aos bolsos.

— Pensei que a gente fosse amigo.

Ah! Droga, merda! Por que ele tinha que usar essa frase?! Naquela hora, o peso na consciência veio com força, não era de hoje que eu tinha parado de incluir eles nas minhas ideias, e eu realmente pensei que eles nem ligariam. Quer dizer… o Paul nunca reclamou, mas o Mags… ele me conhece melhor.

Drittsekk…

— Tá, olha… aquilo não é nada demais. É uma coisa que eu… que as irmãs do Michael me pediram pra fazer pro aniversário dele, ele não pode saber, só isso.

Não sei o que é pior… esconder as coisas do amigo, ou contar com uma mentirinha. A verdade é que eu ainda não me sentia seguro.

Ele arqueou a sobrancelha.

— Mas elas não são "TJ"?

— M-mas… eles podem dar presentes um pro outro, ué! Isso nunca foi proibido.

— Hum…

Depois daquilo, a conversa morreu. Eu até torci pra isso acontecer, não queria ter que me explicar mais do que isso. Seguimos por cantos diferentes e eu fui dar uma última olhada no espelho da sala antes de procurar o motorista.

Naquela noite, eu usei as roupas mais loucas que eu encontrei, talvez até assuste o Michael, mas os caras já estão acostumados com o meu estilo: jaqueta preta e aberta de couro sem mangas, calças pretas de couro, coturnos e as minhas pulseiras e gargantilha de sempre juntamente com um cinto de cordas combinando. Passei tinta platina em pó em algumas mechas do cabelo e eu não estava usando camisa alguma. Show, baby!

Daqui a 30 minutos estaríamos no melhor show do ano, e eu não queria que nada atrapalhasse essa experiência.

x ----- x

Los Angeles, Califórnia – 23:40

"Vamos dançar!

Ponha seus sapatos vermelhos e dance o blues

Vamos dançar!

A música que estão tocando na rádio"

Estávamos no momento de pico do show, era tarde da noite e a plateia lá de baixo estava lotada. A área VIP pode ser o auge do glamour, mas é a coisa mais chata que existe no meio da fama! Conheci alguns famosos, porém nada se compara à agitação da galera de baixo!

E falando em agitação, os caras e eu éramos os únicos realmente animados de cima. Parecíamos três bêbados pobres, pulando e cantando alto sem nenhum pudor. Entrelacei um dos braços nos ombros do Magne, que entrelaçou o dele nos ombros do Paul, em seguida começamos a cantar.

"Porque meu amor por você

Quebraria meu coração em dois

Se você deveria cair

Em meus braços

E tremer como uma floooooor!"

Michael olhava tudo de longe. Eu não vi se ele estava sorrindo ou morrendo de vergonha, mas eu tava adorando! Bowie olhou pra área VIP e sorriu, nós realmente éramos uns dos poucos malucos empolgados no meio do grupinho seleto.

O show terminou bem tarde. Nós três corremos pra nos juntarmos ao Michael nos bastidores, porém ele ainda não tinha ido.

— Estou esperando a Cher e a Midler.

— Tá bom, chefe, a gente espera.

Ele riu baixo.

— O que acharam do show?

— Ótimo…

— Excelente.

Paul e Mags responderam. Nos olhamos e rimos em seguida.

— Estamos nervosos, só isso. Tenha empatia, a gente não se acostumou com esse tanto de famoso ainda — comentei.

Michael aquiesceu em silêncio. Cher, uma morena alta de pele clara, se aproximou logo em seguida.

— Vamos, Michael? — ela olhou pra nós três e sorriu — Humm, quem são os três bonitões?

Os caras ficaram completamente desconcertados. Eu segurei um riso e umedeci os lábios.

— Morten, Paul e Magne. Eles são uma banda, estão comigo.

— Vocês não fazem ideia da sorte que têm em estar ao lado desse gênio — ela levou as mãos aos ombros do Michael e o chacoalhou levemente. Ele sorriu, meio bobo.

— C-Cher…

— Eu concordo, eu virei fã. Estou acompanhando ele de perto desde fevereiro e ainda não vi tudo.

Michael olhou pra mim e sorriu.

— Bem… vamos. Se não quiserem perder o papo com o Bowie, é melhor irmos logo.

Os caras comemoraram e seguiram em frente com a Cher, seguranças e gente de apoio que saiu de tudo quanto é buraco pra cercar os famosos. Eu fui atrás com o Michael, não tinha pressa alguma.

Ele me puxou discretamente pelo cotovelo.

— Que diabo de roupa é essa? — ele sussurrou.

Eu ri com o comentário.

— Gostou? Tinta no cabelo, peito nu…

— Pensei que você tinha ido se consultar com o Randy ou o Marlon, essa moda é muito a cara deles.

— Se eu soubesse, pediria dicas, mas infelizmente essa ideia foi minha — brinquei.

— Bobo… Está tentando me devolver o "ciúme" de semanas atrás?

— Hum… não, mas agora que você lembrou… é, estou.

— Pois não funcionou.

— Então, na próxima, venho pelado.

Michael gargalhou e segurou o meu pulso pra que a gente não se perdesse no meio de tantas pessoas. Faltava pouco pra chegar aos bastidores... Eu me concentraria naquele momento, não perderia nenhum segundo (até roubei o fotógrafo do Michael pra tirar as minhas fotos, já que não levei minha Canon).

Definitivamente não tem jeito melhor de aposentar aquela noite. Eu estaria ao lado do meu ídolo… Ah, e iria conhecer o David Bowie.

Notas finais
Próximo capítulo: Michael havia chegado tarde naquela noite, mas eu já havia planejado tudo, já havia planejado qual seria a primeira coisa que seus olhos alcançariam quando ele pusesse o pé dentro de casa. Ele tirou os sapatos, repousou o casaco cuidadosamente na poltrona e, provavelmente, desconfiou do silêncio da sala. Deixei uma série de fotografias espalhadas na mesinha de centro, as fotos do nosso karaokê na loja do velho Morty. Uma em específico marquei com canetinha: "tirei essa foto hoje". Ele sorriu, eu sei que sorriu, ele parecia confuso e feliz, como se estivesse relembrando e não soubesse o porquê. Havia mais uma série de fotos penduradas no apoio da escadaria. Michael foi subindo cada degrau, relembrando cada aventura. [...] Por fim, ele entrou. Estava escuro. Quando ele acendeu a luz, o pessoal e eu gritamos. — Surpresa!!