Diário Dos Sonhos
5 V. Preto
- Alice! Alice, eu estava tão preocupado. — era a voz de Daniel. Eu não sonhava com ele à um mês.
- Daniel? — sussurrei. Eu não conseguia vê-lo, estava em um local que parecia uma sala, totalmente escura. Sentia o chão sob meus pés, mas não conseguia ter certeza se ele era firme.
- Estou aqui. — senti sua mão tocar a minha, e então, uma pequena luz surgiu delas.
- O-o que é isso? — perguntei assustada. Minhas mão estavam brilhando?!
- O sonho ainda está se construindo. — ele sorriu.
Continuei olhando para nossas mãos, e vi a luz aumentar. Conforme ficava maior, parecia emanar a vida para o quarto escuro. O chão foi se transformando em grama, o céu azul apareceu. Depois vieram as árvores, as flores — Tulipas vermelhas, excepsionalmente -, o castelo. A grande árvore no meio do belo jardim, o balanço. O mesmo lugar que da última vez que sonharam com Daniel.
Fiquei sem ar com a visão de aquele sonho sendo criado.
- Eu fiquei preocupado. Você estava me bloqueando em teus sonhos, achei que houvesse acontecido alguma coisa com você. — ele me observava com aqueles lindos olhos verdes como esmeraldas.
- Te bloqueando?
- Sim, eu não conseguia entrar em seus sonhos.
- Com assim "entrar nos meus sonhos"? Achei que um sonho não precisasse de... permissão para entrar nele mesmo. — eu estava realmente confusa.
- Você sabe que eu não sou apenas um sonho.
- Você está brincando comigo.
- Eu não poderia estar falando mais sério.
Eu me sentei no gramado verde vívido, tentando entender o que ele dizia.
- Como isso é possível?
- Perdão por parecer rude, mas você tem que descobrir sozinha, Alice.
Eu não iria mais aguentar aquela história de "descobrir sozinha".
- Descobrir sozinha? É só isso que você pode me dizer? Você vem com todas essas histórias estranhas de "eu não sou um sonho", e me diz que eu tenho que descobrir isso sozinha? Como você quer que eu descubra algo que não sabia ao menos que era possível? — talvez eu tenha exagerado, eu sei. Mas eu simplesmente queria respostas.
E talvez meu exagero tenha deixado Daniel um pouco... espantado.
- O que foi? Vai ficar aí me olhando com essa cara de tolo? — ele estava simplesmente lá, parado me ollhando, com os olhos levemente arregalados.
- Eu... me desculpe, apenas não esperava essa reação. — ele sorriu um sorriso de desculpas. — Eu sei que parece loucura, sei como se sente, mas por favor, por favor, entenda: te contar tudo, pode ser muito perigoso. Existem algumas pessoas... que não são exatamente boas, atras de mim. E não quero correr o risco de que elas começem a ir atrás de ti.
- Que pessoas? — eu quis saber.
- Pessoas que podem fazer ruins comigo, e com você. Eu estou aqui somente para te proteger, dessas pessoas.
- Que pessoas? — perguntei novamente. Ele nunca respondia o que eu queria.
Daniel revirou os olhos impacientemente.
- Já que isso é tão importante para você, são dois irmãos chamados Davings, são gêmeos, e perigosos. Por hora, é tudo que posso dizer.
- Por que só pode dizer isso?
- Por que você tem de acordar.
- Não, de novo não! Sempre que você começa a me contar algo, eu tenho que acordar. — reclamei.
Qual era meu problema hoje? Por que eu não conseguia... simplesmente aceitar o que ele dizia, como nas última vez? Por que estava reclamando tanto? E principalmente, por que perguntava tanto?
- Eu sinto muito, meu anjo. Eu realmente queria que você pudesse ficar mais, só que agora é...
- Perigoso eu ficar. — o interrompi, terminando a frase.
- Na verdade não, mas você precisa resolver uma coisa acordada.
- Que coisa?
-Confie em mim.
- E então, onde está aquela flor que brilha e me faz acordar? — perguntei, olhando para baixo em busca da Tulipa.
- Hoje eu tenho uma ideia diferente para te acordar. — ele sorriu, mas um sorriso diferente. Um sorriso travesso.
- E que ideia seria essa? — perguntei desconfiada.
Ele se aproximou mais de mim, e com uma das mãos, ergueu meu rosto. Nunca olhei tão profundamente em seus olhos verdes, nem mesmo no dia em que tive as lembranças.
- Esta aqui. — ele sussurrou.
E me beijou.
Apenas um toque dos lábios, mas que conseguiram fazer meu coração bater tão mais forte, e minhas pernas tremerem. Suas mãos se entrelassaram nas minhas, e quando seus lábios se separaram dos meus e meus olhos se abriram, pude ver que ele já começava a desaparecer. Ou era eu que desaparecia?
Daniel sorriu novamente, um daqueles sorrisos de parar o trânsito, e desapareceu.
Quando finalmente acordei e abri os olhos, procurei por Anne no escuro, mas a sua cama estava vazia.
Me levantei, e passei a mão pelos lençóis. Frios. Seja aonde quer que ela estivesse, já estava lá a algum tempo.
Saí do quarto para ir em busca dela, e pude ver, não muito longe, uma luz acesa.
- Anne? — sussurrei, quando chegava perto da porta do cômodo que estava claro.
- O que você está fazendo aqui? — respondeu uma voz estranha, meio desfigurada que vinha de tras de mim.
Quando me virei, vi Anne parada lá. Acho que nunca me assustei tanto na vida.
- S-seus olhos. — eu tentei dizer. Os olhos de Anne, sempre tão amarelos e brilhantes, estavam totalmente diferentes.
Totalmente pretos.
Não havia a parte branca, ou a pupila, ou a parte colorido. Apenas preto.
Fale com o autor