Diário Dos Anjos

1 Capítulo 1 - Emily Scott


Viver parece tão complicado, né?

Pois é, nem tanto quanto a morte. Eu nunca em toda a minha vida me imaginei escrevendo em um diário, sempre me pareceu inútil. Imaginar um anjo escrevendo é mais inacreditável ainda. Parece contraditório com tudo, você se contenta em, de alguma forma, conversar com um objeto.

Mas sinceramente, é quem eu tenho pra conversar.

Eu perdi todos os meus amigos. Bom, nunca tive muitos, mas eram suficientes.

Hm... pra que serve um diário, mesmo? Ah, sim. Vou expressar sentimentos enquanto morta que não expressei enquanto viva. Ótimo.
Então vamos lá: Pra começar, eu não queria ser um anjo. E odeio o fato de ser um. É tudo estranho e constrangedor.

Eu sempre achei que morrer seria a melhor opção, mas não é.

Você morre e continua aqui, vagando pela Terra. De que adianta? E bom, é pior você esta aqui estando morta. Se eu pelo menos tivesse me apaixonado... Eu poderia estar no Paraíso, e ai sim, longe de toda essa bagunça no mundo. Achei que morta me livraria de tudo o que sempre encontrei na Terra, mas voltei pra cá. E voltei a ser a menina insignificante.

Ah, o Paraíso, la com certeza é diferente, livre de todo o mal. Mas eu não me apaixonei. É, em quinze anos de vida, nenhuma paixãozinha que pudesse me levar ao Paraíso quando morta. Nenhuma.

Fria. Isso, uma pessoa fria. Essa se torna um anjo, seja dos céus ou das Trevas, uma pessoa fria.

Sendo um anjo se tem deveres. Pelo menos disso eu gosto. Dos deveres. Tenho algo pra fazer, algo que preste. Dei sorte em uma coisa, uma só coisa: Não sou um anjo das Trevas.
Eles são tudo o que sempre, em toda a minha vida desprezei. Mesquinhos, preguiçosos e controladores. Não tem capacidade de fazer o mal, então levam as pessoas a fazê-lo. Idiotice completa, que me tira do sério.
Ser um anjo dos Céus tem prioridades imensas. Fazemos o que temos que fazer, levamos o bem até sem querer, e temos pequenos poderes a mais. Levitar coisas, ficar invisível, e blá, blá, blá. Novamente, não dei sorte. Só posso ter um desses poderes. E fiquei com o que mais temia. Tenho aquela capacidade irritante de convencer as pessoas a qualquer coisa. O que me lembra os malditos anjos das Trevas.

De novo, ser um anjo não é nada bom. Mesmo não sabendo, as pessoas te olham diferente, sentem que você é superior de alguma forma. Eu não gosto de ser superior, não gosto de ser diferente.

Sabe, geralmente eu passo o dia aqui, em frente ao apartamento da minha mãe. Passo o dia olhando pra janela do quarto dela. O dia percebendo como as coisas mudaram.

Meu pai sumiu desde o assassinato. Minha mãe nunca mais ouviu falar dele. Meu irmão se droga todos os dias, e quando chega em casa desconta tudo na minha mãe.

Minha mãe foi sempre tão alegre, divertida, forte... Agora sensível, triste e fraca. Fraca em tudo.

Nunca consigo sair daqui, parece que me sinto segura olhando pra janela do quarto. Sabe quando você é criança e de noite, quando não consegue dormir, o seu porto seguro é no quarto dos seus pais? Pois bem, me sentia segura ali, olhando pra aquela janela e de vez enquanto ver minha mãe passando por ali, ou sentada na varanda chorando, se lamentando da vida.

É triste, eu sei. Mas fazia bem poder ver minha mãe. Se ela me visse provavelmente iria achar que estava maluca, e que era ilusão, então não ligaria. Conheço ela, então não tinha tanto problema ficar ali.

É o que sempre pensam quando vêem espíritos. Anjos na verdade. Mas acham que os que vagam pela terra são os espíritos e não os anjos. Ta, na verdade, os anjos são espíritos. Os que não estão na Terra, estão no Paraíso. Queria ter tido essa sorte, e como queria.

Será que sair daqui vai me fazer bem? Sabe, a cidade deve ter mudado desde que morri.

Não sei, me causa um nó no estomago só de levantar daqui. Ficar aqui é bom, tranquilizante, sabe...

Acho que qualquer dia desses vou dar uma voltar por ai, fora desse mesmo quarteirão de sempre. Vou tentar ajudar algumas pessoas. Vai ser bom, né?

Vou tentar ajudar as pessoas, e me comunicar... é... me comunicar vai ser bom.

Ah, olha! Minha mãe novamente na janela. Ela é tão linda, os cabelos bagunçados e loiros acinzentados por causa da idade voam com o vento, seus olhos negros e penetrantes estão se enchendo de lagrimas ao olhar pro céu.

A Lua brilhava naquela hora, era o tipo de noite em que eu e minha mãe olhávamos a Lua e as estrelas. Víamos o movimento na rua, sirenes e buzinas, faróis acesos, lanchonetes cheias e o shopping aqui perto repleto de adolescentes.

Pelo menos ainda olhava o céu com ela. O ruim é que ela não olhava o céu comigo.

É bom lembrar sabe. Tinha noite que meu pai chegava por trás e envolvia minha mãe em seus braços e sussurrava aos seus ouvidos o quanto ela era importante. O sorriso sincero e simples se abria no rosto da minha mãe. O meu irmão era tão novo naquela época, passava o dia no vídeo game. Mas o dia de lua cheia, era o dia de lua cheia. A única noite em que com certeza a família passava junta. Era a melhor.

Era o dia que me sentia livre, me sentia realmente em uma família. Iguais aquelas de filmes.

Ela fechou a janela. O rangido que a velha madeira fez se ouviu do outro lado da rua. As cortinas estavam fechadas também agora, mas deu pra ver meu irmão chegando ao quarto, não consigo imaginar o que acontece agora.

Talvez ele esteja em um bom dia e se comporte como antigamente. O menino doce e inteligente que adora a família. E não o idiota e arrogante que não se importa com mais nada.

Ta doendo aqui por dentro de mim. Não sabia que anjos sentiam isso. Angustia. É. Esse é o nome.

Eu to com medo, parece que a qualquer momento vai sair um monstro de dentro do armário.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.