Diário De Um Sobrevivente
1 Segunda feira, 24 de dezembro de 2050
Segunda feira, 24 de dezembro de 2050
A cidade hoje parecia tão calma que dava medo. As ruas, completamente vazias acompanhada de um silêncio, banhava e torturavas as mentes em dúvidas. Sinceramente nunca havia visto este lugar de tal forma. Apenas os insanos ficaram depositados nas ruas e calçadas. Muitos deles já sem noção do perigo. Geralmente, quando a cidade ficava vazia desta forma, um conflito perigoso estaria por vir. Mas, somente fui compreender melhor tais atitudes após lembrar da data e do mês em que estamos. Vinte e quatro de dezembro. Véspera do nascimento de Jesus. Não que Jesus tivesse tanta importância na situação em especial. Para muitos, assim como eu, essa data não significa mais nada agora. Ela perdeu seu significado desde o começo desta guerra ridícula. Entretanto, de tanto comemorarmos isso, esse dia tornou-se especial dentro da cultura a que estamos acostumados. Quando digo “estamos” me refiro as pessoas presas a esse purgatório.
É, purgatório é como costumo chamar essa realidade. A cada dia que passo aqui, sinto perder mais ligação com meu passado. Pessoas sorteadas a esmo, foram mandadas a uma guerra, em uma, se é que posso chamar, de realidade paralela. Uma disputa ideológica e tecnológica entre duas alianças inimigas para conseguir o controle mundial. Faço parte da aliança política estadunidense que reuni principalmente os países americanos e alguns europeus. Sou inimigo da união Chinesa, onde os aliados são de países asiáticos ou com ideologias parecidas a da China. Não que escolhemos ser soldados ou algo do ramo. Uma parcela da população de cada país foi obrigada a “vir” a essa realidade paralela (ou mundo virtual, não tenho certeza) e lutar pela sua união. No fim, a única maneira de sairmos desse mundo falso e retornarmos a realidade para junto de nossas famílias e amigos será quando o número de pessoas de uma das uniões reduzir-se a quase zero. Ou seja, um extermínio descontrolado de um dos lados, decidirá o caminho do mundo real, e a salvação dos sobreviventes.
Estando nesse mundo nada mais importa, como estudos, romances imaginários e trabalho. O prioritário é manter-se vivo, sobreviver. Faz quatro meses que estou aqui e por algum motivo resolvi escrever sobre essa vida desgraçada nesse aparelho digital encontrado abandonado por mim hoje. Se eu morrer em meio a tudo isso, sinto que ao menos relatei um pouco desses acontecimentos. Talvez seja este o motivo de estar escrevendo agora esse diário ridículo. Ou, sei lá, pode ser que apenas quero desabafar como uma garota em seu diário secreto. Ou, isso nem é um diário e torna-se mais um relato de onde estou vivendo agora. De qualquer forma quero poder ler novamente essas escritas se retornar para minha casa “real”.
Enfim, o que fazemos aqui todos os dias seria fugir, ir ao comércio da cidade ou brigarmos. O comércio da cidade é o único trabalho digno existente aqui. Mesmo assim, os comerciantes, creio eu, são pessoas escolhidas pelas uniões para viver como comerciantes. É impossível tornar-se comerciante por vontade própria. Os comerciantes precisam de ter dinheiro para as trocas de produtos. Uma das únicas formas de ganhar dinheiro para seu sustento aqui é entrar para um clã lutando em batalhas. A maioria das pessoas fazem isso. O dinheiro ganho mal é suficiente para se alimentar, sendo impossível ainda usá-lo para trocar produtos. Há ainda a outra forma de ganhar dinheiro, desta menos favorecida e desejada. É o meu modo de viver. Vivo sozinho e sobrevivo da mesma forma. Nunca participei de clãs. Prefiro cuidar do meu próprio nariz, e organizar minha própria existência. Não suporto pensar em ser como um cachorro mandado por superiores como acontece nos grupos. Sempre ganhei dinheiro por trabalhos pagos pelos residentes dos clãs. Pedidos de roubos são os mais frequentes. É bem comum um estrategista de um clã pagar a pessoas como eu para roubar a estratégia do outro clã inimigo. No começo eu fiquei perdido, confesso. Após uns roubos tomei a prática e percebi a facilidade de tais atos. O dinheiro ganho é de valor maior que recebido nos clãs dependendo da quantidade de pedidos, porém poucos tem a capacidade para roubo ou a coragem necessária. Uma vez quase fui preso e morto por um clã chinês. Realmente só pude escapar porque conhecia melhor o local em que me prenderam do que os próprios prendedores.
Não que tenha tido experiências no crime no mundo real. Contudo tinha certa habilidade de correr mais rápido da média. E também sempre fui ótimo com estratégias nas aulas de xadrez. Sim, eu era um simples corredor, aluno do segundo colegial com idade de dezessete anos. Com uma vida entediante, voltada para passar em uma maldita prova para decidir o que faria do meu futuro. No fim, estou passando meu futuro aqui, irônico, não?
De qualquer forma eu estava escrevendo sobre a véspera de natal. Esse dia me lembra inúmeros fatos. Comida farta, família reunida, presentes e o nascimento de Jesus. Sinto saudade daquela época. Na época eu morava com meu pai e minha irmãzinha, Kallen. Meus pais eram separados, e não tinha muito contato com minha mãe, mesmo assim não ligava muito. Na maioria dos casos encontrava-se famílias incompletas.
“Moro” em um apartamento de um prédio abandonado e pouco afastado do centro de compras. A maioria das cidades são formadas por inúmeros prédios. E por incrível que pareça existe abandono de prédios. Nesse mundo também existem cidades, mas não normalmente. As cidades são poucas. Ou seja, há muitos espaços “vazios” que são utilizados como estações de guerra. Para não haver destruição nos centros comerciais as disputas entre as uniões ocorrem mais afastadas. Tem também os lugares preferíveis de moradia entre os clãs, que geralmente ficam afastados de todo o resto por abrigarem muitas pessoas e ocuparem muito espaço. Desta forma os moradores dos núcleos, centro comercial, ou melhor, as cidades, residem apenas os comerciantes, viajantes e pessoas como eu. Engraçado é eu não me acostumar até hoje na ausência de um governo já que aqui não há regras. As regras são feitas pelos grupos e se descumpridas tem apenas o caminho da morte. Há comparo com a ideologia anarquista as vezes, e, posso perceber, que não ter um Estado pode-se transformar em um problema também.
Agora, neste quarto em um prédio cinza abandonado iluminado por uma vela, está apenas um adolescente enrolado em uma coberta rasgada, sem mais nenhum valor. Antes eu também não tinha um grande valor. Entretanto meus sonhos valiam muito. Sonhos que nem existem mais, sobrepostos com a imensa vontade de voltar para a casa em que deixei. E nisso restou apenas um garoto solitário. Ou um ladrão inexperiente. Tudo pode mudar aqui. Tenho medo por não ter nenhuma firmeza do futuro, acho que ninguém o tem. Porém essa incerteza aumenta muito aqui. Muito mesmo.
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