Diário Crônico
7 Despedida - 08/09/2016
O último dia de aula não foi nada bom. Hoje é meu primeiro dia de liberdade, mas não mudou muita coisa para mim. Apenas o fato que acabara a escola e vou me mudar para longe, bem longe de Vancouver.
— Quando vamos para os Estados Unidos? Seria melhor irmos um mês ou dois antes para arrumarmos o apartamento e nos habituar. — Gale estava me abraçando por trás.
Não respondi.
— Que foi amor? Até parece que não quer ir ante para conhecermos vários lugares antes do inferno das aulas começarem...
— Tanto faz... – disse baixo e encarando meus pés.
— O que deu em você? Ficou de cara emburrada a aula toda, mal falou no recreio e agora esta estressada?
Suspirei.
— Desculpa, eu estou me sentindo péssima.
— Meu amor, é nosso primeiro dia de liberdade. Devia estar feliz.
— Devia, mas não estou.
Gale me soltou lentamente vindo para minha frente. Encarou-me até eu olhar para ele.
— O que está havendo? Não está feliz? Vamos para os Estados Unidos, tivemos a sorte se passar para mesma Universidade. Teremos uma vida juntos Zoe!
— Não é isso que me incomoda Gale.
— O que te incomoda?
— Mary. Não consigo ficar sem ela nem um diazinho, imagina um ano? Só vou vê-la nas férias de verão, não estou preparada para isso.
— Zoe, a Mary tem a vida dela. Eu sei que vocês são irmãs praticamente e precisam ficar juntas, mas isso é o futuro de vocês. Ela ganhou a oportunidade de competir uma vaga para a Universidade que ela sempre sonhou. E você também ganhou a sua.
— Mary desde criança sonhava em ter suas roupas sendo usadas pelas modelos em enormes passarelas... — disse enquanto me lembrava de quando brincávamos no quintal da casa dela — e eu sempre quis ser a melhor obstetra do ramo.
— Exatamente. Vamos cursar Medicina, nosso sonho.
— Mas no meu sonho Mary estava com a gente.
— Por que vocês não marcam de se ver hoje? — disse Gale por fim.
— Ótima ideia.
Mary estava sentada na última mesa do Baney's Club, uma antiga lanchonete que íamos desde sempre. Ela estava de óculos o que era incomum depois que começou a usar lentes de contato. Seu cabelo liso estava em ordem, mas seus pensamentos estavam um bagunça. Dava para ver no modo como ela estava nervosa olhando para a janela de vidro ao seu lado. Meus cachos desordenados caíram no meu rosto, o soprei para longe e caminhei até a mesa onde ela estava.
— Achei que não ia vir. — ela disse pegando o sal e abrindo.
— Eu estava me arrumando. Coloquei um perfume novo só para essa ocasião. Quer cheirar? — ofereci meu pulso, mas ela o rejeitou e mostrou a língua.
— Palhaça. — ela disse e pegou uns grãos de sal e colocou na língua. — Temos que...
— Conversar. — completei
Ficamos alguns longos segundos sem falar nada, mas quando o silêncio estourou nossos ouvidos falamos juntas a mesma frase que estava agarrada na garganta.
— Não quero ir para faculdade sem você! — nós duas falamos juntas, na mesma hora. Olhamos uma para outra e rimos.
— Gale não entende que não posso ficar longe da minha melhor amiga por esse tempo. – disse segurando sua mão convidativa sobre a mesa.
— Zoe, mas não podemos desistir do nosso sonho.
— Eu sei. Como vamos fazer isso?
— Tenho uma ideia. Você tem algum compromisso hoje? – ela perguntou com um sorriso torto ajeitando seu óculos de aro preto no seu rosto branco e redondo.
— Não... O que está pensando em fazer? – disse chegando mais perto para ouvi-la como se aquilo fosse um segredo.
— Podemos passar o dia juntas fazendo várias coisas. E já sei por onde vamos começar. – ela se levantou e puxou minha mão para longe daquela mesa e longe do Barney’s.
Não tenho o que dizer sobre hoje. Em alguns momentos nos abraçávamos já sentindo saudades, mas combinamos de todo dia nos falarmos pelo Skype. Mary e eu fomos para a casa dos meus pais e ficamos no sótão lendo nossos diários uma para outra. Era meio que uma tradição que fazíamos quando crianças. Choramos juntas quando lemos alguns pedaços dos últimos meses. Nós duas estávamos sofrendo com nossa separação. Ela detalhava que iria fazer um desfile e me chamar para ser a estrela principal, e eu disse que sentiria a honra de ser a médica a realizar seu parto. Choramos de novo.
Depois fomos para o parque que tinha aberto na cidade para a época de campanhas políticas. Andamos em quase todos os brinquedos, só não fomos ao brinquedo do palhaço devido ao meu medo intenso.
— Você é toda fresca com sua coulrofobia. – Mary me zoou quando sai correndo da frente do cartaz onde apresentava um enorme palhaço risonho.
— E você tem tripofobia! Bem mais fresca.
Quando deu quase 22:00 da noite o parque fechou e caminhamos até a casa da Mary. Liguei para meus pais dizendo que ia dormir na casa dela, mas a intenção não era dormir e sim ficar acordadas até tarde planejando nossas vidas.
— Casa ou apartamento? – perguntei a ela.
— Apartamento. Gosto da possiblidade de ter um vizinho gostoso e vê-lo todo dia chegando em casa depois da corrida matinal coberto de suor. – disse quase caindo ao imaginar a cena.
— Você não presta! – rimos.
— Casar cedo ou depois de se formar? – ela perguntou
— Depois de se formar. Ou seja, daqui a uns 10 anos.
— Espero poder ir ao seu casamento. – ela disse triste.
— Amiga não diz isso. Vamos ter horas exaustivas de trabalho, mas teremos tempo para poder nos ver. Pelo menos umas quatro vezes no ano. Nem que eu peça para meus pais nos derem as passagens.
— Será que vamos perder o contato?
— Já disse que vamos nos falar todos os dias. Você vai ter que me aguentar muito ainda Mary.
Abracei minha amiga e desejei que aquele momento durasse bastante.
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