Diário 2.0

40 R1Q1 para R2Q2


Não há uma garantia escrita

As coisas que aconteceram ontem

Pertencem à história

Não posso prever o futuro

Não posso mudar o passado

Eu tenho apenas o agora

E devo trata-lo como o meu último.

— Live for Today, Margo L. Daniel, 1997 -

Rachel apoiou a bochecha contra o ombro de Quinn enquanto ria de Benjamin contando dos rituais de preparação pré-seccionais. Russell tinha as sobrancelhas franzidas olhando para o filho mais novo tentando entender o porquê do gargarejo tão repulsivo que os integrantes do clube haviam feito.

— Ben, bastava vocês terem aquecido a voz do jeito que eu ensinei. – Rachel negou com a cabeça. – Eu deveria ter supervisionado isso.

— Eu sei que foi nojento e se Callie tentar nos fazer gargarejar aquilo de novo eu tenho certeza que Leighton vai revidar e não vai ser legal. – O adolescente estremeceu, mas um pequeno sorriso tímido lhe tomou os lábios quando olhou para Quinn. – Beth me ligou antes de subirmos ao palco… eu meio que gosto quando ela me chama de tio Ben.

Quinn ofereceu um pequeno sorriso para o rapaz e concordou com a cabeça. Ainda estava tentando se ajustar aquela novidade, ter um irmão, Frannie e Russell outra vez tentando ser tão presentes. Russell ergueu a mão quando a atende se aproximou com a conta, Quinn automaticamente levou a mão para a bolsa na tentativa de recuperar a carteira.

— Eu pago. – Russell puxou o cartão.

— Podemos dividir. – Ela argumentou.

— Quinn, eu convidei vocês para jantar, então eu pago. – Ele olhou para a filha arqueando a sobrancelha do mesmo jeito que Quinn sempre fez, a loira se contorceu e ia abrir a boca para argumentar quando a mão de Rachel repousou em seu braço com um aperto suave.

— Acho que podemos deixar seu pai nos fazer essa gentileza hoje. – A judia falou calmamente. – É claro que da próxima vez será a nosso convite e ele nos deixará pagar, certo?

Russell hesitou na hora de responder, mas o olhar de Rachel o fez suspirar e concordar com a cabeça. Rachel abriu um sorriso largo e acariciou o pulso de Quinn.

— Ótimo, pequenas concessões vão nos fazer chegar ainda mais longe. – Ela piscou para Benjamin que tentou esconder o sorriso esvaziando o copo de refrigerante. Quinn se levantou e puxou a cadeira de Rachel apenas um pouco para ajudá-la a levantar, a Berry sorriu para a namorada.

— Beth queria vir esse final de semana, mas como Shelby também tinha competição concordamos que ela ficaria em LA, mas ela vem para as regionais. – Quinn falou olhando para o pai. – Talvez quando ela estiver aqui possamos fazer algo juntos.

Russell sorriu como uma criança na manhã de natal. – Eu gostaria disso, eu realmente gostaria disso.

— Hnnn… — Quinn apoiou a mão na lombar de Rachel enquanto eles saiam para fora do restaurante. – Ela gosta de softball, Puck costumava procurar por jogos em que ele pudesse leva-la quando estava na cidade.

— Eu posso procurar por algum jogo que esteja passando por perto, apenas preciso da data das regionais. – Russell concordou com a cabeça brincando com as chaves do carro. – softball, sério? Lembro quando tentei te ensinar, mas você reclamou que suas mãos doíam.

— Eu decididamente preferia atletismo, ginástica e ballet. – Quinn encolheu os ombros em resposta.

— Sim, nunca ouvi uma reclamação sobre pés doendo ou joelhos inchados. – Russell concordou com a cabeça, olhou para Rachel que tinha um pequeno sorriso nos lábios. – Pelo contrário, ela se dedicava o máximo que podia.

Quinn encolheu os ombros em resposta, ergueu os olhos para as nuvens carregadas.

— É melhor nos apresarmos. – Murmurou apertando Rachel suavemente.

Se despediram com palavras suaves e Quinn prontamente abriu a porta do carro para a namorada. Rachel lhe deu um pequeno beijinho em agradecimento.

— Quero chegar em casa antes da chuva. – A loira murmurou olhando para as nuvens pesadas enquanto prendia o cinto.

Rachel repousou a mão na coxa da autora enquanto mexia no celular. Aparentemente alguns fãs estiveram presentes na plateia e gravaram as apresentações. Franziu as sobrancelhas quando viu uma foto sua e de Quinn que obviamente ela não tinha percebido ser tirada. Sua imagem estava parecendo irritada e pela sequência de imagens era como se estivessem discutindo.

— Já disse que odeio quando tiram fotos nossas sem que eu perceba? – Murmurou com um suspiro. – Minhas notificações estão inundadas de suposições que estamos para terminar. Tudo porque tiraram fotos nossas enquanto eu reclamava com você sobre as luzes do palco.

Quinn arqueou as sobrancelhas enquanto trocava a marcha.

— Não termine comigo por causa do mal posicionamento de luzes. – Pediu em tom de brincadeira.

Rachel estreitou os olhos antes de tirar uma foto de Quinn, mesmo no escuro do carro. Quinn estreitou os olhos.

— O que você está fazendo? – Perguntou quando olhou para a morena vendo a ponta da língua rosada para fora dos lábios.

— Tirando fotos da minha linda namorada. – Rachel respondeu se movendo apenas um pouco para conseguir um novo ângulo. – Babe me de um sorriso, vamos.

Quinn arqueou a sobrancelha antes de negar com a cabeça. Gotas pesadas de chuva começavam a acertar o para-brisa.

— Rachel pare. – Quinn pediu apertando um pouco o volante. – Sente direito e coloque o cinto. Rachel estou pedindo.

Rachel suspirou antes de prender o cinto outra vez. Quinn olhou para a frente, estavam chegando em um cruzamento.

E então tudo ficou preto.

Quinn piscou lentamente ajoelhada na frente do corpo de Rachel, estendido no asfalto. Ela piscou tentando limpar a mente. De onde o carro tinha saído? As gotas de água acertando sua pele, mas porque o chão estava tão seco?

Uma sombra se projetou sobre elas, de onde diabos vinha aquela luz tão forte? Lambeu os lábios secos e seus olhos se focaram em Rachel. Sua pele pálida, os olhos fechados e... ela estava de vestido de noiva?

— Rach... – Murmurou sentindo a garganta arranhar. – Rachel, babe, abra os olhos.

Esticou as mãos, mas não encostou em Rachel, seus dedos tremiam e o medo se infiltrava em sua mente.

— Rach... – Chamou em voz tão baixa que mal reconheceu como sua.

— Ela está bem. – A voz doce e rouca lhe fez parar. Ela reconhecia aquela voz. A ouvia todos os dias desde que nascera.

Quinn se virou lentamente e então se viu ajoelhada diante de uma versão um pouco mais velha de si mesma.

— Aí merda, eu morri. – Balbuciou e viu sua versão mais velha sorrir suavemente.

— Ah não Quinnie, você está bem viva eu te garanto. – A mulher loira garantiu. – Mas nós precisamos conversar, na verdade... Querida?

Quinn ainda estava olhando fixamente para sua versão mais velha e quase perdeu a morena que se aproximava. Rachel alguns anos mais velha e ainda assim capaz de lhe tirar o fôlego.

— Oh querida, você está tremendo de frio. – Essa versão mais velha de Rachel lhe sorriu amorosamente. – Venha, vamos trazer você para dentro. Ela vira quando estiver pronta.

Quinn olhou para baixo e percebeu que estava com o vestido de dama de honra. Seus olhos voltaram para Rachel deitada no chão com o seu vestido de noiva parecendo ter 18 outra vez.

— Não se preocupe, ela vai acordar quando for a hora dela. – Sentiu as mãos quentes e reconfortantes de Rachel, mas não era a sua Rachel. – Venha, me deixe te preparar um bom café forte porque Deus me perdoe se eu servir um café fraco a Quinn Fabray.

— Eu não disse que o café era ruim. – Ouviu sua versão mais velha se defender quase imediatamente. – Eu amo o seu café.

Mãos gentis lhe levantaram e sem sentir Quinn se viu no meio de um jardim de grama bem aparada.

— Vamos meu bem, vamos entrar e aquecer você um pouco. – Essa versão mais velha de Rachel falava suavemente, quase como uma mãe. – Eu não consigo acreditar que você permitiu que você mesma ficasse na chuva. Inclusive você está molhada, se ficar gripada eu não vou querer ouvir uma reclamação.

— Prometo que não vou reclamar. – Ouviu sua própria voz prometer.

Ela estava dentro de uma casa, obviamente. O calor envolvia seu corpo enquanto seus olhos absorviam a cozinha. Era uma cozinha grande, viu duas canecas encima de uma mesa menor e elas ainda soltavam vapor. Um pouco para o lado tinha uma sala com uma grande televisão.

— Compramos essa casa há uns 10 anos. – Ouviu sua versão mais velha falar enquanto se dirigia para a mesa. – As vezes penso que deveríamos vender e ir para outro lugar, mas temos tantas lembranças aqui.

O grande pastor alemão veio preguiçosamente em sua direção, os pelos escuros já salpicados por fios brancos principalmente em seu focinho. Ele esfregou a cabeça contra sua coxa.

— Aslan está conosco há 10 anos. – A Quinn mais velha continuou falando. – Foi um presente de Beth para Ethan.

A Quinn mais nova imediatamente girou no lugar para se encarar.

— Oi Quinn. – Sua versão mais velha falou ainda sorrindo. – Não preciso dizer que eu sou você, certo? Uma versão de você pelo menos, na verdade eu sou a primeira versão de você.

A loira mais velha empurrou a cadeira que estava na sua frente com a ponta do pé.

— Você deveria se sentar. – Tomou um gole da caneca. – E beba o seu café, Rachel não me deixará em paz se você não beber seu café e se aquecer. Ela está com a sua Rachel.

Abriu e fechou a boca procurando por palavras.

— Você não está morta. Você não está no inferno, nem no céu e muito menos no purgatório. – Tomou outro gole de café. – Você e eu apenas temos que conversar.

*Diário*

Santana esfregou o rosto antes de olhar para Brittany que estava em pé no meio da sala lhe olhando.

— Como assim você não está feliz? – Perguntou em um tom de voz cansado.

— Olhe para esse apartamento, Santana. – Brittany apontou para os poucos móveis da sala. – Isso não é uma casa, é só um lugar em que viemos às vezes para tomar banho, comer e dormir.

Santana esfregou o pescoço e não teve como não concordar com a esposa.

— Tem semanas que nós mal conversamos, você fica 20h por dia naquele maldito escritório. – A loira continuou. – Tem meses que não tocamos uma na outra, qual foi a última vez em que nos beijamos?

Santana abriu a boca para responder, mas a fechou outra vez e soltou um suspiro pesado.

— Estamos vivendo vidas separadas, somos colegas de quarto e não esposas. – Brittany passou os dedos pelos cabelos longos, ia continuar quando o telefone de Santana tocou. – Maravilha, você vai voltar para o maldito escritório.

Santana fechou os olhos e por um instante se atreveu a pensar em não atender, mas a possibilidade real de se tornar uma sócia em um futuro próximo era tão forte que ela pegou o aparelho. Suas sobrancelhas se franziram quando viu quem estava lhe ligando.

*Diário*

Abriu os olhos e os piscou lentamente, estava deitada em algo duro. As luzes dos holofotes lhe iluminavam como o ponto focal, lambeu os lábios sentindo a língua grossa e lentamente se sentou. Olhou para as suas roupas e sentiu o coração bater mais rápido, estava usando as mesmas roupas do dia do incêndio. Roupas que ela jogara fora.

— Sabe… — Sua cabeça se ergueu imediatamente olhando para a figura que estava fora da luz. – Eu nunca estive na sua posição… eu escolhi me afastar do palco em um momento, mas eu nunca tive trauma dele.

Rachel sentiu a respiração travar em sua garganta quando uma versão mais velha de si mesma entrou na luz, ela não sorria, apenas lhe olhava.

— Oi Rachel. – A mais velha falou calmamente. – Eu sou a Rachel. Algo me diz que uma versão mais nova nossa iria apreciar o drama disso.

A mais nova ficou sentada imóvel, se olhando sem saber o que falar. Então a sua versão mais velha se aproximou e se sentou para que elas estivessem uma de frente para a outra.

— Não existe exatamente um jeito fácil de dizer isso, mas eu sou a sua primeira versão. – A mais velha inclinou a cabeça. – Pense em mundos compartilhados e vidas paralelas, é o que somos. É complexo, não tente entender sem que percamos nosso tempo aqui. Mas nós temos que conversar, Rachel.

— Você é a minha primeira versão. – Rachel falou lentamente tentando entender as informações jogadas. – Como… uma vida anterior?

A mais velha parou considerando a fala da mais nova e encolheu os ombros.

— Sim, acho que no nosso caso isso é verdade. – Sorriu gentilmente. – Eu sou a primeira Rachel e você é como se fosse uma nova versão do meu mundo. Sabe, no meu mundo a minha Quinn escreveu uma série de livros em que sua protagonista, Beth Stern, era eu.

— Espera…

— Sim, essa também é a sua história. – A mais velha sorriu outra vez. – E talvez essa seja a única coisa que nos ligue, para ser honesta. Sabe, na minha história Quinn e eu fomos morar juntas muito rápido, tínhamos essa necessidade de estarmos uma com a outra. Também ajudou o fato de Ethan chegou muito rápido, para vocês ele ainda vai demorar um tempo e será muito menos sofrido.

— Ethan? – Sussurrou sentindo o gosto doce que o nome deixava em sua língua.

— Seu filho. – A mais velha sorriu com carinho. – Seu pequeno príncipe, aquele que vai te ensinar quão feroz você pode ser. Ethan vai te ensinar o que é o amor na sua forma mais pura e vai te obrigar a crescer, a ser mais forte. Não que eu ache que você vá precisar desse aprendizado, você já está aprendendo a ser forte e feroz.

— Eu vou ter um filho com ela? – O sorriso se espalhou em seus lábios.

— Querida, você terá uma vida com ela. – A mais velha mordeu o lábio sorrindo, mas então ela respirou fundo. – Se assim você escolher.

— Escolher? – Rachel franziu as sobrancelhas.

— Existem caminhos, Rachel, e escolhas a serem feitas. – A mais velha abraçou seus joelhos. – Sabe, eu nunca me arrependi das minhas escolhas. A minha Quinn e eu nós tendíamos a tomar todas decisões juntas, o que era melhor para nós enquanto um casal. Isso nos afastou de algumas oportunidades, mas nunca nos arrependemos, entende? Éramos felizes no nosso pequeno mundo de faz de conta. Éramos um pouco dependentes uma da outra? Sim, mas fomos felizes. Mas você e a sua Quinn, são diferentes e isso alterou muito o caminho e criou caminhos alternativos.

Rachel franziu as sobrancelhas, seus olhos rastreando aquele rosto mais velho.

— Mas não se preocupe… — A mais velha sorriu. – Eu tenho fé que você vai fazer as escolhas certas.

*Diário*

As duas loiras se encaravam, nenhuma querendo ceder um milímetro que fosse.

— Você tem alguns momentos em que acorda de madrugada, Rachel está dormindo ao seu lado e você se pergunta como diabos ela te perdoou? – A mais velha falou arqueando a infame sobrancelha. – Como a menina que você torturou na escola era a única com o poder de te libertar? – Viu a mais nova engolir em seco e sorriu para ela, um sorriso suave. – Você tem aqueles momentos em que o silencio se faz presente e você sente essa paz, essa mágica que existe no mundo com tanta força que o tempo parece parar apenas por um segundo? Você já parou para pensar em como sua vida era com Andrea e percebeu que você seria feliz com ela, você a amaria e teria filhos com ela… talvez algum dia você pudesse se arrepender de nunca ter ido atrás de Rachel, mas sim você sente que teria tido uma vida feliz com Andrea. E então você pensa em Rachel e se sente em casa, segura e é mais do que apenas felicidade? É como se Rachel fizesse parte de você, estivesse no seu sangue, no seu ar, na sua pele. Tudo é Rachel e isso te assusta. Te assusta muito, porque você pensa as vezes que se deixou inteira nas mãos dela e talvez chegue o dia em que ela vá perceber que você não é perfeita. Que essa imagem romântica, inteligente, sexy que ela tem de você vai cair por terra e ela vai perceber quão rabugenta, estressada e centralizadora você é. Que ela perceba que você não é realmente alguém que valha a pena o esforço.

A mais velha tomou um gole de café e novamente encarou a mais nova. A infame sobrancelha arqueada.

— Você tenta ignorar essa voz que fica no fundo da sua mente, sempre te lembrando que no final eles te abandonam e ficam melhor sem você. Você está tão assustada em nunca mais vê-la no palco e que isso seja culpa sua. Você está tão assustada em ser menos que perfeita e isso a leve para longe de você. Você tenta controlar sua impulsividade, sua raiva e tenta respirar fundo para não jogar as coisas encima dela, mas escapa do seu controle e você faz. Nesses momentos você sente o seu corpo travar e espera que ela vá embora. – A mais velha lambeu os lábios. – Eu sei de tudo isso Quinn Fabray, por que nos últimos 10 anos eu convivi com todos esses sentimentos. Você sabe... eu sou você.

A mais nova engoliu em seco sobre o olhar afiado da mais velha.

— Quantas vezes você se pegou perguntando se Finn estava certo? Se ela não estaria melhor com ele? — O tom de voz era leve, tão suave quanto uma pluma contrastando com o peso de suas palavras. – Você se pergunta se um dia ela irá perceber que brigar com o pai por sua causa não é realmente algo que seja bom a longo prazo. Você se pergunta se ter o gostinho de uma vida com Rachel é o jeito que Deus criou para te castigar, quando ele te tirar isso.

Tocou a porcelana ainda quente com a ponta dos dedos.

— Eu pensei assim por muitos anos e confesso que ainda penso. – Murmurou. – Eu ainda tenho momentos em que sou consumida por um buraco negro, e eu afundo e afundo e afundo…

— E como isso se resolve? – A mais nova perguntou em um fio de voz.

A mais velha sorriu e tocou a cruz que estava em seu peito.

— Não é algo que sozinha você vá conseguir. – Sua voz abaixou um pouco. – Você precisa ter um pouco mais de fé, Quinn. Quando tudo está muito escuro, muito pesado e você já não tem mais forças… é preciso ter fé.

— Eu não acredito mais em religiões. – A mais nova sentiu o gosto amargo na boca, ouviu a risada da outra e a encarou.

— Eu não estou falando de religiões, estou falando de amor. – Quinn se levantou afastando-se da mesa. – Estou falando de verdadeiramente amar alguém, de ser bom com as pessoas, benevolente, de evitar julgar os outros… estou falando sobre amor. Ele não quer te punir, ele quer te amar e que você se ame.

A mais nova coçou a nuca e se levantou também, se afastando da mesa com brusquidão querendo colocar ainda mais espaço entre as duas.

— Olhar para si próprio não é algo bonito, não é? – A mais velha arqueou a sobrancelha para as costas da mais nova. – Não é algo fácil e eu sei que estou sendo um pouco cruel com você.

— Um pouco? – Soltou uma risada rouca e vazia antes de virar e encarar. – Um pouco? Estou aqui sentada ouvindo você entrar na minha mente.

— Eu estou entrando na minha mente.

— Isso não é um jogo. – Quinn se pegou gritando, o coração batendo acelerado.

— Eu não disse que era. – A mais velha se adiantou lentamente. – Você não está aqui por um jogo, Quinn, não está aqui para ser punida ou o que quer que você imagine. E nem o que acontece quando você voltar. Não é punição. É aprendizado. E isso dói.

A mais nova lambeu os lábios e desviou os olhos.

— Ela está machucada? – Perguntou em uma voz vazia.

— Está.

— Eu estou machucada?

— Está.

A mais nova apoiou as mãos nos quadris e se encarou.

— O que mais eu preciso aprender? – Perguntou com um sorriso triste. – Eu já não sofri o suficiente?

— E alguém vive uma vida sem sofrimentos? – Respondeu com o mesmo sorriso triste.

*Diário*

As atrizes sentadas no meio do palco, se olhando em um silencio tranquilo.

— Eu tenho tantas perguntas. – A mais nova sussurrou.

— Eu acredito que posso ter algumas respostas. – A mais velha arqueou as sobrancelhas em brincadeira.

A mais nova deixou seus olhos castanhos deslizarem pelo palco. Limpo. Fresco. Escuro. Como se nunca tivesse sido queimado. Como se ele nunca tivesse sido palco de uma tragédia.

— Você em algum momento pensou que… — Parou sem conseguir verbalizar.

— Que eu não voltaria ao palco? – A mais velha completou por ela. – Não, esse não foi um pensamento meu. Eu optei por tirar um ano sabático, tínhamos acabado de adotar Ethan e ele tinha tantos problemas de saúde. Eu queria estar perto dele, queria ser mãe em tempo integral, então eu tirei um ano sabático que se estendeu por quase 3 anos na verdade. Eu senti medo de não saber quem eu seria sem o palco, como eu me definiria sem o palco. Você sabe como é? Nós sonhamos com o palco desde que praticamente nascemos, o que é incrivelmente idiota pensando bem, mas era o que queríamos. Tivemos aulas de canto praticamente desde que aprendemos a falar. Aulas de dança desde que aprendemos a andar. Fizemos teatro desde o momento em que foi permitido. A primeira vez em que pisamos em um palco da Broadway foi um sonho realizado, o maior sonho que tivemos e então o mundo fez sentido… toda a nossa vida fez sentido. Então deixar o teatro ir, mesmo que apenas por um momento foi… assustador.

A mais nova apoiou o queixo no joelho respirando profundamente, sua pele arrepiada.

— Eu precisei me reencontrar. – A mais velha imitou sua posição, seus olhos escuros perfurando os da outra. – Me redefinir de outros jeitos, do mesmo jeito que você está fazendo. Mas ao contrário de você, eu não fiz isso tendo apenas a minha vida em perspectiva. Lembra o que eu disse? Nós tínhamos a necessidade de estar juntas, de decidir juntas, dependentes… então eu me reencontrei como esposa, como mãe…

— Você me julga? Por isso? – A mais nova murmurou.

— É claro que não. – A mais velha respondeu com um sorriso. – Eu tenho orgulho de você, Rachel. Eu não me arrependo das escolhas que fiz, fui e sou feliz com elas… mas você não precisa repeti-las. Você tem seu próprio caminho Rachel e se ensinar te faz feliz, então ensine.

— Você falou sobre escolhas… então minhas escolhas vão me levar para longe dela? – Sua voz era baixa e insegura.

— Elas podem, sim elas podem te levar para longe dela. – Sua voz também abaixou, mas era firme e estável.

— Eu posso não ter o meu Ethan? – Outra vez o nome rolou pela sua língua com um gosto doce.

E pela primeira vez ela viu dor transparecer nos olhos escuros de sua versão mais velha. Era uma dor como se a mera possibilidade de não ter o filho lhe rasgasse ao meio.

— Sim. – A voz era mais rachada.

— Eu seria feliz, sem isso?

— Sim. – Um suspiro. – Você seria feliz, você se apaixonaria de novo e teria outros filhos. Eventualmente é claro…

— Mas eu não seria feliz como se fosse com ela, certo?

A mais velha suspirou abaixando os olhos.

— A felicidade é diferente, Rach… — Ela começou falando lentamente. – Não somos felizes do mesmo jeito, nunca somos felizes do mesmo jeito, do mesmo jeito que nunca nos apaixonamos do mesmo jeito. Não posso te dizer se você seria mais ou menos feliz, mas posso te dizer que eu seria menos.

— Mas você e eu somos a mesma pessoa, certo? – Rachel perguntou ainda insegura.

A mais velha sorriu em resposta.

— Como vou saber qual é a escolha certa? – Perguntou com um suspiro.

— E porque existiria uma escolha errada? – A mais velha retornou. – Rachel não existem escolhas erradas, são caminhos e o que te cabe é caminhar por eles.

— Mesmo se o caminho for longe dela e da vida que eu teria com ela?

— Se assim você escolher. – A mais velha abaixou ainda mais o tom de voz. – Não existe uma decisão errada, você faz o que precisa fazer, mas deve aguentar as consequências que elas lhe trouxerem.

*Diário*

— Mary, did you know that your baby boy… — A Quinn mais velha cantarolou. – Would calm the storm with his hand?

A mais nova estava segurando a própria cabeça quando a ouviu, ergueu o rosto para encarar a loira que estava sentada no piano, tocando levemente as teclas.

— Did you know that your baby boy has walked where angels trod? – Lambeu os lábios antes de olhar para a sua versão mais nova. — When you kiss your little baby you kiss the face of God…

As duas se olharam por um minuto inteiro.

— Russell gostava quando você cantava essa música após o almoço de natal, principalmente se o irmão dele estivesse presente. – A mais velha falou lentamente, seus dedos longos ainda sobre as teclas. – Então conforme você crescia e o natal começou a ser mais cheio de uísque e menos alegria… você passou a odiar essa música e todas as vezes em que ele te obrigava a canta-la.

Elas se encararam e a mais velha de um sorriso amargo.

— Eu tenho inveja de você. – Voltou sua atenção para as teclas. – Ele me negou. Foi uma das últimas coisas que ele fez antes de morrer, droga… ele fez isso no dia de Natal e então ele morreu naquela noite. Ele me negou.

O silencio se assentou. Pesado. As notas solitárias do piano pareciam lutar para se propagar pelo espaço.

— Ele quer você. – A mais velha sussurrou. – Ele quer você, ele quer ser parte da sua vida. Ele te ama. Ele te aceita. Nesse momento ele está sentado em uma sala de espera, desejando desesperadamente por um copo de uísque, sabe o que está o impedindo de sair em busca de um bar? A cruz que você leva no pescoço. Ele está segurando esse metal frio como se fosse a última salvação dele. Ele precisou fazer as ligações, sabe? Ele ligou para mamãe. Ligou para Frannie. Ele até mesmo ligou para Hiram. Russell Fabray ligou para Hiram Berry, e sua voz embargou ao dizer que vocês sofreram um acidente.

Elas se encararam outra vez.

— Eu tenho inveja de você. – A mais velha falou e sua voz nunca esteve tão amarga. – Eu tenho inveja de você, porque nesse momento ele está barganhando com Deus pela sua vida.

A mais nova encarou o chão, engolindo a saliva que estava em sua boca.

— Faça um favor a você mesma. – A mais velha voltou os olhos para as teclas. – Pare de fingir que não se importa com isso. Pare de tentar se fechar atrás de muros. Pare… apenas pare… pare de tentar não ser feliz, Quinn.

Fechou os olhos e engoliu em seco outra vez.

— Pare de dar a Rachel todas as oportunidades do mundo para ela perceber que não quer estar com você. – Sua voz não era mais do que um sussurro. – Pare de olhar para garrafa de vodka como se ela tivesse respostas, e não me diga que você não está fazendo isso. Eu sou você. Eu sei. Pare de ignorar o que obviamente está acontecendo com Beth, isso não vai fazer dela mais forte. Pare de se sabotar. Pare de tentar ser infeliz, Quinnie.

*Diário*

Ela estava sentada na poltrona da primeira fileira, seus joelhos pressionados contra seu peito.

— Por que eu estou aqui? – Perguntou em voz baixa. – Eu sei, você disse que tínhamos que conversar, mas… por que eu realmente estou aqui?

— Está me fazendo perguntas que já sabe a resposta… — A mais velha respondeu sentada ao seu lado.

Seus olhos escuros presos ao palco.

— Eu coloquei o cinto. – Franziu as sobrancelhas. – E então um carro apareceu.

— Sim.

— Estamos machucadas?

— Sim.

A mais nova olhou para a mais velha que continuava a encarar o palco. Rachel viu uma lágrima escapar pelos olhos escuros da mulher e descer pela sua bochecha.

— Quinn… — O som surdo escapou pelos seus lábios. – Onde está Quinn?

— Onde ela precisa estar. – Sua versão mais velha respondeu enquanto virava para lhe encarar. – Ela também precisava ter uma conversa.

— É sério, não é? Não estaríamos aqui se não fosse sério. – Rachel ergueu o queixo.

— É, é sério sim.

— E essa é uma das minhas escolhas, não é? – Sentiu o rosto arder, apertou com ainda mais força seus dentes tentando se manter no controle.

— É.

A mais nova voltou a encarar o palco, suas mãos fechadas com força, suas unhas se enterrando contra a carne das palmas das mãos.

— Por que aqui? – Fungou sentindo a lágrima quente escorrer pelo seu próprio rosto. – Porque esse palco?

— Acredito que pelo mesmo motivo que quando encontramos vocês, você estava com o vestido de noiva e ela com o vestido de madrinha. – A mais velha falou lentamente. – São os momentos em que tudo mudou para vocês.

A mais nova virou o rosto para o lado respirando fundo, erguendo o queixo.

— Quão machucada ela está?

A mais velha não respondeu, o baque de uma porta se abrindo assustou a mais nova. Olhou para trás vendo que as portas do teatro estavam abertas.

— Eu tenho que voltar? – Perguntou em voz baixa. – Não é?

Suas mãos agarrando o encosto da poltrona. A Rachel mais velha continuava encarando o palco.

— Respire fundo, Rachel. – A mais velha falou suavemente. – Apenas respire fundo.

— Quão machucada ela está? – Seu tom de voz subiu em comparação.

— Ela está viva. – A resposta simples.

— Essa não foi a minha pergunta. – Apertou o encosto da cadeira com mais força.

— Mas é a resposta que você vai ganhar. – A encarou, seus olhos escuros gentis. – Ela está viva e é o que importa, pelo menos é o que importaria para mim.

A mais nova olhou para a porta aberta, a luz suave que saia por ela. Seus dedos brancos tamanha a força que agarrava o encosto.

— Estou com medo. – Sussurrou. – Eu não quero ir até lá. Eu não quero vê-la machucada.

— God save the prom queen, teenage daydream just another dressed up heartbreak… — A mais velha começou a cantarolar, seus olhos presos no palco outra vez. — God save the prom queen, only eighteen… turned her tears to diamonds in her crown.

A mais nova virou o rosto tão rápido que sentiu o pescoço estalar, a mais velha continuou encarando o palco.

— Take a look at the future who knows what's ahead? – Se levantou e Rachel percebeu que a mais velha usava o seu vestido de noiva, seu vestido de noiva de quando tinha apenas 18 anos. — And the years go by and she still dreams… she's the hottest girl in town and the makeup's stronger, gotta wear it longer…

Se virou encarando a mais nova, estendeu a mão para ela em um convite silencioso.

— God save the prom queen, teenage daydream just another dressed up heartbreak… — Arqueou as sobrancelhas em desafio. — God save the prom queen, only eighteen… turned her tears to diamonds in her crown.

A mais nova estendeu a mão agarrando com firmeza os dedos macios de sua versão mais velha, com um puxão estava em pé e antes que percebesse estava no corredor que a levaria a porta. A mais velha com a mão apoiada na base de sua coluna a obrigando a andar.

— And she lives her dreams through the magazines and her Daddy's gone and she needs someone… — A voz forte de sua versão mais velha parecia estar ressoando dentro de sua cabeça. — And she's got the looks and the boys on hooks but she'd trade it all for a heart that's whole…

A força com a qual a mulher lhe conduzia a impedia de não andar. Ela viu então uma figura parada contra a claridade da porta, a silhueta foi tomando forma enquanto elas se aproximavam. Um rapaz alto de não mais do que 17 anos, cabelos loiros, barba por fazer e incríveis olhos azuis.

— God save the prom queen, oh! – Ela ouviu o sussurro contra sua orelha. – God save the prom queen.

E então a pressão da mão de sua versão mais velha sumiu e ela se viu parada de frente para aquele rapaz. O smoking estava perfeitamente ajustado ao seu corpo e quando ela olhou para si própria percebeu que estava outra vez usando seu vestido de noiva.

— Oi mamãe. – Ethan falou sem sorrir.

*Diário*

O escritório era amplo, uma parede estava coberta por uma estante cheia de livros. Havia alguns arquivos perto da janela, a mesa era de madeira sólida e logo atrás uma mesa menor. O seu precioso quadro de cortiça estava preso a parede, se aproximou vendo os post-its presos a ele, formando um labirinto. Seus olhos se centraram no post-it central, sua caligrafia fina e elegante.

— Eu achava que Beth Stern precisava morrer para que eu pudesse seguir em frente. – Sua versão mais velha estava parada na porta do escritório, entrou lentamente no escritório, no seu domínio. – Então eu inventei essa metáfora em que ela morreria no auge de sua vida. No seu momento de maior brilho, entre as linhas eu deixei para quem soubesse ler que Beth Stern não havia morrido. Ela havia renascido como uma fênix. – Se apoiou na mesa ao lado da mulher mais nova, seus olhos presos no papel amarelo. – Como você eu fiz Beth Stern ser a perfeita imagem de Rachel. Mas naquele momento, no momento de sua morte e de seu renascimento… Beth Stern nunca foi tão parecida comigo.

Elas ficaram em silencio por um momento antes da mais velha continuar.

— Eu achava que para continuar eu tinha que morrer e renascer, como alguém novo. Sem dores e sem mágoas, então eu perdoei Russell e me libertei de todos aqueles sentimentos ruins. – Engoliu a saliva que estava em sua boca. – E me fez bem, eu me senti alguém novo alguém que estava pronto para a próxima parte da vida. Mas eu precisei matar Beth Stern para isso, mesmo que metaforicamente falando.

A mais nova continuava tocando o papel Beth Stern. A estrela que vira uma supernova.

— Você pensou em fazer um final feliz. – A mais velha inclinou a cabeça. – Você queria que ela estivesse com uma mulher, queria dar a ela um final feliz. Você quer um final feliz, uma épica história de amor, então porque diabos continua dando tanto espaço a Rachel?

— Por que eu acredito que ela tem que querer ficar. – Abaixou o braço e se virou, encarando sua própria imagem. – Eu entendo, você e ela tiveram uma vida diferente. Vocês ficaram juntas e nunca mais se separaram, foram morar juntas, filhos, casamento… eu entendo. Tudo de vocês era junto. Eu não enxergo que eu e ela devemos ser assim. – Olhou para a foto que estava encima da mesa, Rachel com um menino de 5 anos no colo, esticou a mão para pega-la e sorriu. – Se eu quero a sua vida? Me casar com ela e ter filhos com ela? Eu quero é o que eu mais quero. Mas até que ponto eu deveria estar a sufocando para isso? Sim, eu penso em tudo o que você me disse. Eu penso… — A mais velha estava com os braços cruzados na altura do peito. – Eu penso e eu tenho medo. Mas a decisão de ficar é dela e ela tem que tomar essa decisão por ser a melhor para ela. – Abaixou os olhos para a foto. – Se ela escolher ir… vai doer… mas eu não vou morrer por isso. Ninguém morre por um coração partido, Quinn… você já deveria saber disso.

Viu sua versão mais velha erguer o queixo, os olhos verdes dela brilhando em sua direção.

— Você está certa, Quinn. – Encolheu os ombros. – Mas eu sobrevivi a tanta merda e você não passou nem pela metade. Sim, você e eu engravidamos adolescentes. Sim, você e eu fomos expulsas de casa. Sim, você e eu precisamos morar com amigos. Não, você não ficou paraplégica temporariamente apenas porque estava tentando fazer com que Rachel fosse feliz. Não, você não enfrentou meses de fisioterapia e dor. Não, você não estava tão confusa que se deitou com um homem que você não queria apenas para se sentir normal. Não, você não sabe o que significa receber um diagnóstico positivo de HIV. Não, você não sabe o que é tentar se matar. Não, você não sabe o que é participar de grupos de ajuda. Não, você não sabe o que é ver essas pessoas morrerem e estar em pânico que você pode ser a própria. Não, você não teve que sentar com a sua filha e explicar a sua doença. Não, você não sentiu o meu pânico em ver aquele teatro pegando fogo. Não, você não teve que segurar sua filha enquanto ela chorava porque o pai estava descendo para a terra em um caixão. Não, Quinn… você e eu não somos a mesma pessoa.

Se moveu passando pela mais velha e indo em direção a porta.

— Chegará um momento em que decisões deverão ser tomadas. – A mais velha ergueu a voz para lhe chamar a atenção. – Decisões dela e suas. Decisões que podem levar vocês duas para caminhos diferentes. A decisão não é unilateral, Quinnie, é das duas.

*Diário*

— Ethan. – Rachel murmurou, ergueu a mão tocando a bochecha do rapaz. – Mas…

— Não tente entender as linhas do tempo, mamãe. – Ele sorriu e Rachel se pegou pensando em como aquele sorriso era tão parecido com o de Quinn, mas como? – Eu sei, é o sorriso dela. Vovó sempre brincou que eu o adquiri por osmose.

— O que você está fazendo aqui? – Rachel pediu ainda com a mão repousada contra a bochecha do adolescente.

— Eu ouvi que a senhora estava com medo. – Ele encolheu os ombros. – Me lembrei de uma história, talvez queira ouvir.

Ele ofereceu o braço para ela, parados de frente para o portal. Rachel enfiou seu braço pelo dele e ele sorriu outra vez.

— Eu acho que eu ainda não tinha 5 anos, mas confesso que é confuso lembrar, eu estava pronto para andar. – Ele permaneceu parado, olhando para Rachel, viu as sobrancelhas dela se franzirem e sorriu. – Tia Brittany me segurava e minha mãe estava há alguns metros de mim. Eu estava apavorado de cair, lembro que o chão nunca pareceu tão longe mesmo no alto do meu um metro de altura. – Ele soltou uma risada baixa, vendo Rachel lhe olhar com tanta atenção. – Minha mãe me chamou e eu perguntei o que aconteceria se eu caísse… ela me respondeu que eu levantaria e tentaria de novo. Eu disse que estava com medo e ela me respondeu que também estava, quando eu perguntei do que ela tinha medo a resposta dela foi que ela tinha medo do meu medo. Sabe, para uma criança pequena essa resposta não fazia sentido na época, eu só vou entender quando eu estiver os meus filhos. Meu Peter e minha Lucy.

Ele ergueu a mão acariciando a bochecha de Rachel.

— Ela me explicou com sua voz calmante que ela tinha medo que o meu medo me impossibilitasse de fazer as coisas. Por que o medo é o que da o sabor das coisas. – Ele deixou sua mão cair e segurou a mão de Rachel a beijando afetuosamente. – Ela então me fez uma proposta, ela me disse que a cada passo que eu desse em direção a ela, então ela daria um em minha direção e nos encontraríamos no meio. Juntos.

Ele olhou para a mão dos dois unidas firmemente.

— Então eu dei o meu primeiro passo e a senhora quase gritou de emoção. Então ela deu um passo em minha direção. Eu quase cai, mas dei outro passo e ela outro, mas eu nunca desviei meus olhos dos dela. Quando cheguei no meio eu estava exausto e doía tanto, mas estava tão feliz, tão feliz e quando ela me pegou no colo eu me senti tão protegido.

Rachel não impediu a lágrima de rolar pelo seu rosto, lágrima que ele prontamente secou com o polegar.

— Então mãe, eu sei que a senhora está com medo, mas eu vou estar lá. – Ele sorriu, aquele mesmo sorriso lindo. – E toda vez que a senhora der um passo em minha direção, eu darei um na sua e então nos encontraremos no meio.

Ela acenou com a cabeça e Ethan olhou para frente aprumando os ombros.

— A propósito mãe, o meu sabor é sorvete de flocos, qual é o seu? – E então ele deu um passo para frente a levando junto e a ultima coisa que Rachel ouviu enquanto aquela luz branca e morna lhe envolvia foi Ethan cantarolar. — And no matter what people say… I'll be waiting for you after judgement day…

*Diário*

A porta do quarto estava entreaberta, o menino deitado entre as cobertas. Ethan já tinha 10 anos e estava alto e saudável. As paredes ainda estavam pintadas como a savana de Rei Leão, mas os brinquedos já estavam sendo substituídos. Material esportivo jogado pelo chão e foi no chão que ela encontrou o livro que o menino deveria estar lendo antes de adormecer.

— “E, à medida que Ele falava, já não lhes parecia mais um leão. E as coisas que começaram a acontecer a partir daquele momento eram tão lindas e grandiosas que não consigo descrevê-las. Para nós, este é o fim de todas as histórias, e podemos dizer, com absoluta certeza, que todos viveram felizes para sempre. Para eles, porém, este foi apenas o começo da verdadeira história. Toda a vida deles neste mundo e todas as suas aventuras em Nárnia haviam sido apenas a capa e a primeira página do livro. Agora, finalmente, estavam começando o Capítulo Um da Grande História que ninguém na terra jamais leu: a história que continua eternamente e na qual cada capítulo é muito melhor do que o anterior.” – Sua versão mais velha recitou da porta. – Ele ama Nárnia, rele todos os livros praticamente assim que termina o que estava lendo. Eu posso dar quantos livros forem, ele sempre retorna a Nárnia.

A mais nova fechou o livro o colocando na mesinha ao lado da cama, estendeu a mão acariciando os fios loiros.

— Ele vai vir para mim do mesmo jeito que veio para você?

— Não, ele vai chegar até você de uma maneira diferente, mas ainda assim importante. – A mais velha apoiou a cabeça contra a madeira. – Ethan é a forma como nosso mundo se assenta, ele é a certeza de que teremos um final feliz, mesmo na dificuldade. E ele virá para você, mesmo que os caminhos separem vocês.

Se virou para olhar a mulher na porta que olhava para o menino deitado quase em transe.

— Ethan é o final feliz que você tanto deseja, Quinn, e ele é independente dela. – A mais velha lhe encarou antes de olhar por cima do ombro. – Rachel já foi, agora você precisa ir.

Quinn olhou para o garoto deitado e respirou fundo.

— Se eu aprender o que preciso aprender, ele vem para mim?

A mais velha não respondeu então a mais nova ergueu o rosto limpando a lágrima que escapulira. Fungou e limpou a garganta endireitando os ombros.

— Quão ruim é? – Se enfrentou com o queixo erguido. – Dessa vez, quão ruim é?

— Você está viva. – A mais velha arqueou a sobrancelha em desafio. – Acho que você sabe o resto, certo?

Deu um passo para o lado deixando a porta aberta, a luz suave lhe chamava. A mais nova sentiu a mão se fechar automaticamente. A adrenalina voando pelas suas veias.

— Você é uma lutadora, certo Quinnie? – A mais velha perguntou em algum lugar a direita da porta. – Você tem fé, não tem? Você está pronta, não está? Você está certa, eu não sou você, mas eu também estou certa. Eu sou você. Eu estive com você em cada uma das coisas que você passou. Eu estou com você nesse momento enquanto você está deitada em uma cama de hospital, entubada e sem poder se mexer. Eu estarei com você a cada passo que você der, não importa quão estável e doloroso ele seja. Eu estarei lá.

Quinn ergueu um pouco mais o queixo, sua mão ainda tocando os cabelos de Ethan.

— Eu sou a sua fé. – A voz sussurrou em seu ouvido. – Lute. Sangre. Agarre. Tenha fé que o final compensara toda a dor. Pois o menino deitado nesta cama e a menina que janta feliz sem saber que Shelby tem algo muito difícil para lhe dizer, são a sua liberdade. Mexa-se Quinn. Se mova. Se mova. Se mova.

*Diário*

A cânula saiu e imediatamente ela conseguiu respirar sozinha, sentiu a enfermeira limpar seu rosto.

— Você pode me dizer o seu nome? – O médico se inclinou em sua direção. – Você está me ouvindo? Pode me dizer seu nome?

Ela engasgou e chiou antes de dizer.

— Lucy… Lucy Quinn Fabray. – Engoliu sentindo a garganta áspera.

— Segue a luz para mim, Lucy. – O médico pediu gentilmente. – Sabe me dizer onde está?

— Lima, Ohio. – Engoliu desejando um pouco de água para aliviar suas cordas vocais. – Não me pergunte sobre o presidente, por favor.

O médico soltou uma risada baixa e concordou com a cabeça.

— Meu nome é Lucy Quinn Fabray. – Ela falou com mais firmeza, respirando profundamente, sentindo a cama firmemente abaixo de seu corpo. – Estou em Lima, Ohio para a apresentação das Seccionais do meu antigo clube do coral. Minha namorada Rachel Berry é a treinadora e estava comigo no carro, um carro apareceu e eu freei. – Lambeu os lábios vendo o médico lhe encarar com as sobrancelhas arqueadas. – Eu sou uma escritora, moro na Califórnia e tenho uma filha Beth Corcoran que tem 13 anos no momento. Eu sei quem sou, sei onde estou e sei quem é o maldito presidente… — Engoliu em seco. – Então você pode me dizer por que eu não posso mover o meu corpo?

Notas finais
@just_someone13