Notas iniciais
Apenas um breve conto...

— Está tudo em preto e branco... Não quero mais ficar neste lugar...

— Cale-se... Estou tentando me concentrar! Deste jeito, nunca sairemos daqui...

— Espera que eu faça o quê? Você ao menos consegue pensar... Estou irritado de mais pra conter minhas palavras. Está tudo em preto e branco ainda...

— Se ao menos eu estivesse sozinha... Conseguiria encontrar uma saída mais rapidamente...

— Eu não pedi para estar aqui. Você sabe muito bem o que aconteceu... Não fossem as suas palavras...

— Está me culpando agora?

— Não. Apenas sei que uma coisa leva a outra. Você pede para eu me calar, quando você mesma, com suas palavras, colaborou para que acabássemos aqui.

— Então está mesmo me culpando...

— Pode ser.

— Então, você também deve se lembrar que eu disse aquelas palavras por causa de uma atitude impulsiva sua. Agora estou tentando pensar para não agir como você agiu!

— Uma coisa leva a outra... Foi o que eu disse há pouco. Não estou dizendo que eu não fiz nada para contribuir com a nossa desgraça.

— Só nos restam uma lata de feijões velhos no armário e uma garrafa de água. O que torna tudo mais opaco...

— Não quero continuar sentado olhando para o bolor no canto da parede... Nem quero mais escutar os pingos de chuva chamuscando na janela...

— Cale-se, por favor! Preciso realmente pensar!

— Fale logo de uma vez! Assim você acaba pensando, até mesmo por que precisamos encontrar a palavra no pensamento antes de dizê-la! Eu sei bem disso...

— Sabe nada... Agora que você deu de falar... Sempre foi de pensamentos...

— Como sabe? Você não lê pensamentos... Miranda, você sabe do que eu pensei por que cheguei a contar para você. Eu poderia simplesmente sentar e colocar a mão no queixo, enquanto acompanho com o olhar uma pessoa qualquer passar em minha frente sem nada pensar!

— É disso que eu não gosto! De me confundir!

— Por isso você sempre foi uma mulher de falar, nunca de pensar...

— Ah! Como pode? Você é contraditório... Uma coisa leva a outra, não é? Falar leva a pensar, pensar leva a falar! Foi o que você disse!

— Foi o que eu pensei...

— Não agüento mais este tapete gasto e empoeirado. Parece até que ele nunca foi lavado... O que vamos fazer?

— Não pergunte a mim... Não quero criar um nó no cérebro, já basta eu questionar a nossa atual situação.

— Então por que fica cutucando o ar com lamentações? Eu pensei que você queria driblar este cenário sem cor...

— Do que adianta perguntar se não consigo responder?

— É por aí... Deste jeito que conseguimos uma saída.

— Não sei o que foi que eu disse...

— Continue apenas... Não existe resposta sem pergunta...

— Talvez sua resposta não ajude... Só nos leva a perguntar uma outra coisa e assim por diante...

— Pelo menos não iremos correr sem sair do lugar.

— Eu já estou cansado, prefiro parar.

— Era você quem estava até agora louco por encontrar saída! E não quer mais correr? Você é ansioso. O que aconteceu?

— Nada... Estou cansado de pensar e falar preto e branco.

— Uma pena... Por que estávamos quase colorindo tudo!

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!