– Linc...? — Michael Scolfied sussurou assim que terminou de enxugar o rosto, a toalha felpulda massageou um pouco seus ferimentos já quase cicatrizados da última fuga. Recusou-se a encarar o espelho.

Era de se esperar que depois de tantas brigas intensivas, ofensas, provocações desnecessárias, um deles iria se cansar. Michael perguntava se esse era o momento certo, estava sozinho e sendo perseguido como um cachorro. Sendo mais específico, sendo perseguidos até por cachorros.

Atravessou a porta que dividia o banheiro do quarto e jogou suas costas na cama exausto, as dores de cabeça estavam piorandos e constantemente sentia-se enjoado e tonto.

– Linc... — O som saiu quase involuntariamente, fazendo um eco curto na cabana vazia e tediosa. Mike não sabia os seus motivos, mas por alguns segundos desejou que Alex estivesse lá, dividindo esse momento e rezou para que ele fosse um belo mentiroso.

* Duas horas antes — 505 km de Sona *


– Só mais uma parada e estamos longe, irmão! — Scolfied disse entusiasmado enquanto Linc se concentrava na direção de um carro velho roubado por Sucre.

– Não vejo a hora! Eu, você e L.J. juntos novamente! — Ele respondeu com a mesma empolgação.

O silêncio era confortador e um pouco tenso, não havia sirenes, buzinas, apenas os dois dividindo aquele mesmo espaço em uma rodovia. Mike poderia sussurar que as coisas estavam todas indo fáceis, até demais, mas ignorou. Desde Fox River não tinha um momento sozinho e agradável com seu irmão e não tinha idéia de quando isso voltaria à acontecer.

– E nossa loja de mergulho? — Ele perguntou sorrindo e falando mais alto que o vento que invadia o carro.

Antes que seu irmão pudésse responder o celular de Michael tocou, infelizmente era algo que nenhum havia planejado, o roteiro teria que ser improvizado novamente e rápido.

– Alex! — Gritou surpreso com os olhos azuis arregalados. — Se você tocar em um fio de cabelo do meu sobrinho, eu... Eu... — Ele conseguia sentir sua saliva escapando de sua boca, e seu irmão trêmulo no volante.

– L.J... — Lincoln disse preocupado, com a mão esquerda firme na direção ele conseguiu empurrar seu irmão e tomou o celular bruscamente.

– Seu filho da puta! — As ameaças pareciam prestes a começar — Eu te encontrarei e vou esfolar isso que você chama de cara! — Silêncio — Você não me conhece!

– Linc... Desliga! Desliga! — Scolfied gritava do outro lado mas seu irmão pouco ligava, a preocupação e a voz rouca de Mahone na linha parecia mais alta.

Mike sentia seu estômago revirar, estudou um pouco Alex e sabia como não passava de um agente corrupto que também trabalhava para A Companhia, ele podia sentir com toda sinceridade tudo que L.J. sofreria caso os dois não se entregassem ao FBI.

– Deixe-o fora disso! — Linc desesperado passou a implorar.

Scolfied sabia que ele seria capaz de jogar baixo e sujo só para no mínimo conseguir rastrear o paradeiro deles. O fato é que não sabiam se de fato estavam com L.J. mas teria que arriscar, e quando essa idéia veio à tona ele tirou o celular do ouvido de seu irmão e o jogou pela janela do carro, deixando o espatifar em três inúteis pedaços.

– Você ficou louco? — Linc berrou enfurecido sem tirar os olhos da estrada. — O que deu em você?

Mike suspirou se recusando a responder. Avistaram a cabana afastada da estrada, pareciam estar no meio do deserto, não havia luz, água, ou qualquer outra pessoa. Linc freiou o carro bruscamente, desceu e bateu a porta com força, seu irmão esfregando a têmpora e fez a mesma coisa.

Burrow deu a volta no carro e voltou a discussão mais enfurecido.

– L.J. está em perigo e na nossa única chance você...

– Será que dá pra me escutar? — Mike dava passos pra trás tentando se afastar — Ele pode estar nos rastreando, pensou nisso? Pode ser um blefe bem jogado, não sabemos se ele está mesmo com L.J... — Ele tomou fôlego, e baixou o tom de voz — Além do mais, o plano é o seguin...

– Para o inferno com o plano! Quer saber? Que se dane, eu estou atrás do meu garoto! — Lincoln sem pensar cuspiu as esperanças de seu irmão. O plano, a fuga, ambos cronometrados, milimetricamentes calculados, encrustado em sua pele, já havia se perdido.

– Não diga isso, por favor... — Seus olhos começarem a coçar e praguejou-se mentalmente por ser o irmão sentimental.

– Não dizer o que? — Ele continuou com os braços abertos, gritando — Dizer quantas pessoas T-Bag matou nessa liberdade? Que C-Note teve que se suicidar para que esse "fdp" do Mahone deixasse sua família em paz? Que Abruzzi... — Ele pensou em continuar, mas a cada minuto gasto em brigas era um minuto longe de seu filho, ele correu em direção a cabana, abriu a porta e pegou uma das mochilas que Mike já havia separado, tinha roupas limpas, um pouco de dinheiro, identidades falsas. Ele jogou a mochila em um dos ombros, coçou a cabeça e encarou seu irmão, que por sua vez não disse nada, nem ousou erguer a cabeça, apenas analisava seus movimentos com as costas encostadas na parede perto à porta.

– Até Mike — Linc apertou com uma das mãos o ombro do irmão e saiu.

O último som que ouviu foi o motor forte na estrada, depois a poeira em suas narinas, suspirou e fechou a porta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.