Dividindo Um Amor
1 Capítulo 1 - Guarda Concedida
Notas iniciais
Regina Mills sempre fora elogiada pela excelência em sua profissão. Ser advogada na área da família era sua paixão. Dedicou-se e dedica-se há anos, sempre buscou melhorar, estudar e cada vez crescer mais. Obviamente, como sempre fora muito intensa, por se jogar de cabeça nos estudos e na profissão, deixou sua vida pessoal de lado e isso incluiu relacionamento amoroso e amizade. Considerada por muitos uma pessoa arrogante e fria, Regina era o maior medo de seus funcionários e estagiários, embora a Mills Advogados Associados fosse um sonho para qualquer estudante e profissional do direito, também era o terror dos advogados e aspirantes quando se estava lá dentro. Usando sempre seus terninhos e vestidos alinhados, acompanhados dos mais belos salto altos, ela chamava atenção por onde passava e, principalmente, quando chegava em seu escritório. Na realidade Regina Mills não era essa bruxa malvada, isso era fama, a verdade era que possuía um temperamento forte e um jeito perfeccionista de querer que tudo andasse corretamente. Belle, sua fiel escudeira e secretária há anos, que o diga. Regina era mais rigorosa com os estagiários, porém, os que conseguiam ser efetivados, muitas vezes viravam pessoas mais próximas dela, e o pavor se transformava em admiração. Afinal, era isso que ela era, uma mulher admirável, ela só não permitia que todos vissem esse seu lado.
~~X~~
"Com licença, Regina?" Belle chamou após duas batidas na porta. Recebeu apenas um olhar de aprovação de sua amiga e chefe então adentrou um pouco mais a sala. "Mary e David Nolan já estão lhe esperando!" Recebeu um sorriso cordial e continuou "E você não almoçou!" Tentou manter a pose de durona, mas não conseguiu ao ver Regina rolando os olhos.
"Belle, eu só preciso terminar algumas coisas, faço essa reunião e saio para almoçar, juro!" Regina dizia ora com olhos nos papeis, ora com olhar pidão para sua secretária. "Peça para eles entrarem, por favor!" Recebeu um olhar de reprovação de Belle e bufou "Quanto mais rápido eu terminar essa reunião, mais rápido eu vou almoçar!" Disse por fim derrotada. Belle nem se deu ao trabalho de responder, virou as costas e saiu para chamar os clientes.
"Boa tarde!" David falou sentando-se ao lado da esposa.
"Boa tarde! Fizeram boa viagem?" Regina agora tinha toda sua atenção voltada ao casal de amigos.
"Como se Storybrooke fosse bem longe daqui!" Mary respondeu rolando os olhos.
"Então, preparados para amanhã?" Perguntou e obviamente recebeu um olhar cheio de expectativas do casal. "Eu sei que vocês estão ansiosos, mas tudo dará certo, é só a ultima visita da assistente social e, então, Henry ficará com vocês. Marquei essa reunião aqui hoje, apenas para tirar qualquer dúvida que vocês tenham." Regina falava e o casal a sua frente tinha toda atenção voltada para a amiga e advogada. Como já era de se esperar, os dois sugaram toda informação que podiam para que na ultima visita a assistente social saísse satisfeita com o futuro casal que adotaria o menino Henry, menino esse que os dois conheceram em uma visita ao orfanato, já na intenção de adotar uma criança.
"Regina, muito obrigado por tudo!" David disse já saindo da sala da amiga. "E vá almoçar antes que Belle te mate!"
"Até você? Eu já estou indo! Se precisarem de alguma coisa ou tiverem alguma dúvida, por favor me liguem, seja o horário que for." Regina agora tinha aquele sorriso que seus amigos amavam ao falar olhando para os dois. "Estou muito feliz por vocês e tenho certeza que tudo dará certo!" Abraçou Mary após terminar de falar e em seguida fez o mesmo com David.
"Pode deixar que ligaremos! Amanhã te mandamos notícias!" David falou adentrando o elevador.
"Boa viagem!" Deu um ultimo tchau aos amigos antes que a porta se fechasse. "Já estou indo!" Respondeu após se virar e dar de cara com Belle a fitando.
"Sua bolsa já está aqui, é só descer e almoçar!" Belle respondeu entregando a bolsa e a empurrando para o elevador.
Regina riu, sabia que não se livraria tão facilmente do almoço.
~~X~~
Descansando, era isso que Regina fazia nesse momento, se deu ao luxo de sair mais cedo do escritório e ir para casa, já havia tomado seu banho relaxante de banheira e agora desfrutava de seu Cabernet Suvignon! Aguardava ansiosamente a ligação de David e Mary, tinha certeza que seus amigos conseguiriam a guarda do menino, não tinha motivos para esta negada.
"Alô?" atendeu rapidamente, demonstrando mais ansiedade do que gostaria.
"Regina, acho que conseguimos, a resposta sai em dois dias, mas pelo sorriso da senhorita Blue, nós conseguimos!" Mary falava eufórica e com a voz mais alegre que sua amiga um dia ouvira.
"Eu sabia! Eu tinha certeza que tudo daria certo!" respondeu logo após dar um gole em seu vinho.
"Muito obrigada Regina, sem você e suas orientações, nada teria sido possível! Vamos marcar um jantar, você vem, reencontra seus amigos da adolescência, janta com a gente e conhece Henry." Mary estava realmente empolgada.
"Eu vou, me fale o dia que eu vou! Mande um abraço para David e outro para você!" Encerrou a ligação e voltou a repousar a cabeça no encosto do sofá, agora sim relaxaria por completo.
~~X~~
Regina estava ansiosa e nem motivos concretos para isso tinha, não em sua cabeça. O casal Nolan era amigo dela há anos, cresceram juntos, aproveitaram a adolescência, e ela esteve lá, junto deles quando descobriram que Mary não poderia ter filhos. Foi uma das amigas que mais deu apoio, juntamente com sua irmã, Zelena. Regina nunca foi de querer família, nem sonhava em viver um grande amor, pois quando se deu ao luxo de sonhar, ainda na adolescência, viu seu namorado Daniel morrer em um acidente de carro, desde então se fechou para relacionamentos, tinha certeza que se permitisse viver algo novamente, ela acabaria perdendo a pessoa. Então, viveu apenas alguns romances rápidos, com alguns caras que ela realmente gostava, mas não a ponto de se entregar de cabeça no relacionamento. Mesmo não querendo uma família, sabia da dor que a amiga sentia, toda vez que via uma amiga engravidando, ou uma desconhecida passeando na rua com os filhos. Deu total apoio, não só profissional, mas também pessoal, quando os dois decidiram adotar. A cada visita da assistente social, ela fazia questão de saber de tudo, para que pudesse dar as melhores orientações, e assim, na próxima visita, a assistente sair mais satisfeita. Ela gostava muito daquele casal de 'idiotas', como ela sempre os chamava.
Mary Nolan: "Esperamos você, sexta em casa para conhecer Henry!" — Regina sorriu ao ler a mensagem que Mary havia mandado.
Regina: "Eu sabia que daria certo, estou tão feliz por vocês!" — Respondeu com um sorriso no rosto, estava em um intervalo de várias reuniões que teria com clientes naquele dia.
Mary Nolan: "Nós amamos muito você, Regina! Muito obrigada, mesmo! Sexta as 20h, sem desculpas."
Regina: "Estarei lá e eu também amo vocês!"— Respondeu a ultima mensagem com um sorriso bobo no rosto, sabia o quanto eles sonharam com isso.
Pegou rapidamente seu celular e ligou para a única pessoa que a ajudaria com aquilo.
"Maninha, eu estou fora só há dois dias, e já está me ligando?" Zelena, sempre Zelena com aquele bom humor.
"Menos, querida irmã, menos! Preciso da sua ajuda!" Respondeu depois de rolar os olhos.
"Por que será que eu não me surpreendo com isso? Diga!" Zelena soltou uma risadinha.
"Mary e David conseguiram a guarda do menino e..." Não conseguiu terminar porque foi interrompida pelo grito eufórico de Zelena, rolou os olhos mais uma vez "Posso continuar?"
"Claro, mas não me venha com essa cara que eu sei que você ta fazendo, porque você está feliz, e muito, que eu sei!" Zelena adorava tirar sua irmã do sério.
"Ok, estou, mas, contenha-se! Enfim, vai ter um jantar para eu conhecer o garoto, não sei o que levo para ele..." Parou de falar quando ouviu a risada de sua irmã do outro lado da linha "Zel, é sério!"
"Eu sei, só nunca te imaginei nessa situação, pena eu não estar aí para te torturar levando para andar de loja em loja, cheia de crianças babando, gritando e chorando!" Zelena ainda ria sem parar, pois tinha certeza que Regina fazia aquela cara de nojo de sempre. "Quantos anos?"
"Seis!" Respondeu rapidamente.
"Ah essas crianças gostam de coisas eletrônicas, dá um jogo."
"Zelena, ele nem deve saber direito o que é isso, cresceu num orfanato, lembra?" Regina agora ria da irmã, só ela mesmo para a tirar do stress do dia a dia.
"Ih, é! Bom, então você mesma já respondeu a pergunta. Ele mal tem acesso a brinquedos, só dele, eu digo, tenho certeza que ficará feliz com qualquer coisa. Regina, ele é carente de carinho, ficará muito feliz só de você ter lembrado dele." Zelena disse sem nenhum resquício de brincadeira, sabia que sua irmã entenderia.
"Ok, já vi que terei que me virar numa loja cheia de ... crianças! Enfim, prefiro não descrever como você descreveu... Me conte, já conseguiu o contrato?" Agora já havia voltado ao seu modo advogada. Zelena havia ido até a Alemanha para fechar um contrato com uma empresa grande, para que a Mills Advogados Associados fosse exclusiva em serviços jurídicos.
"Irmãzinha, você parece que não me conhece, mas é claro! Tenho só mais duas reuniões e domingo finalmente volto para você!"
"Ah isso é muito bom, digo, o contrato, você voltar eu já não sei!" Regina adorava provocar Zelena, aliás, isso era recíproco.
"Tudo bem, então eu não volto! Agora tenho que desligar, já vou voltar para o hotel!" Respondeu rapidamente e Regina rolou os olhos mais uma vez, isso era comum quando ela conversava com a irmã.
"Hey, eu estou brincando e você sabe! Nada de ficar magoada! Estou com saudade sim, só não vejo motivos para ficar falando isso o tempo todo."
"Eu sei e não consigo ficar brava com você, mas é sério, preciso desligar. Beijo, te amo!"
"Também te amo, beijo!" Regina respondeu e ainda ficou um tempo pensando. A relação das duas era muito especial, uma era o apoio da outra desde sempre, Zelena mais velha, fazia de tudo para que a sua mãe, Cora, não manipulasse Regina, como havia feito com ela durante a infância e adolescência. Zelena amava direito e lutou para que conseguisse entrar na faculdade em Boston, sem apoio algum de sua mãe, pois ela queria as duas filhas médicas, sendo sucessoras da famosa neurologista Cora Mills. Mudou-se para Boston com 18 anos para a faculdade e falava todos os dias com a irmã, tinha medo de como a cabeça de Regina ficaria. Sua maior surpresa foi saber que Regina também escolhera ser advogada e, com 18 anos, também foi para a faculdade em Boston. No inicio moraram juntas, e logo depois ambas conseguiram estágios remunerados. Fundaram juntas a Mills Advogados Associados, e são parceiras profissionais desde então.
Sacudiu a cabeça espantando aqueles pensamentos e saiu em busca das lojas de brinquedo.
"Belle, estou saindo para almoçar e não volto mais hoje, qualquer coisa estou no celular, ok?" Disse apertando o botão do elevador e riu da cara da secretária.
"Calma que são palavras desconexas aqui na Mills, vindas de você. 'Vou almoçar' e 'não volto mais hoje!', que progresso!" Belle falava com seu jeitinho meigo e ria da cara que a chefe fazia.
"Ah para com isso! Só tenho uma missão a cumprir, amanhã estou de volta!" Disse e entrou no elevador, deixando sua secretária sem entender nada.
~~X~~
Regina enrolou o quanto pode no almoço, estava adiando a ida as lojas de brinquedo, era algo que ela não tinha nenhuma intimidade. Entrou na primeira loja e já viu uma menina se jogando no chão, fazendo birra por alguma coisa.
"Bom dia! Posso te ajudar?" Uma vendedora muito bem humorada, até demais na opinião de Regina, veio atendê-la.
"Não!" Respondeu em seu tom seco. "Digo, pode! Desculpe!" Tentava eliminar o seu auditivo que estava implorando para sair de perto da criança gritando. "Preciso comprar um presente para uma criança de seis anos, menino!" Já deu todas as informações para agilizar tudo, após aumentar seu tom de voz afim de fazer a vendedora sorridente ouvi-la, já que a criança gritava cada vez mais alto.
"Ok, me acompanhe!" A vendedora sorridente levava Regina, que tinha uma cara de pavor, andando por ali. "Esse corredor é todo para essa faixa etária, fique a vontade!" E saiu.
Regina ainda abriu a boca para falar alguma coisa, mas desistiu. Como assim fique a vontade? Se tem uma coisa que ela não está, é a vontade, e muito menos tem conhecimento sobre os brinquedos. Bufou e saiu andando pelo corredor olhando cada brinquedo como se fosse de outro planeta. Olhou, olhou, olhou e... NADA! Correu os olhos e quando estava quase desistindo, viu um livro de contos de fadas, sorriu com aquilo, lembrou-se de seu pai e todas as noites que ele passava contando as histórias, antes de se cansar da família e sumir no mundo. Pegou o livro, segurou firme e resolveu levá-lo, se o menino não quisesse, ela ficaria para ela, simples assim. Na hora de pagar sentiu vontade de desistir de tudo e sair correndo, o vendedor que estava no caixa insistia para que ela levasse a boneca da promoção, e claro, como já é de se imaginar, não adiantava falar não, pois ele insistia. Por fim, usou o seu belo tom irônico e conseguiu se livrar daquilo.
"Mary, só gostando muito de você e do seu marido mesmo, nunca mais entro numa loja dessas!" Pensou em voz alta após entrar no carro e respirar fundo. Sabia que aquilo era só o começo de seu contato com o universo infantil.
~~X~~
Regina ficou um tempo andando pelas ruas de Storybrooke, enquanto vagava pelas lembranças de seu passado. Lembrou-se de todos os momentos que viveu ali. Da infância, dos passeios no parque com seu pai e sua irmã, do dia que conheceu Daniel, do primeiro beijo, do dia que chegou em casa e se assustou ao ver sua mãe acabada por seu pai simplesmente ter saído de casa e sumido no mundo sem nunca mais dar notícias, do dia que Daniel a pediu em casamento e, consequentemente, da madrugada seguinte que acordou com o telefonema do hospital avisando do falecimento dele por parada cardíaca após sofrer um acidente de carro. Tentou controlar as lágrimas que juntavam no canto dos olhos, mas foi em vão, sentiu cada uma descendo e queimando seu rosto. Resolveu acabar de vez com aquilo e ir até a casa dos Nolan para o jantar. Ela não sabia o motivo de estar tão ansiosa para conhecer Henry, ele era apenas um menino comum de seis anos.
Ou será que não era?
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