Divertimento
5 V. Mello
Notas iniciais
Roupas
Quando criança, Mihael nunca teve grandes luxos.
Claro. Numa família em que sua mãe trabalhasse doze horas por dia, seu pai fosse uma bêbado que não soubesse fazer nada além de xingar a Deus e ao mundo (e, às vezes, quando batia um tédio, espancar a sua mãe) e você fosse uma criança especial que sabia fazer multiplicações de cabeça mais rápido do que a média para a sua idade, era óbvio que você não teria grandes luxos.
Foi numa família assim que Mihael nasceu e cresceu. Nessa época, ele era bastante conformado com sua situação e nunca foi muito de reclamar por não poder comprar os brinquedos da moda ou por ter de usar as roupas de seu irmão mais velho.
Mas, com o tempo, isso mudou.
Mudou quando a merda do seu pai chegou em casa mais bêbado do que o de costume e decidiu que aquela vida era miserável demais, que todos seriam mais felizes no céu, junto de Deus e todos os seus anjos.
Foi um massacre.
Hoje em dia, Mello não se lembrava do que houve de fato naquele dia. Lembrava-se de uma arma e dos gritos desesperados da família, mas não muita coisa além daquilo — o que era uma bênção.
Na época, aquele foi um caso bastante famoso; a casa da família Keehl foi cercada pela polícia e por repórteres e, após muitas horas de negociações, o dia raiou com a morte da mãe e do filho mais velho, além da do pai, que foi morto por agentes da polícia antes que pudesse atirar também no filho mais novo.
E, dessa forma, o filho mais novo da família Keehl terminou na Wammy’s House, uma instituição que acolhia crianças especiais, como ele. Ele, que se tornara agora apenas Mello.
No entanto, ser uma criança “especial” não tinha nada de ruim ali. Após alguns meses de tratamento psicológico e de auto-isolamento, Mello conheceu crianças que, assim como ele, tinham talentos incomuns, cada uma a sua maneira. O mais engraçado é que, quanto mais “especial” fosse, maior era seu valor ali dentro.
No jogo de sucessão ao detetive L, no qual se vira jogado de cabeça, Mello era uma dessas valorosas crianças, e isso lhe era digno de seu orgulho.
Havia, porém, uma que era ainda mais do que ele. Agora, imbuído do desejo de ser o melhor de todos naquele jogo, essa única criança era digna de seu ódio.
Aquela pessoa lhe impedia de chegar à vitória.
Para ultrapassar aquele obstáculo, Mello chegaria ao inimaginável.
Por esse motivo, Mello trilhou caminhos perigosos, manchou suas mãos de sangue, e agora parecia estar ainda mais perto de seu feito.
Mas Near, como sempre, estava mais perto ainda.
Mello sabia que, como L, ele poderia ter tudo o que quisesse em suas mãos num passe de mágica. O mundo dependia de L.
Ele queria ser o melhor porque não queria ter a mesma vida que seus pais tiveram. Não queria aquela miséria para ele.
Mello nunca mais queria ter de vestir as roupas usadas de seu irmão.
Mello, que por mais que tivesse dinheiro e poder, ainda não achava suficiente.
Mello, que agora vestia roupas caras de grife como um símbolo de nunca mais querer voltar para a miséria, mas que ainda era inferior ao mero “menino prodígio” de pijamas brancos.
“Mello, tem algo te incomodando?” — Ainda que não tivesse levantado os olhos de seu videogame de bolso, Matt podia perceber o clima ruim.
“Não é nada, Matt.”
E, dizendo isso, Mello voltou a mirar-se no espelho, como que para se certificar de que não havia nada fora do lugar.
“... Às vezes parece até que você tá saindo pra uma festa.” — O ruivo comentou, ainda sem desviar os olhos de seu jogo.
“Não deixa de ser. Quando eu acabar com Near, pode ter certeza de que vai haver uma festa.”
Como ainda estava olhando-se no espelho, Mello não pôde perceber o olhar melancólico para o amigo.
Ele sabia que aquilo tudo não passava de uma fantasia.
Desde que o conhecera, e isso fazia bastante tempo, Mello parecia não se satisfazer com nada. Parecia ter um ideal que lhe era sempre inalcançável.
Ainda assim, Matt tinha esperanças de que, daquela vez, Mello conseguisse acabar com os fantasmas de seu passado, nem que aquela fosse a última aventura que os dois vivessem juntos.
“Vamos.” — Mello disse, quando finalmente terminou de se arrumar.
Mas Matt sabia sobre os planos de Mello.
Matt sabia que aquilo era o fim.
Aquela foi a última noite da vida dos dois.
Ele estava certo, afinal de contas. Aquela foi a primeira e última chance que Mello precisou para acertar as contas com seu passado, e nunca mais apreciar aquelas suas fantasias.
Notas finais
O que seria do Mello sem aquelas roupas de couro?
Muito, muito, muito obrigada a todos que leem e aos que deixam reviews, isso me deixa muito empolgada pra continuar, sério mesmo ;^;
Até mais e feliz 2012.
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