Diva
2 Capítulo 02 – Novo Começo
Lily acordou cedo naquela manhã do dia dois de setembro. Pensava na viagem. Alguma coisa tinha acontecido, não sabia bem o quê. O encantamento dos quadros que vira e o ar dos museus lhe deram algo que estavam além do que poderia descrever. Como se a Arte fosse algo vivo e tivesse entrado nela. Tinha voltado ansiosa para desenhar, ansiosa para pintar. Se sentia… viva.
No entanto, uma cena no Museo Del Prado, que nem tinha tanto a ver com isso, voltava à sua memória…
Lily se demorava em vários quadros, deixando Petúnia impaciente. A irmã argumentou com os pais que, com a lentidão da ruiva, não teriam tempo de ver o museu todo. Lily contra argumentou que nada adiantaria ver tudo correndo. Até que chegaram a um acordo: ela poderia ficar à vontade e se encontraria com os outros três em uma determinada hora na entrada.
Era tudo o que Lily queria. Na área reservada para as obras de Velázquez, ficou algum tempo em frente ao quadro As meninas. A princesa ocupava o centro cercada por suas damas de companhia, um casal de criados, uma anã e uma criança. Na frente, um cachorro descansava. Na porta ao fundo, aparecia um cavalheiro. Os reis estavam presentes refletidos no espelho, fazendo pose para o pintor, que também aparece na tela diante de um grande cavalete.
Distraída, ela não percebeu uma senhora se aproximar.
—Hola! — cumprimentou a senhora assustando-a levemente
—Ah, me desculpe, não falo espanhol. – ela falou pausadamente e gesticulando esperando que a mulher entendesse pelo menos o sentido geral
—A senhorita é inglesa?
—A senhora fala inglês? Que bom. – disse aliviada – Sou inglesa, sim.
—É bom encontrar alguém de minha terra natal de vez em quando. Sou de Bristol, mas estou há muitos anos na Espanha. Admiradora de Velázquez?
—Estou vendo pela primeira vez para falar a verdade. – e notando o crachá do museu no pescoço dela, pediu – Poderia me contar alguma coisa a respeito dele?
—Claro. Velázquez foi um pintor do século XVII, nasceu em Sevilha…
…
—Barroco… Sei muito pouco a respeito. – confessou Lily
—O homem barroco, por circunstâncias históricas, era um ser divido entre as coisas da Terra e as do Céu. Essa dualidade, quase como se fosse um conflito entre bem e mal, se mostrava na pintura nesse jogo de claro e escuro que a senhorita pode ver nesse quadro e em outros dessa sala. Esse conflito está presente em todos os seres humanos, ninguém é totalmente bom, ou totalmente mau. Erros e acertos fazem parte do cotidiano de todo mundo.
—Algumas pessoas parecem fazer questão de mostrar seu lado desagradável… — a ruiva comentou em voz baixa pensando em um certo Maroto de óculos redondos e cabelos arrepiados
—Algumas… — concordou a senhora – Mas às vezes, por algum motivo, nós é que temos a tendência de ver o lado desagradável.
—Um motivo contínuo…
—Às vezes ceder uma parte e negociar que a outra pessoa ceda outra parte pode resolver…
—Eh…
Tinha pensado no que a senhora disse e tivera uma idéia. Será que daria certo? Se bem que se Potter tivesse criado uma gota de bom senso nas últimas férias, ela nem precisaria colocar a idéia em prática... Bom, era sempre uma esperança.
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Quando James chegou à mesa do café da manhã, sentou-se quase em frente a Lily cumprimentando-a:
—Bom dia, Lily.
—Bom dia, Potter. – foi a resposta
Rach olhou de um para outro sem dizer nada. Ainda não sabia o que significava o que a amiga tinha dito na noite anterior. Será que ela finalmente aceitaria? Ou teria encontrado uma forma particularmente interessante de enxotá-lo? Seja lá o que fosse, tinha a impressão de que alguma coisa mudaria.
James, por sua vez, tinha chamado Evans de “Lily” duas vezes em menos de vinte e quatro horas, e ela não tinha rebatido nenhuma das duas. Seria um bom sinal. Ou mesmo isso seria um mal sinal?
Já tinha recebido vários foras da garota e, tinha de admitir, ela era criativa. Podia ser dissimulada também. O fora mais frustrante que já tinha levado havia sido no meio do sexto ano.
Ele começara a sair com algumas meninas tentando provocar ciúmes nela. Necessário dizer: foi inútil.
—Vá, fique com todas. – Lily disse no seu tom imperioso – Só saiba que eu não vou ser mais uma.
Semanas depois, esse tinha sido apenas mais um “não” entre vários outros. Por algum motivo, que foi completamente apagado da memória de James pelo que aconteceu em seguida, Lily tinha chegado muito perto dele… realmente perto… A centímetros do rosto dele, em uma voz firme e branda, ela reafirmou:
—Eu disse que não seria mais uma.
E saiu.
Simples assim.
Surpreso, James só voltou a si quando ela já saía pelo Retrato da Mulher Gorda.
Pouco depois, Alex chegou, e McGonagall passou distribuindo os horários da semana.
—O que temos agora, Rach? – Bela perguntou se servindo de suco de abóbora
—Dois tempos de Feitiços. – a amiga respondeu consultando o papel
—Frank. – chamou uma voz mais infantil – Onde são essas aulas?
—Vamos ver, Allan… — Frank respondeu – Transfiguração é no quinto andar, ao lado de uma enorme tapeçaria vermelha. Poções é na terceira sala das masmorras.
—Obrigado. – disse o menino e saiu
—Eu me lembro do meu primeiro dia de aula. – fez Alice – Achei que nunca fosse encontrar as salas.
—Nem me lembre. – disse Frank – De qualquer forma, acho que Allan se acostuma antes de mim. Ele tem um bom senso de direção.
Quando um quartanista terminou de falar com Alex, ela reclamou:
—Eu queria que Dublendore não tivesse dito nada sobre essa Mostra Cultural Mágica.
—Por que, Alex? – Lily perguntou
—Porque agora as pessoas ficam me perguntando a respeito e, até a reunião de quarta-feira, eu sei tanto quanto elas.
Mais para a direita da mesa, Remus dizia surpreso:
—Padfoot, você já tem um encontro?
—Por que o espanto, Moony? Eu já não disse que sou o mais bonito de Hogwarts?
—E o mais modesto. – Remus acrescentou
—É, isso também.
—Quem é, Padfoot? – James perguntou com um meio sorriso
—Flavinha McCain, da Lufa-Lufa.
—Ela não é uma pessoa lá muito agradável. – Remus comentou
—Ela é bonita, não é? – retorquiu Sirius
—Se isso basta pra você… — fez Alex
—Não basta exatamente, mas é um quesito importante.
Lily revirou os olhos sem dizer nada, Alex o olhou entediada.
—Dá um tempo.
Por sorte, os ponteiros do relógio anunciaram que estava na hora de eles irem para a aula, e a discussão se encerrou ali.
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A reunião dos Monitores sobre a Mostra Cultural Mágica veio em dois dias e, logo depois delas, circulares foram afixadas nos murais de avisos dos quatro Salões Comunais.
Os projetos deveriam ser submetidos aos professores em até dois meses para aprovação ou não. Cada trabalho teria um professor responsável. Aos monitores caberia ajudar na organização geral do evento que ocorreria no fim de semana no fim de abril.
O castelo começou a fervilhar de idéias nos dias seguintes.
No domingo à noite, no dormitório, Alice perguntou às amigas:
—Já sabem o que querem fazer para a Mostra?
—Ainda não. – Rach respondeu
—Bom, temos quase dois meses para pensar. – Bela comentou
—Alex? – perguntou Lice
—Ando pensando que talvez seja interessante um pouco de teatro por aqui.
—Sim! Seria ótimo. – disse Bela
—Lily?
—Hum… Também estou considerando algo a ver com Arte… — disse em um traço de sorriso
—O que? – fez Lice interessada
—Algo como um atelier. – ela respondeu – Um espaço para qualquer aluno expor algo que tenha feito.
—Gostei da idéia. – Alice disse
—Não podemos esquecer os trabalhos acadêmicos também. – lembrou Alex
—Claro. – fez Bela em frente ao espelho terminando de tirar a leve maquiagem que usava todos os dias
Lily se distraiu por um momento. Ao colocar seu pijama, fez as contas: sete dias. Uma semana inteira sem precisar ouvir um convite petulante para sair. Se continuasse assim pelos… o que? duzentos? duzentos e poucos dias? Ela fecharia um tranqüilo sétimo ano em Hogwarts. Com um pouquinho de sorte, quem sabe?…
Lembrava-se do último convite dele, no penúltimo dia do sexto ano. O lugar sugerido naquela vez havia sido a Torre de Astronomia.
—Potter, você não foi alfabetizado? Qual parte de “não” você não entendeu?
—Eu acho que você quer aceitar. – ele provocou – Só não quer dar o braço a torcer…
—Porque você acredita nisso, não significa que é verdade.
—Será? – ele ainda a provocava
—Você também acredita na Fada dos Dentes?
James riu.
—Pode dizer o que quiser. Não me convence. – disse ele
—Você está tentando convencer a mim ou a você?
Lily tinha um tom de voz peculiar. Era invariavelmente sincero sem jamais ser ríspido ou rude. Suave sem ser fragilmente doce. Altivo sem ser arrogante. Particularmente essa última característica se destacava nas constantes discussões que tinha com Potter.
James levantou a mão para tocar o rosto dela. O olhar de Lily faiscou na direção dele pelo atrevimento. Com um sorriso de lábios contraídos, o garoto tornou a abaixar a mão e subiu para o dormitório.
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No almoço do dia seguinte, Lily inocentemente enchia seu copo de suco de laranja, quando James sentou ao seu lado na mesa da Grifinória.
—Está um belo dia hoje, não acha, Lily?
—Um típico dia de fim de verão. – ela respondeu sem muito entusiasmo
—Já que está um dia tão bonito, — ele começou – você não gostaria de dar uma volta no lago comigo mais tarde?
Quase oito dias. Parecia tão promissor…
—Potter, — ela virou-se para ele – posso falar com você um instante?
—Claro.
Vendo que ele a esperava dizer alguma coisa, ela acrescentou:
—A sós.
Ele estendeu a mão para o lado com um sorriso disfarçado dizendo:
—Depois de você.
Lily se levantou seguida dele.
Rach e um quarto da mesa da Grifinória os observaram sair do Salão Principal.
Aos pés da escadaria de mármore, vazia àquela hora, Lily falou:
—Potter, essas discussões já me cansaram.
—Então finalmente aceita meu pedido? – ele sorriu galantemente convencido
—Na verdade, — ela replicou – vim propor um cessar-fogo.
James riu pelo nariz achando graça.
—O trato é o seguinte: — ela continuou em seu tom peculiar – eu começo a tratá-lo como um amigo. Em troca você pára de me convidar para sair. Acredite, sua insistência é irritante.
—E se eu não quiser ser só seu amigo?
—É pegar ou largar. – ela foi taxativa
Ele estreitou os olhos analisando a proposta
—Então? – ela cobrou
—Está bem. – concordou – Trato feito.
James estendeu a mão e sentiu a mão delicada da garota na sua.
—Por que quis me falar isso em particular. – ele perguntou
—Sabe, — ela respondeu – você fica potencialmente irritante quando quer se aparecer para seus amigos.
—Hei! – ele se indignou – Você agora não era minha amiga?
—Amigos devem ser sinceros.
—Se sou um amigo, vai passar a me chamar de James?
—Acho que Potter lhe cai melhor, mas ‘tá, pode ser. Vamos almoçar?
—Claro.
E os dois voltaram para o Salão Principal.
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