Distância
19 Capítulo 19
Notas iniciais
PDV Kim.
Hoje eu e Mello vamos sair. Íris me fez prometer que a deixaria me arrumar hoje, então não reclamo quando ela seleciona para mim uma blusa cinza de mangas longas (e um decote bem generoso), uma saia preta curta e solta e uma meia calça. Jogo um casaco preto por cima e calço minhas botas. Infelizmente Íris decidiu me maquiar também.
Ela pega seus materiais e passa em mim um rímel incolor, lápis... Azul? Por que azul? E brilho labial. Por fim ela me deixa ir.
Desço para o jardim, indo para o portão, aonde Mello e eu combinamos de nos encontrar.
Mas Mello ainda não chegou. Encosto-me a uma árvore ao lado do portão e fico observando a casa, esperando que meu louro saia de lá.
Cerca de meia hora se passa. Olho meu relógio. Tudo bem, eu me adiantei muito. Ele só está cinco minutos atrasado.
Mais tempo se passa. O que está havendo? Olho ao redor, mas tudo o que vejo é um esquilo. Pego uma noz do chão e a mostro para o roedor, que a princípio parece um pouco desconfiado, mas acaba se aproximando e tomando a noz de minha mão e a enfiando na boca. Repito o processo com outra noz. O esquilo não demora tanto a pegá-lá desta vez. Depois some, subindo por uma árvore. Muito me surpreendo quando ele volta e fica me encarando, provavelmente esperando por mais uma noz. Dou para o bichinho enquanto me sento no chão.
Cerca de quinze minutos se passam e as nozes se acabam. Espero que o esquilo vá embora, mas ele fica ali, me olhando.
— Pois é, amiguinho, acabaram as nozes. — Ele fica ali. — Ei! Acabaram as nozes! Não tem mais nenhuma no chão e você sobe em árvores melhor que eu. — Oh, Deus, eu estou falando com um esquilo. — Tudo bem, fique aí, então. O Mello está demorando mesmo, assim eu não fico sozinha. — Mais um minuto se passa e nós ficamos nos encarando. Kami-sama, o que esse esquilo quer? — Acho que eu vou te dar um nome, tudo bem? — Mip! Guincha o animalzinho, como se respondesse. — Vou te chamar de Mip, já que foi a única coisa que me "disse". — Bufo. Por que é que eu estou falando com o Mip? Ele é um esquilo!
— Vejo que fez um amigo novo. — Ouço uma voz ao meu lado. Levanto-me para abraçar o louro.
— O Mip apareceu aqui e eu fiquei brincando com ele, já que demorou tanto.
— Mip? Chamou esse roedor peludo de Mip?
— Foi a única coisa que ele disse. E por que está tão atrasado? — O louro olha o relógio do celular.
— Deus, eu estou atrasado! Desculpe, Snowdrop, eu dormi e Matt me acordou cinco minutos atrás dizendo que eu já deveria estar aqui. Aí eu saí correndo. Desculpe.
— Ok... Tudo bem, Mello. — Respondo. — Vamos indo!
— Claro.
— Tchau, Mip! — Me despeço do roedor, que ainda me olha curiosamente.
— Que lindo, Kim, você ficou amiga de um esquilo. — Mello não poderia ser mais sarcástico do que isso. — E o chamou de Mip!
— O Mip é muito fofo!
— Você é louca, sabia disso?
— Obrigada, muito obrigada. Caso não saiba, a loucura é o principio de tudo, senhor Chocólatra!
— Tudo bem, Albina... Já me acostumei com a sua loucura. — Ele segura minha mão e seguimos para o ponto de ônibus mais próximo. Ele se senta no banco para esperar e me puxa para seu colo.
— Já sabe para onde vamos? — Pergunto.
— Eu pensei em um lugar. Um que fui há muito tempo atrás. Tudo bem por você? Se não gostar não precisamos ficar muito, só queria te mostrar.
— Claro. Vamos lá então. Onde é?
— Eu nunca disse que contaria onde vamos. Mas vou dar uma pista e dizer que é longe.
— Wow, como isso ajuda. — Reviro os olhos.
— Venha, nosso ônibus chegou, baixinha. — Diz enquanto o transporte para.
Entramos no ônibus e nos sentamos lado a lado, eu na janela. Mello me abraça, fazendo-me deitar em seu peito. Meu travesseiro favorito, devo admitir. Ele fica acariciando meus cabelos durante toda a viajem, sem dizer nada exceto palavras doces que raramente saem da boca de Mello, sendo dirigidas sempre a mim.
— Isso é tão bom. — Suspiro.
— O quê? — Pergunta.
— Isso. Você me abraçar. A situação toda. É bom ficar aqui. Você gosta?
— Muito. Gosto muito de quando você fica assim.
— Como?
— Assim, quase dormindo e me usando como travesseiro. É bom sentir você também. Em especial depois de tanto tempo, pequena. Eu te amo muito, Katherine.
— Eu te amo, Mihael. Te amo mais do que a minha própria vida. — Suspiro, dizendo isso baixinho como se fosse um diálogo interno. Ele me aperta ainda mais contra seu peito.
Quase uma hora depois o ônibus para. Saltamos e Mello volta a andar segura do minha mão. Estamos em uma área bonita, muito bonita. A beira de um parque, que é o que embeleza o lugar. É cheio de árvores e flores coloridas contrastando com o verde da grama e das folhas. Há um lago no centro do parque. Patos e cisnes habitam a água, além de uma espécie de gaivota que, por algum motivo, me lembra um pouco uma foca.
— É aqui. Vamos entrar? — Diz meu louro.
— Claro. — Digo, deixando que ele puxe minha mão.
Entramos no parque e nos sentamos em um banquinho a beira do lago, eu novamente deitada em seu peito, mas dessa vez estou em seu colo, suas mãos envolvendo minha cintura. Sinto que eu poderia ficar aqui para sempre. No colo de Mello.
Um esquilo passa correndo e eu me lembro do pequeno Mip.
— Ei, Snowdrop, é o seu amiguinho! — Exclama o louro, também se lembrando. — Mip, não é?
— Sim. O nome dele é Mip. — Respondo antes de suspirar. — Ei, Mello?
— Hm?
— Koishiteru, Mello. — Digo.
— O quê? Preciso de uma tradução.
— Em japonês tem três jeitos de se dizer "eu te amo". Um deles é "Daisuki", para amigos e ficantes. Outro é "Aishiteru", para um namorado mais sério. O terceiro jeito, "Koishiteru", é para a pessoa com a qual quer passar o resto da vida.
— Kim... Eu... Koishiteru, minha pequena Snowdrop. — Sorri por fim. Sinto o aperto em minha cintura ficar mais firme. Mello passa a acariciar meu cabelo e eu devaneio por vários minutos.
Criancinhas começam a brincar, correndo ao redor do banco. Mello começa a ficar irritado com os pequenos.
— As mães deles não ensinaram a não incomodar? — Resmunga o louro.
— Não seja idiota, louro. As mãs deles devem ter ensinado isso sim, só não contavam com a presença de um certo louro psicopata aqui.
— Hmpf. — Ele se faz de magoado e eu o beijo. Um beijo profundo e lento, ainda cheio de saudades.
— EEW! — Ouço as criancinhas gemerem, parando de brincar. Sorrio no meio do beijo, mas sem interromper.
— Ei, pigmeus, vão brincar em outro lugar! — O louro reclama quando o beijo se quebra por falta de ar e nos deparamos com as crianças olhando como se fosse um cinema. Sinto-me ficar vermelha. Os pequenos voltam a correr ao redor do banco.
— Mihael? Mihael Keehl? — Uma voz masculina ressoa atrás de nós. Viramo-nos para olhar. um garoto alto, moreno e de olhos cinzentos está parado atrás do banco.
— John? Está brincando, não?
— Caralho, moleque, há quanto tempo! Eu tinha dez anos quando te vi da última vez! — O garoto, John, parece muito feliz. — E o Mail? Ainda estão no mesmo... Er...
— Sim, estamos no mesmo orfanato, mas é um outro agora, não mais o St. Patrick's. — Sorrio para mim mesma com a inocência do menino. Agora sei que o nome do Matt é Mail. Espero que ele não dia o sobrenome também.
— Ah. Isso é bom. — Murmura John. — E essa aí, Mihael? Devo concluir que continua pegando todas meninas? — Pergunta. Isso faz com que aquela sensação desconfortável que senti quando Mello deu o apelido para Ushio volte. Fico corada por isso.
— Não, não, esse meu lado acabou há um bom tempo. Essa é a minha namorada, a Amy. — Ele inventa um nome para mim. Sorrio para John.
— Sortudo, estou com enveja agora. — Ri. — Oi, Amy. Sou o John.
— Oi, John. Tudo bem?
— Tudo bem, e você?
— Bem também. De onde se conhecem?
— É uma longa história e, como namorada do Mihael, talvez não goste muito de ouvir. — Olho para Mello, que agora faz cara de inocente.
— Algo contra isso, Chocólatra? Fale agora ou cale-se para sempre.
— Faça como preferir, Floco-de-Neve.
— Desculpe, sou curiosa.
— Bem, quando o Mihael tinha onze anos, essa coisa de pegar as meninas já estava bem clara nos garotos do orfanato antigo dele. E uma vez ele ficou com a Annabelle, minha irmã. Eu fiquei puto e fui me entender com ele. Brigamos feio, mas nossa amizade começou assim. — Olho novamente para o lado, fingindo raiva. Mello imita a expressão de um filhote que caiu da mudança.
— Sinto que agora uma certa albina vai me matar. — Mello provoca.
— Ah, Mihael, por mais que você queira eu não sou TÃO ciumenta assim.
— Hmpf. Você é um saco, sabia? Mas me diga, John, como vai a nossa querida Annabelle? — Pergunta ele, como que para me irritar.
— Bem. Deixou de ser chata. — Os dois garotos riem.
— Mande um beijo para ela. — Mello me testa e eu chego ao limite. Dou um tapa de leve no braço do louro.
— Conseguiu. — Rosno. Ele me abraça forte, acalmando a crise de ciúmes.
- Desculpe, pequena, eu não fiz isso para te torturar, ok? Só para irritar um pouco. – Diz enquanto eu me aninho em seu colo.
- Tudo bem, Mihael.
- Ei, não querem ir lá em casa? A Anna ia gostar, Mihael. – Diz John, parecendo querer me deixar irritada também.
- Acho que não vai dar, John... Quem sabe uma outra vez . Sabe como é...
- Sei... Bem, a gente se encontra... Pela vida. Tchau.
- Tchau, John. – Dizemos em uníssono.
- Tchau, Mihael. Tchau Amy. – John se afasta.
- Amy? – Questiono Mello.
- Eu estava pensando em uma música de Evanescence quando fui te apresentar.
- Não me contou que gostava de Evanescence. – Digo. – Eu gosto muito também. Mas em que música estava pensando?
- My Immortal. Às vezes, quando eu lembro de você, penso nesta música.
- Por quê? – Digo, aproximando-me dele.
- Porque, enquanto estava no Japão, isso tudo ficava me torturando. É como se as feridas não fossem cicatrizar nunca. O tempo não cooperava, eu só pensava em você, só sonhava com você... E você me assombrou por todos esses meses e isso só melhorava quando eu falava com você, Kim. – Ele cospe palavras cheias de uma antiga agonia.
- Mello... – Começo, mas demoro para terminar. – Queria que não tivesse sido assim. Desculpe. – Suspiro antes de beijá-lo longamente, permitindo que nossos lábios dancem juntos mais uma vez neste dia tão tranqüilo e feliz. Sim, este é um dia muito feliz para mim e para Mello.
Os braços de Mello me envolvem com força, impedindo quase todos os meus movimentos, exceto os da lígua, lábios e mãos.
- Desculpe... – Repito.
- A culpa não é sua, Snowdrop. Não mesmo. Ao menos eu sei que valeu a pena sentir aquilo tudo. Eu te amo. — Ele volta a me beijar, agora deitando-se completamente sobre mim, sem parar de me beijar.
- Mello... O que você... Pare! – Peço, assustada.
- Não vou fazer nada, Kim. Eu juro. Só estou te beijando. Mesmo. Quer dizer, você tem treze anos, eu tenho quatorze... Não faria isso.
- Ok. – Digo, beijando-o novamente e me deixando levar pela embriaguez que o contato me causa.
Depois de várias horas, durante as quais nossas atividades se alternaram entre diálogos e beijos, Mello se levanta e me oferece uma mão, a qual eu aceito e ele me puxa para cima. Depois me abraça, mantendo-me de lado para ele, e começa a andar. A prisão de seus braços atrapalha um pouco os movimentos, mas quem se importa? Bem, eu não.
- Temos mesmo que ir? — Resmungo, apertada contra ele.
- Sim, é o último ônibus. E já passou do horário de voltar para casa. Roger vai nos matar se nos pegar. – Explica enquanto nos aproximamos da saída do parque. – Merda! – Xinga.
- O quê?
- Corra! – Diz, largando minha cintura e segurando minha mão. Olho para frente e vejo o motivo: Nosso transporte de volta para casa está indo embora. Obrigo minhas pernas a me impulsionarem para frente, segurando a mão de Mello e correndo. Primeiro sou puxada, depois corremos lado a lado e, por fim, eu o puxo para frente. Chegamos ao ponto ainda a tempo de pegar o ônibus, mas só por ele estar completamente vazio. Mais uma vez passo a viajem aconchegada no peito do meu louro.
***
PDV – Matt.
Estou jogando um jogo aleatório no PSP enquanto espero o tédio desistir de me assolar. Juro que preferiria estar no meio de uma crise de ódio do Mello do que estar nesse tédio. Íris não está comigo agora porque teve que terminar o dever, então estou aqui me entendiando.
Talvez na hora do jantar isso passe.
Desisto do jogo. Ele estava roubando!
Deito na cama e tento dormir, mas não consigo. Saio do quarto. Talvez L e BB estejam livres. Se bem que... Bem, digamos que eu não queira mais entrar no quarto de BB e L.
Vou para o jardim, na esperança de encontrar o que fazer. Bingo! Lá estão a japonesa e o brasileiro, sentados debaixo de uma árvore lendo um mangá que cujo nome não sei ler... Porque está em japonês!
- Shio-chan, o que isso quer dizer? – Ouço Ino perguntar enquanto me aproximo.
- “Sá”, essa é a pronúncia. Não tem uma tradução para português ou inglês. É como dizer “quem sabe?”, ou “como explicar?”, ou ainda “vai saber”.
- Ah. Obrigado, Shio-chan.
- De nada, Ino-kun. – Sorri, recolocando o fone no ouvido.
- Ei, Shio-chan! Ino! – Imito o jeito que Ino a chama. Isso parece surtir efeito.
- Não. A chame. De Shio-chan. – Rosna o garoto.
- Ino-chan... Acalme-se. – Diz a menina de voz infantil, afastando o cabelo roxo do rosto. Agora já é possível ver a raiz incrivelmente preta dos fios. Fico alguns segundos tentando raciocinar sobre o motivo de ela esconder a cor original.
- Foi mal, cara, eu não sabia... Não pensei que também fosse um apelido privado. – Resmungo, sentando-me ao lado de Ino. Ele se aproxima de Ushio e ambos fecham os mangás em sincronia, ela tirando um dos fones do ouvido, permitindo que eu escute um pouco da música.
- Tudo bem... Então... O que veio fazer aqui?
- Procurar companhia. Íris me trocou pela lição. – Digo. A recém-descoberta-morena ri de mim. – E vocês, o que vieram fazer aqui? – Lanço um olhar sugestivo a ambos.
- Não é óbvio? Viemos ler mangás! – Por um instante, tenho a sensação de que Ino não gosta de ter que dar esta resposta.
- Vocês são um casal muito estranho. – Resmungo.
- Eu e Ino-kun não somos um casal! – Exclama Ushio, ficando meio corada. Vejo-o baixar os olhos.
- Er... Sério? – Sua resposta me choca um pouco. – Mas parecem...
- Muita gente acha isso... Podemos dizer que... er... – Ushio olha para o “amigo” com uma pergunta nos olhos. Ele faz que sim. – Talvez “amizade colorida” seja o termo que nos descreve mais corretamente.
- Qual a difrença? – Pergunto. Ushio levanta o mangá, mostrando-me a capa colorida com a inscrição em kanji.
- Essa é a diferença.
- Ok... Posso fazer mais uma pergunta? Depois eu vou embora e deixo vocês em paz.
- Qual? – Pergunta Ino.
- Ushio, por que você pinta o cabelo? – Pergunto. Um segundo depois, ao ver os braços de Ino correndo para envolvê-la, percebo que fui um tanto indelicado.
- Saia daqui, Matt. – Diz o garoto rispidamente.
- Não... Tudo bem. Eu falo. É que, bem, o cabelo da minha mãe e o meu sempre foram idênticos. E eu sempre gostei da cor deles, porque eram iguais aos da minha mãe. – Começa. Posso ver o choro que Ushio segura com toda a força do mundo. – Então, quando ela morreu, eu não agüentava mais me olhar no espelho. Então resolvi pintá-los de roxo. Aliás, tenho que pintá-los de novo antes que a cor termine de aparecer... Bem, acho que já está ficando frio. Vamos entrar?
Ushio se levanta e coloca os dois fones de ouvido, elevando o volume ao máximo e nos ignorando durante todo o percurso, apenas segurando a mão de Ino.
O dia acabou. Jantamos e dormimos.
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