Distrito 10, Beatrice Solace
1 O Inicio
Acordo suando e com uma sensação horrível... Tive um pesadelo.
No sonho, eu caminhava em um campo com uma neblina densa a minha volta, e eu procurava por alguém. Não sabia ao certo quem eu procurava até ver os olhos verdes mais assustadores do mundo – Os olhos de meu pai.
Primeiro tive uma boa sensação, já estava acostumada com seu olhar apreensivo e já era confortante tê-lo por perto. Mas após alguns segundos esse olhar mudou para um olhar orgulhoso, e imediatamente eu soube o motivo do orgulho. Orgulho de eu ter ganhado os jogos. E então sua voz me chamou e eu comecei a correr na direção da voz. Quando a terra me engoliu e eu acordei.
Ao invés de me levantar, fico deitada encarando o teto e pensando no que se passa: ‘’Meu nome é Beatrice Fletcher Solace. Sou do distrito 10. Tenho 16 anos. Tenho 16 tésseras. A chance de eu ir pra arena é mínima. Falta apenas um ano pra eu me livrar da tensão das colheitas. Mas eu quero me voluntariar e a colheita é hoje. ’’
Essa é a verdade. Eu preciso provar de uma vez por todas para minha família e para mim mesma que eu consigo. Assim como meu pai conseguiu, eu também posso. Eu posso vencer os jogos. Eu tenho habilidade com bestas e arco e flechas. Sou rápida, e mortal em um combate corpo a corpo. Meu pai me ensinou tudo que eu preciso saber para sobreviver nos jogos. E desde que ele se mudou para a Vila dos Vitoriosos com a minha mãe, quando ganhou os jogos uma vez, ele conseguiu contrabandear armas da capital, e me ensinou a usar todas elas. Sou treinada para isso desde os meus 7 anos.
Então, deixo que minha cabeça se esvazie e levanto-me para me arrumar para a colheita.
Quando saio do banho, coloco um velho vestigo cinza que pertencia a minha mãe, Jess. E quando acabo de me trocar, meu pai bate a porta.
– Pode entrar – Digo – Bom dia.
Ele não diz nada. Apenas fica parado, me analisando como sempre faz.
– Belo vestido – Diz finalmente.
– Obrigada – Digo tentando não rir. Não é de se esperar que meu pai elogie alguém, principalmente a mim. Ele sempre diz que elogios nos deixam mais fracos. – Colheita...
– Interessante. Já pensou em como vai ser se for selecionada?
Eu sabia que ele falaria isso. Ele fala isso todo ano. Ele me pressiona desde os 10 anos a treinar e treinar. Me ensina regras de sobrevivência e me faz acordar as 7h da manhã aos fins de semana para correr. Até confesso que gosto um pouco dessa coisa e tal, mas que tipo de pai da uma besta explosiva pra uma menina de 8 anos? Ou, que tipo de pai nunca diz que ama a filha?
É isso que me frustra. O fato dele nunca ter sido compreensivo comigo. Ele sempre me tratou como um soldado, e não como sua filha. E eu estou a começando a vê-lo como meu treinador, e não como meu... Pai. E acho que é por esse motivo que preciso provar que não sou fraca. Provar que sou tão boa quanto ele.
– Vou me voluntariar – Digo confiante. E pela primeira vez, em anos, ele sorriu pra mim – Eu quero ir pra arena.
– Isso é bom. Muito bom. Está certa disso?
– Sim.
– Você tem potencial pra vencer. Se não fosse do distrito 10, eu poderia te chama-la de carreirista.
Tentei sorrir mas aquilo me pareceu mais um insulto. Então um silêncio constrangedor dominou o quarto, e meu pai finalmente sorriu e pediu licença.
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