Distração.
1 Capítulo único.
Amélie estava observando as nuvens quando Ruan cruzou a esquina, numa bicicleta branca com uma cesta delicada na frente. Ruan, de cabelos castanhos ondulados e olhos marcantes, andar duro e decidido, e uma mania ridícula de coçar a nuca.
Se a menina não estivesse observando as nuvens, teria visto o olhar de admiração que ele lhe lançou, e teria admirado-o de volta. Ela não baixou a cabeça, ele desviou o olhar e seguiu o caminho.
Amélie nunca o conheceu.
Na segunda vez em que o amor a encontrou, ela estava esperando o ônibus. Ouvia Delilah, de Florence and the machine, e estava muito ocupada imaginando todas as cenas em sua mente. Thalia, alta, cabelos curtos e sorriso aberto de dentes retos, ficou exatamente 2 minutos e 32 segundos sentada ao seu lado, observando-a com o canto dos olhos, esperando ser observada de volta.
Se Amélie não estivesse tão distraída com a música, teria percebido o quanto o queixo fino de Thalia era encantador, e o quanto suas orelhas eram pequenas e bonitinhas, e em como suas mãos eram bem cuidadas. Mas Florence parecia mais interessante no momento, e ela ainda hoje sequer sabe da existência de Thalia.
Esteban a cutucou no ombro na fila do mercado, numa sexta-feira 13. Ela havia derrubado a carteira. Amélie agradeceu sem muita importância, e não percebeu como as sobrancelhas dele se curvavam de maneira adorável.
Glória chegou a ser tocada, mas Amélie não teve paciência para conhecer sua alma, e se distraiu com outras delicadezas da vida.
Alice se esforçou o suficiente para ser notada, mas era muito difícil prender a atenção de Amélie, então ela a deixou ir.
Uma única vez na vida Amélie parou para reparar. Em Evangeline. Na fila do metrô, vestida de azul dos pés à cor do cabelo. Tinha uma cicatriz de catapora na bochecha esquerda, e o lábio inferior era perceptivelmente maior que o superior.
Ela usava fones de ouvido.
Evangeline também teria se interessado por Amélie, mas estava muito distraída observando uma pintura do outro lado da estação.
Fale com o autor