Distorcido
1 Em retalhos
Notas iniciais
Maven sentia suas entranhas se contorcerem dentro de si em agonia, sua mandíbula trincada e os punhos fechados tão fortemente ao ponto dos nós de seus dedos ficarem brancos. As pedras silenciosas de seu trono eram desconfortáveis, era como a sensação de ter um peso incômodo e invisível sobre si, o deixando quase incapacitado de sequer respirar corretamente.
Era tortura.
Mas era um desconforto que valia a pena, afinal. Qualquer coisa, mesmo a sensação das pedras silenciosas que se assemelhavam ao sufocamento, era melhor que os sussurros em sua mente.
Ah, a voz de Elara em sua cabeça mesmo depois de morta. Aquilo era tortura de verdade. A dor, a aflição, o desespero.
Qualquer sensação era melhor do que a voz de sua mãe sussurrando para si, como ela costumava fazer quando viva. A voz embebida em doçura e veneno, rastejando no interior de sua mente como uma cobra lasciva.
Maven ainda podia sentir, ainda podia ouvir. Ele sabia que mesmo em morte Elara jamais o deixaria, ela sempre seria uma parte sua.
Uma parte sua que ela deixara como lembrete para Maven. Ele jamais conseguiria novamente o amor por seu pai, o amor por seu irmão e até mesmo sentimentos básicos para qualquer ser humano como medo e remorso. Aquelas eram partes reais suas, mas que sua mãe, como a verdadeira cirurgiã que era, havia tirado de si.
Maven ainda lembrava da dor. Elara sussurrava e sussurrava, percorrendo toda a sua mente, montando-a e desmontando-a como um quebre-cabeça. Retirava e colocava partes suas. Sensações, sentimentos, memórias. Doía e ele somente lembrava-se de querer gritar, de querer chorar, de querer correr e se esconder.
Com o tempo, até mesmo a dor ela conseguiu lhe tirar e os sussurros em sua cabeça tornaram-se comuns, presentes em sua consciência mesmo quando ela não estava por perto.
Elara era, de fato, uma sussurradora muito talentosa, construindo e demolindo Maven ao seu bel prazer.
Maven se recordava de somente duas vezes que sua mãe havia falhado.
A primeira vez fora com Thomas.
Ela tentara tirar o sentimento e a lembrança de Thomas de si, apagá-lo. Mas não funcionou. A única coisa que Elara conseguiu foi deturpar a memória do garoto vermelho, borrá-la, mas jamais apagá-la.
O sentimento permaneceu ali, no fundo de seu coração, trancado e enterrado de forma que jamais pudesse vir à tona novamente. Sua mãe havia lhe ensinado que deixar o coração muito exposto era uma fraqueza — e fraquezas não eram permitidas pela rainha.
A segunda vez que sua mãe falhara havia sido com Mare.
Ela tentara de todas as formas fazer com que ele odiasse a garota elétrica, tentou arrancar os sentimentos e as memórias, mas assim como com Thomas, Elara não havia conseguido.
Maven lembrava-se dos sussurros cada vez mais incisivos, mais persistentes e agressivos em sua cabeça, tentando a todo custo eliminar aquele sentimento que Maven possuía por Mare, tentando eliminar aquela fraqueza.
Porém Elara não conseguira. Ela fizera muito pior: corrompera aquele sentimento, retorcendo-o, transformando-o em uma obsessão.
Com o tempo Maven se perdeu. Ele já não sabia mais quais eram partes suas e quais eram as partes colocadas ali por sua mãe. Não sabia onde começava seus pensamentos e onde terminava os sussurros de Elara.
Mas já não importava mais.
Sua mãe estava morta e enterrada à sete palmos, não havia reparo para sua mente envenenada e em retalhos.
Ele era o que era.
Era fácil dizer aquilo para si mesmo, era fácil acreditar que não havia outra maneira.
Mas sempre que Maven descansava a cabeça no travesseiro na ausência de pedras silenciosas, ele sabia, no fundo de seu âmago, no seu interior e íntimo, que ele não era suposto a ser o que era; distorcido, retorcido, tão quebrado ao ponto de ter partes suas faltando.
No final, ele era o que Elara queria que ele fosse, mas nunca o que ele verdadeiramente era, nunca o que ele poderia vir a ser.
Maven, afinal, era só um garoto quebradiço.
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