Distantes
5 Capitulo 5 - Lembranças
Notas iniciais
Samantha fechou frustrada a porta da geladeira. Sua cabeça estava cheia. Não conseguia pensar direito e, sempre que seu cérebro se recusava a colaborar, e sua mente não funcionava como deveria, ela abria a porta da geladeira. Era como se esse hábito estranho a ajudasse a clarear a mente, a se orientar. Como se ao abrir a porta da geladeira e mirar seja lá o que houvesse lá dentro, lhe traria a resposta exata de seu maior problema. Ou como se a temperatura baixa lhe esfriasse a cabeça. Ou, talvez, até pensasse que se abriria um portal magico que a traria para um mundo perfeito, sem encrencas, nem problemas, nem duvidas. Inexplicavelmente, aquilo funcionava. Abrir a porta da geladeira a ajudava a pensar.
Mas aquele era um dia muito incomum. Nada dos problemas de sempre, com o serviço social municipal querendo mandar ela e o irmão para um abrigo, mesmo às vésperas de completarem dezoito anos. Não. Não problemas corriqueiros com o vicio da mãe: com sua dividas em bares, ou ela caída em algum canto da cidade ou dando vexame. Ou mesmo quando apanhava de seu amante aproveitador quando ela se recusava a fazer um programa, ou a roubar, ou qualquer outra coisa baixa demais até para aquela pobre infeliz. Nada de problemas comuns e rotineiros... Não.
Foi até a pia e encheu um copo com a água da torneira. Apoiou uma mão na beirada da bancada e jogou a água com cuidado na nuca exposta, enquanto inclinava a cabeça para baixo. Sentiu-a escorrer até o queixo e pingar dentro da pia, fazendo um som oco na peça metálica. Mas sua cabeça não parava um instante. Estava preocupada.
Não falava com o irmão desde o incidente no dia anterior. Não que fossem muito próximos. Não eram muito de conversar... Nem mesmo quando ele arrumava problemas. Eles resolviam e pronto. Fim da historia.
Não ficavam no pé um do outro. Mas também não se queriam mal. Só não sabiam direito como agir entre sí. Pelo menos não mais. Não foi sempre assim. Eles eram bem próximos quando crianças. Teve uma época em que Filip até deixou o cabelo crescer e, ela cortava bem curto, para que confundissem os dois. Com seus corpinhos esguios de criança, rostinhos corados e sua semelhança natural de gêmeos, conseguiam enganar facilmente os distraídos ou menos atentos.
Filip, às vezes, pegava um vestido da irmã para tentar comprar doces fiado na padaria, já que o pai havia proibido o padeiro de vender qualquer coisa ao menino. "_Você é prejuízo sobre pernas garoto.''– Era o que o pai dizia. Até Samantha, uma vez, usou as roupas do irmão para tentar jogar bolinhas de gude com os meninos da rua. Não deu certo. Quando um deles tirou uma lagartixa morta do bolso do casaco, ela deu um grito e voltou correndo para casa. Filip teria ficado zangado com ela pela má fama que ganhou no bairro — de ter medo de lagartixas. Mas a perdoou fácil quando percebeu o tanto de doces que ganharia das apostas com os meninos da rua, para provar sua coragem diante do pequeno réptil — criatura que não lhe fazia mal algum, ao contrário da irmã, que passou a ter arrepios só de pensar no bichinho.
Sim, a infância deles tinha sido boa. Até os onze anos, quando uma tia estranha que eles não conheciam apareceu chamando seu pai para uma viagem. Dizendo que já era hora deles conhecerem sua casa. Samantha não gostou desse assunto. Aquela era sua casa. E seu pai também não ficou feliz com a tal tia. Mandou ela embora para nunca mais voltar, e proibiu os meninos de contar sobre a estranha visita para sua mãe — que na época estava gravida de um irmãozinho dos dois.
Filipe ficou feliz em esquecer a tal tia. Mas Samantha percebeu que depois de sua visita, a casa nunca mais foi a mesma coisa. A mãe descobriu, de alguma forma, sobre a misteriosa visita. E agora seus pais, embora não brigassem, também já não eram felizes.
Um dia, Rafaella (a mãe de Samantha e Filip) passou mal, e foi para o hospital. Os gêmeos esperaram ansiosos pela chegada do irmão. O bebê chegaria logo. No dia seguinte, ao ouviram o som do motor do taxi encostando na calçada, correram para a janela, e lá estavam eles : o pai, a mãe e... só. O pequeno Igor (nome que o próprio Filip havia escolhido) nunca chegou. Seus pais nunca disseram o que aconteceu com a criança. Samantha suspeitava que não tinha morrido, porque não houve enterro. Mas também não conseguia pensar em outra possibilidade. A única certeza que tinha, é que depois daquele dia, a familia, que já não era mais a mesma, desmoronou de vez.
A mãe passou a beber. A beber muito. Na verdade, cada vez mais. O pai começou a ficar dias fora. Primeiro um ou dois dias. Depois semanas. Até que nunca mais voltou. E, Samantha e Filip passaram a ser responsáveis por sí mesmos aos doze anos de idade. E foram se perdendo um do outro.
Mas aquela era uma ocasião totalmente inusitada. Mesmo para o histórico dos gêmeos. Samantha expulsou do pensamento as lembranças do passado. Secou o pescoço com a propria camiseta. Puxou uma cadeira da mesa à sua direita. Sentou olhando pra a porta que dava para os fundos do terreno, e se pôs a esperar pelo irmão. Se tinha um momento em que precisariam voltar a conversar, esse momento era agora.
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